
Janaina Morais é uma das integrantes do Coletivo C5 que trabalhou a partir da sinestesia entre o olfato e a visão
Os cinco sentidos do ser humano (olfato, audição, tato, visão e paladar) nos ajudam a reconhecer o universo que nos cerca, identificar aquilo que nos é agradável, protetor, perigoso, delicioso, doce, amargo, áspero, desagradável, entre tantas sensações que experimentamos de forma cotidiana, instintiva e, por isso mesmo, praticamente “ignoradas” pelo nosso consciente. Todas elas, de alguma forma, podem nos trazer memórias, sentimentos e, a partir delas, nos inspirar a criar arte. Foi com essa ideia na cabeça que a analista de marketing criativo e comunicação da empresa Drom Fragrâncias, Ludimilla Fonseca, convidou um grupo de fotógrafos de Juiz de Fora a criar uma série de imagens, tendo como base aquele que talvez seja o menos valorizado dos sentidos: o olfato. O resultado pode ser conferido na exposição “Foto fragrante”, do Coletivo C5, formado pelos fotógrafos Janaina Morais, Rodrigo Souza, David Azevedo, Nayse Ribeiro e Brenda Marques. A mostra está no JF Foto 15, aberto este mês em comemoração ao Dia Mundial da Fotografia, celebrado nesta quarta, 19. As mostras estão em cartaz no CCBM até 7 de setembro.
‘O nariz como olho’
Dos integrantes do Coletivo C5, foi Janaina Morais quem recebeu a reportagem da Tribuna na tarde da última terça-feira, no CCBM, em meio às fotografias e fragrâncias, que podem ser experimentadas pelo público a fim de dizer a quais lembranças e sensações os cheiros remetem – sem saber, claro, de que eram feitas as fragrâncias e quais as inspirações para cada uma.
A experiência foi a mesma pela qual passaram os fotógrafos para criar suas obras, que registraram tanto a primeira lembrança que veio à cabeça quanto preferiram pensar um pouquinho mais. “A Ludimilla trouxe as fragrâncias sem identificar quais eram, e precisamos fazer as fotos a partir dessa sinestesia entre o olfato e a visão. Era ter o nariz como ‘olho'”, diz Janaina. Cada um, então, produziu suas fotos (em cores ou em preto e branco) para o projeto, um dos escolhidos pelo comitê do IV Prêmio Funalfa de Fotografia.
No total, a mostra tem 20 fotos inspiradas nas lembranças e sensações despertadas pelas quatro fragrâncias. Elas foram fabricadas a partir dos temas divino, superstições, memória e amor, o que foi revelado aos fotógrafos (com exceção de David e Rodrigo, que estavam em São Paulo) apenas na abertura do JF Foto 15, na última sexta-feira.
Quem conferir o trabalho vai encontrar associações imediatas entre os temas e a maioria das fotos, mesmo que o público possa ter suas próprias interpretações. “Acredito que a maioria ‘acertou’ na interpretação dos cheiros, e o resultado não deixou de ser uma surpresa para mim”, diz Janaina, destacando que pelo menos uma das fragrâncias despertou nela a lembrança de um local específico. “Vi que essa proposta ajuda a trabalhar com a intuição e o instinto. Achei as fotos 80% literais quando as vi pela primeira vez. Ao mesmo tempo, não faria aquelas imagens se estivesse na posição deles. Quando comparamos o trabalho de um artista ao de outro, o resultado nunca vai ser igual, mas o conceito é próximo”, destaca.
O ‘olhar olfativo’ do público
O público que comparecer à exposição poderá também experimentar as mesmas fragrâncias que resultaram no “Foto fragrante” por meio de visitas guiadas por monitores, que acontecem de quarta a sexta-feira, das 10h às 14h e das 17h às 21h, sábados e domingos, das 10h às 18h. O visitante poderá dizer quais lembranças e fragrâncias cada perfume lembra e depois conhecer qual o conceito e composição de cada um dos perfumes. Além disso, o “Foto fragrante” é uma mostra interativa: o coletivo tem um perfil no Instagram (fotofragrante) que recebe imagens inspiradas no projeto por meio da hashtag #fotofragrante. Há também uma página no Facebook (www.facebook.com/fotofragrante) para quem quiser enviar seu material. Outra opção é pelo e-mail fotofragrante@gmail.com. Alguns dos trabalhos enviados pelo público já estão na exposição.
“As pessoas podem levar as fitinhas com a fragrância para se inspirarem, ou mesmo criar fotos a partir de outras memórias olfativas”, explica Janaina Morais. “A participação do público é importante porque, a partir do momento que ele reflete sobre essa imagem, passa a criar arte. Estamos recebendo fotografias com registros que eu não imaginaria, mas que estão dentro do contexto”, acrescenta Ludimilla Fonseca.
Arte com todos os sentidos
Ludimilla explica ainda que o “Foto fragrante” é a parte inicial de um projeto maior, consequência do trabalho de conclusão de curso para a pós-graduação da Faculdade Santa Marcelina, em São Paulo. A ideia é que outras expressões artísticas sejam criadas a partir das mesmas fragrâncias. “É um projeto de longo prazo. Queremos fazer o mesmo com pintura, música, poesia, escultura, arquitetura e cinema. Esperamos, um dia, ter todos esses suportes numa mesma exposição, com várias formas de arte envolvendo os cinco sentidos e tendo sido criadas a partir do olfato”, planeja.
“Eu sempre fui muito interessada no ‘Manifesto das sete artes’, do italiano Ricciotto Canudo, quando o cinema não era reconhecido como arte por ‘apenas’ juntar outras formas de expressão artística. Me debrucei sobre essa ideia na graduação e acabei me interessando pela perfumaria. Este poderia ser um ‘Manifesto da oitava arte’, pois, para chegar a um perfume, você tem que passar por várias etapas, desde a escolha da fragrância, a cor, a embalagem. O Brasil é o maior consumidor de perfume do mundo, é importante termos não só o costume de usar o produto, mas ter também uma ‘cultura do perfume’.”
FOTO FRAGRANTE
Visitas guiadas de quarta a sexta-feira, das 10h às 14h e das 17h às 21h, sábados e domingos, das 10h às 18h. Até 7 de setembro
CCBM
(Av. Getúlio Vargas 200)

