A espiritualidade que envolve a vida e a carreira de Marcos Languanje já se faz presente no nome do artista – Languanje vem de uma derivação de nomenclatura conferida aos filhos de santo. Íntimo dos mais diversos batuques, o músico explora no palco do espetáculo "Teófilo – Um sonho de liberdade" as possibilidades sonoras de diferentes instrumentos musicais, como atabaques, caixas de folia, berimbau e xilofone, além de resgatar e trabalhar melodias antigas, arraigadas às tradições negras, vindas do jongo e do congo. Marcos assina a bela trilha sonora original, essência do espetáculo, que fala sobre a história real de um escravo da região, morto a chibatadas ao ser capturado após a fuga, em cartaz até hoje no CCBM, às 20h.
Há 11 anos na cena musical juiz-forana, Marcos já teve passagem como percussionista por algumas bandas, como a que acompanha a cantora Myllena e o grupo Só Parênt, integrando hoje o Bombocado. Marcos também desenvolve trabalhos como artista plástico, assinando as esculturas em ferro que decoram o Cultural Bar. A nova linha à qual se dedica é a de móveis e utensílios sustentáveis, fabricados a partir de objetos descartados. "Cabo de vassoura, funil, ralo, tudo pode ser reaproveitado."
O músico atua ainda como articulador do projeto "Gente em primeiro lugar", da Funalfa, ministrando aulas de percussão para crianças e adolescentes, entre 7 e 14 anos de idade. O contato com os jovens também se dá pela participação em outros projetos, como os promovidos pelo Centro de Educação do Menor e do Idoso (CEM) e pela Casa do Pequeno Artista. "Essa relação diária com a música faz bem", diz ele, que agora investe, ao lado de Amanda Martins e Felipe Saleme, em uma trilha sonora para o grupo de dança contemporânea Chico Rei, de Betim.
Efeito de som
Os mais atentos da plateia de "Teófilo" logo percebem que todas as vozes, melodias e percussões são executadas ao vivo pelo próprio músico. A experiência é viável graças a um aparelho chamado "loop station", que permite que os sons reproduzidos sejam gravados e repetidos, culminando assim em uma sobreposição de variados elementos na canção. "Nunca havia tido contato com essa tecnologia, mas foi muito interessante poder incorporá-la à montagem", diz.
O projeto, que tem apoio da Lei Murilo Mendes, começou a ser traçado apenas por Adelino Benedito e Marcos, mas foi ganhando corpo com a participação de outros atores – Sandra Almeida e Cristiano Balboa -, e ainda a dança de Verônica Pagliares. As passagens musicais que serviriam de suporte ao roteiro acabaram por virar 14 inserções no espetáculo, com duração de uma hora. "Tive, no final das contas, pouco mais de um mês para compor a trilha", conta o músico.
Ainda que seja impossível deixar de lado as crenças que cultuam os orixás, já que a trama trata da fé de um escravo em sua busca pela liberdade, Marcos destaca a intenção de não impregnar a peça por crenças que podem ser apenas suas. "Tentei ter o cuidado de, por exemplo, colocar letras que não falem exatamente das santidades, mas de elementos da natureza, por exemplo", explica o percussionista, que cresceu em contato com os ritos e pontos do candomblé. O ponto alto do espetáculo se dá justamente no acolhimento do escravo morto por Nanã – divindade que cuida da vida e da morte.
