
Após 30 anos de formação, grupo de grandes nomes da MPB canta primeiro e único disco
O tempo é mesmo o senhor. Ainda que o primeiro e único disco da Banda Zil, lançado pela então gigante Continental, em 1987, tenha alcançado alguma repercussão, sendo relançado anos mais tarde pela PolyGram norte-americano na Europa, Japão e nos Estados Unidos, foi o tempo quem lhe conferiu ar magistral. O mesmo tiquetaquear do relógio, esse que escreve a posteridade, tratou de mostrar que ainda a produção do grupo formado há três décadas, em 1986, e dissolvido em 1991, não mora apenas no passado, mas nos dias que correm e correrão. “Hoje temos a consciência de que é mais um projeto em nossas vidas. Gostamos muito deste trabalho e achamos que ainda tem muita água pra rolar”, pontua Zé Renato, que, junto de Claudio Nucci, Ricardo Silveira, Marcos Ariel, Zé Nogueira, Jurim Moreira e João Batista, sobe ao palco do Cultural Bar nesta quinta para gravar o primeiro álbum da Zil.
“As estruturas básicas dos arranjos são as mesmas, mas a interpretação mudou. Não tem como não incluirmos as experiências que tivemos”, comenta Zé Renato sobre o repertório do show, que inclui as sete faixas do álbum, além de “Zil”, composição instrumental de Nucci, e “Blackbird”, de Lennon e McCartney. Dentre os registros já feitos na década de 1980, está “Benefício” (Eu tenho o dom de mandar/ o vídeo de volta ao início./ O dom de agradar,/não sou difícil/ um benefício), famosa gravação do Boca Livre, do qual Zé Renato também é integrante, e “Ânima”, parceria dele com Milton Nascimento.
“Eu tinha entregue a melodia para o Chico Buarque, mas ficou com ele por pouco tempo, porque fui a Minas fazer um show e encontrei o Milton. Mostrei para ele, e logo ele quis colocar a letra. Teve uma conexão muito grande”, conta Zé Renato, referindo-se à canção que deu título ao disco de Bituca lançado em 1982 e gravada por grandes nomes da MPB, como Leila Pinheiro. Nos textos ou nas sonoridades, o único trabalho da Banda Zil conseguiu refletir a produção nacional que ainda hoje ecoa. Do passado ao presente, fez-se não só registro de um grupo, mas de gerações.
“Pegadas frescas”, de Zé Renato com Hamilton Vaz Pereira, parece até mesmo dizer ao hoje: “Parece que tudo está cada vez mais delicado. Dificuldades imprevistas pintam por todo lado. Policiais furiosos e a fúria dos populares”. “Esse álbum é meio jazzístico, mas também mistura-se com a nossa música, com as nossas individuais influências”, avalia Zé Renato, dizendo que a mesma naturalidade que serviu como elo pautou o desligamento. “Cada um tinha suas atividades tocando com outros músicos, em outros projetos, e isso fez com que a Zil tivesse uma duração curta.”
‘Trabalhamos sem esmorecer’
Aos 60, já grisalho, o capixaba radicado no Rio Zé Renato, assim como seus parceiros na Zil, representa uma geração que em muito ajudou a descobrir a brasilidade de uma música que não recusa a história artística nacional, mas encontra seus próprios caminhos. Quando olha para o tempo que divide a gravação da Zil e a do DVD, o que lhe vem à cabeça? “Vem a certeza de que trilhei o caminho certo. Música é a coisa que melhor sei fazer profissionalmente. Continuo me divertindo muito. É muito prazeroso. Diversifico bastante as minhas atividades. Sempre fui assim, mas foi ficando cada vez mais claro para as pessoas e para mim”, afirma ele, que prepara um novo disco solo com autorais e um DVD do quarteto Dobrando a Carioca, formado por ele, Moacyr Luz, Guinga e Jards Macalé.
Enquanto olha para uma produção de décadas atrás, Zé Renato não tira os olhos do hoje. Não tira os olhos da tela do computador. Segue fazendo e ouvindo. “A internet é uma grande aliada para termos uma noção do que está sendo feito na produção musical do Brasil. Passo muito tempo escutando. Isso serve como munição para a gente. A produção musical do país continua a todo vapor”, pontua ele, longe do mainstream e perto da luta. “Não é fácil fazer música e nunca foi, pelo menos para nós, que não fabricamos hitmakers. Claro que quando a gente faz um música, nosso desejo é que tenha um bom alcance, mas a realidade é outra. Trabalhamos sem esmorecer. Procuramos uma forma de botar o bloco na rua”, discursa ele, finalizando: “Na verdade, minha escola sempre foi a da batalha.”
BANDA ZIL
Gravação de DVD
Nesta quinta-feira,
às 23h
Cultural Bar
(Av. Deusdedit Salgado 3.955). 3231-3388

