Para Vicente Parrilla, a música deve sempre estar aberta à criatividade. Especializado em improvisações e intervenções criativas em peças de música antiga, chamadas glosas, o grupo espanhol More Hispano, dirigido pelo músico, se apresenta hoje na Igreja do Rosário, às 20h30, como um dos destaques da programação do Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga. Boa parte do repertório do gênero precisa de um componente criativo enorme. Ao contrário do que se pensa, as composições não foram criadas como obras fechadas, em que não se pode acrescentar ou subtrair nada. No caso do More Hispano, o caráter inovador da música salta aos ouvidos. A improvisação, algo em que somos especializados, é um capítulo à parte na recriação de composições de séculos passados. É uma das maneiras de renovar esse repertório.
Segundo Vicente, que assume a flauta doce na apresentação em Juiz de Fora, o improviso é também uma das formas mais interessantes de conexão musical com o público. A plateia se torna testemunha de algo único, que nunca foi tocado daquela forma antes, e isso dá uma sensação de privilégio, de singularidade, de estar presente em algo especial. Para brindar os espectadores com um espetáculo personalizado, é preciso, entretanto, investir em uma formação muito específica. Isso não se ensina, se aprende. É um pouco como aprender um idioma, para, depois de um certo tempo, poder utilizar a língua com maior liberdade. Na música, essa liberdade criativa também vem assim. É preciso passar por uma imersão de conhecimento para depois fazer suas incursões.
Professor do Conservatorio Superior de Música Manuel Castillo de Sevilla, Vicente defende que o conhecimento acadêmico e o técnico devem sempre caminhar lado a lado. É uma necessidade. O conhecimento acadêmico não se basta sem a técnica, e vice-versa. Ele destaca, ainda, que ter se tornado docente foi um degrau muito importante para sua carreira. É sempre enriquecedor, e, apesar de ser um clichê dizer isso, o professor realmente aprende com o aluno. Em qualquer lugar do mundo, com alunos de qualquer idade, a troca de ideias é muito interessante. Pessoalmente, é um prazer poder mostrar a outras pessoas o que elas podem fazer com seus instrumentos, usando não apenas a teoria, mas mostrando a elas.
Lacunas musicais
Segundo Vicente, uma das barreiras enfrentadas pela música antiga em todo o mundo vem de lacunas que a própria estrutura de ensino dos conservatórios reafirma. Quando alguém vai para uma universidade estudar qualquer arte ou disciplina, a possibilidade de aprender apenas sobre um ou dois períodos históricos daquele conhecimento durante todo o curso é impensável. Mas é isso que os conservatórios fazem. Onde leciono, por exemplo, somos cinco professores de música antiga e quase 25 de música moderna, para cerca de 800 alunos. Não faz sentido.
Para o flautista, o cenário da música antiga está passando por uma reestruturação atualmente, sobretudo na Europa. Estou lá e observo claramente que países do Norte, como Alemanha, Suíça e Holanda, berços da música antiga, estão procurando aprender com os músicos de países do Sul, como Itália e Espanha, onde o movimento tem ganhado muita força. Vicente acredita que este seja um caminho natural e necessário para qualquer gênero. Gostaria que mais músicos se sentissem tão empolgados como eu com esse movimento. Quando se chega ao topo, é necessário olhar para baixo para começar um novo caminho de subida. Senão, só o que se consegue é estagnação.
Obras com impressões pessoais
Na apresentação desta noite, o More Hispano interpretará peças famosas do Renascimento italiano e espanhol. São músicas tão peculiares que continuaram sendo interpretadas nos séculos seguintes à sua composição, por terem grande representatividade naquele período. O que se fazia eram releituras dos originais, acrescentando diferentes variantes sonoras e técnicas. Na época, os intérpretes queriam, cada um, fazer sua própria recriação destas peças. E é isto que vamos fazer em Juiz de Fora, explica Vicente.
Além das composições do séculos XV e XVI, o repertório terá também uma glosa do próprio diretor do grupo, Contrapunto sobre Avis Maris Stella. Dar suas próprias impressões a peças clássicas é uma forma fantástica de ser você mesmo e se encontrar como músico, sem se prender a um roteiro preestabelecido.
Para ele, a utilização de instrumentos antigos é essencial para realizar este trabalho. Eles foram designados para a música antiga, então são os que terão a sonoridade perfeita ao executá-la. Os modernos têm diversas características diferentes, e a que mais sobressai é a forma como eles são afinados. Se você toca música antiga com um instrumento moderno, ela provavelmente soará ilógica, e, às vezes, até idiota. Mas não é culpa da música, ela só está sendo tocada com o instrumento errado, explica.
Na apresentação de hoje, o grupo, que varia o número de integrantes de acordo com o tipo de apresentação, será formado por quatro músicos. Além da flauta doce de Vicente, Rami Alqhai assume a viola de gamba, Javier Nuñes, o cravo, e Miguel Rincón, o alaúde. É claro que quando conseguimos nos apresentar com todos os músicos, o som é mais rico. Mas o que nosso quarteto fará em Juiz de Fora será muito inovador e singular, garante o diretor do grupo espanhol.
MORE HISPANO
Hoje, às 20h30
Igreja do Rosário
(Rua Santos Dumont 215 – Granbery)
