
Ismair Zaghetto traz um retrato do ex-prefeito, morto em 2010, em “Mello Reis e o sonho da metrópole e da cultura”
Como um homem de redação que é, Ismair Zaghetto vai a fundo na apuração dos dados que ganharam o livro “Mello Reis e o sonho da metrópole e da cultura”, cujo lançamento está programado para esta quinta-feira, às 20h, no Museu de Arte Murilo Mendes. Porém, sua escrita também é a de um amigo, que, muitas vezes, caminhou lado a lado do protagonista dessa história. “Considero que esse livro, a exemplo do que eu fiz para Itamar, escapa a qualquer rótulo. É mais que uma grande reportagem. É um livro de um jornalista e de um amigo”, declara o autor, em entrevista ao quadro “Sala de leitura”, transmitido aos sábados, às 10h30, com reprise às segundas-feiras, às 14h30, na Rádio CBN Juiz de Fora.
Longe das redações, dos estúdios de TV e de rádio e das salas de aula, onde atuou como professor de antropologia e sociologia, aos 82 anos, Ismair dedica-se, exclusivamente, à vida de escritor. Sua mais nova obra, junto de “Itamar e o bando de sonhadores” e “Machado Sobrinho, o guerreiro da utopia”, lança o olhar sobre a historiografia do município. A publicação traz um retrato da vida pessoal e política do ex-prefeito, relatando feitos, como a criação da Secretaria de Transportes e o antigo Instituto de Pesquisa e Planejamento (Ipplan).
“Honestamente, agora só quero escrever ficção. Cheguei à conclusão de que meu tempo de paciência e até de um certo humor que a pesquisa demanda chegou ao fim. Mas, na vida, a gente nunca deve falar não”, afirma o escritor, escolhido por Mello Reis, lá em 1979, para estar à frente de um de seus mais preciosos sonhos: a criação da Funalfa.
“Tudo mudava em termos de cultura. Juiz de Fora, celebradamente pioneira na indústria e em manifestações culturais e artísticas, descortinava para o Brasil a primeira fundação cultural municipal”, assevera o jornalista, para quem o ex-prefeito sempre teve um olhar atento para as artes. É ao “sonho da cultura” que o escritor devota a última parte do livro. Nela, Ismair relembra os tempos de projetos, como “Ônibus das seis”, que levava uma atração musical todas as sextas-feiras, às 18h, para os pontos da Av. Rio Branco; as “Caravanas culturais”, um palco ambulante que andava por bairros da cidade; e o “Funalfa-Som 82”, trabalho que tinha o propósito de reviver os grandes festivais de música.
O sonho do Paschoal Carlos Magno
Também é na administração de Mello Reis que Juiz de Fora viu nascer a ideia da abertura de um teatro, com 480 lugares, foyer, bar, fosso para orquestra e palco com acesso ao subsolo, em homenagem ao ator, poeta e teatrólogo, criador da Casa do Estudante do Brasil. Contudo, o ex-prefeito não o viu de portas abertas. As obras foram paralisadas por cerca de 30 anos, sendo retomadas somente em 2015, cinco anos após sua morte. “A tristeza de Mello Reis só não era maior, ao deixar a Prefeitura, ao fim de 1983, porque, sonhador como sempre foi, lhe brotara a esperança de que, faltando tão pouco, seus sucessores terminariam o Paschoal Carlos Magno”, escreve Ismair. “Essa tristeza acompanhou-lhe ao túmulo.”
Ismair Zaghetto também é autor de “Chá com Procópio Ferreira”, livro de contos publicado em 2012 com apoio da Lei Murilo Mendes, e prepara, para o fim de 2016, “O almirante e a bailarina”, seu romance de estreia. A julgar pelas palavras de Mello Reis que ele escolheu para encerrar “Mello Reis e o sonho da metrópole e da cultura”, sua trajetória literária deixaria o amigo prefeito feliz. “Criar é vocação indestrutível de nossa gente. Escrever é uma das mais agudas manifestações do nosso fazer cultural.”
Tribuna – Por que Mello Reis merece um livro?
Ismair Zaghetto – Costumo dizer que Mello Reis foi, antes de tudo, um prefeito inovador, elegante, bem-humorado. Um homem que, a exemplo de Itamar Franco, sempre teve uma visão de futuro. Parece brincadeira, mas é raro, no nosso país, administradores preocupados com a demanda do futuro. Estão mais preocupados com a próxima eleição. Nós lembramos, por exemplo, não apenas no campo da cultura, com a criação da Funalfa, da qual fui o primeiro superintendente, mas a implantação de muitos outros órgãos, como, por exemplo, o Ipplan (Instituto de Pesquisa e Planejamento), que foi fundamental para aquele momento que Juiz de Fora vivia. Criou também o Demlurb. Quando Mello Reis assumiu a Prefeitura, em janeiro de 1977, Juiz de Fora coletava 40 toneladas de lixo por dia. Quando ele deixou o poder, em janeiro de 1983, Juiz de Fora coletava 300 toneladas diárias. Cresceu lixo, porque as pessoas começaram a consumir mais e a produzir mais lixo, mas passamos a ter um instrumento ágil, identificado com aquela demanda do município.
– Você diz que Mello Reis era de esquerda. Como ele estaria se sentindo nesse momento político do nosso país?
– Em primeiro lugar, o Mello estaria muito triste. Eu considero um momento triste, e, quando digo isso, é porque qualquer episódio traumático é sempre desagradável. Muitas pessoas costumam me indagar: “Ismair, como o Mello era homem de esquerda e foi prefeito pela Arena (Aliança Renovadora Nacional), que foi uma espécie de braço político do movimento militar?” Ele sempre se justificou que, na verdade, queria trazer recursos para Juiz de Fora. Recursos do Estado, da União e internacionais, e trouxe muito. E não foi por outra razão que ele conseguiu empréstimo com recursos internacionais, de 25 milhões de dólares, para implantar um polo siderúrgico em Juiz de Fora. A siderúrgica Mendes Júnior era um sonho.
– O livro traz que Mello Reis morreu levando com ele a amargura de não ver aberto o Teatro Paschoal Carlos Magno. Ao que tudo indica, ele ficará pronto em 2016. Agora, o ex-prefeito estaria feliz?
– Muito feliz. O Mello prometeu ao próprio Paschoal Carlos Magno, numa apresentação do grupo Divulgação, a construção daquele espaço. Hoje a gente tem muitos locais para o desenvolvimento e aprimoramento das produções culturais, mas naquele tempo não tinha. Não existia o Teatro Solar. O Cinema Central (Cine-Theatro Central), tombado por Mello Reis, ainda não era do Poder Público. Há um detalhe que é bom lembrar. Ele deixou propositadamente o decreto de tombamento do Cinema Central para o último dia de governo, porque ele sabia que seria uma pressão grande. E ele tinha razão, porque, ao decretar o tombamento do Cinema Central, ele perdeu todo o valor comercial. O grande valor dele é histórico e artístico.
– Seu livro nos leva a acreditar que Mello Reis sempre foi um incentivador também da literatura de Juiz de Fora…
– Acho que, depois da criação da Funalfa, o melhor que fizeram foi a Lei Murilo Mendes (Proposta pelo ex-vereador Vanderlei Tomaz, a lei entrou em vigor em 1995, durante gestão de Custódio Mattos). Deu uma outra dimensão às preocupações bibliográficas de Juiz de Fora. O livro lembra que o Mello, quando jovem, falava que tinha muita vontade de ter uma fundação, e ele foi profético. Ele dizia que faltava um instrumento que ajudasse as pessoas a fazerem seus livros, que quisessem escrever suas poesias, seus contos, sobre algum fato histórico. A Funalfa respondeu ao anseio daquele jovem.
– Na introdução, você conta que fez a revisão do livro e que não é afeito ao novo acordo ortográfico da Língua Portuguesa. Por quê?
– Não chego ao exagero de deixar tudo de lado, mas gosto de escrever muito à vontade. Imagine um Guimarães Rosa tolhido pela revisão? Não teríamos todos aqueles neologismos fantásticos que ele criou em “Sagarana”.
– O jornalista Ismair Zaghetto ficou no passado. Agora, você é escritor. Ainda acredita no jornalismo?
– Muito, essa nossa profissão é bendita, é abençoada.
MELLO REIS E O SONHO DA METRÓPOLE E DA CULTURA
Lançamento de livro
19 de maio, às 20h
Mamm
(Rua Benjamin Constant 790 – Centro)

