
Rafael Cestaro cuida do arquivo situado no Mamm
Há projetos que, de tão grades, superam até mesmo o prazo de uma vida. Fruto da paixão e da certeza de que a leitura transforma uma realidade, a coleção do jornalista Dormevilly Nóbrega foi iniciada quando ele tinha apenas 13 anos. Certamente, naquela época, ainda não haviam grandes pretensões de fazer das prateleiras um mapa da cultura local e regional. Aos poucos, a humilde casa no Bairro de Lourdes, região Sudeste da cidade, se tornou pequena demais para a vultosa biblioteca do colecionador, morto em abril de 2003. Uma tímida parcela do universo que reúne mais de 15 mil exemplares, entre livros, jornais, revistas e recortes, está novamente disponível. Em cerimônia na próxima quinta, 23, o Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm) celebra a abertura, que, enfim, atende a profissionalização do acervo tão almejada por seu criador.
O incansável trabalho de Dormevilly em incorporar títulos e torná-los acessíveis também é imperativo nas duas salas – nem tão grandes, mas também nem tão pequenas -, nas quais se encontra um conjunto moderno de estantes e muitas caixas com livros, recortes e jornais que ainda não foram catalogados. Responsável pela organização da coleção, o biblioteconomista Rafael Cestaro projeta um prazo de aproximadamente quatro anos para que tudo esteja ordenado e restaurado. Cada biblioteca tem a sua especificidade. O que paira aqui é o interesse histórico, comenta.
Respeitando o sistema de Classificação Decimal Universal (CDU), baseado no esquema do bibliotecário norte-americano Melvil Dewey e praticado pela maioria das universidades brasileiras, todas as obras adquiridas pela UFJF foram divididas por áreas, sendo as de literatura e de história as duas mais relevantes na totalidade de títulos. Após a higienização, executada pelo setor de conservação e restauração do museu, os livros passam por minuciosas análises, a fim de facilitar a identificação das obras no site da Biblioteca Universitária da instituição, que engloba todos os conjuntos sob sua posse. Contando com uma equipe de estagiários, Cestaro cataloga e classifica cada exemplar, num processo visivelmente árduo. Os arranjos nas estantes também exigem bastante concentração, conta.
Apesar de não ter o acesso permitido – os livros só servirão à consultas locais, sem a possibilidade de empréstimos -, o espaço de agora em nada lembra o ambiente cultuado pelo jornalista e pelos pesquisadores que, com grande frequência, o faziam companhia. Ele era muito hospitaleiro e atendia muito bem as pessoas. O Dormevilly tinha um esquema de fichas em que encontrava tudo, recorda Cestaro, apontando para o livro Organize sua biblioteca, da pesquisadora Heloísa de Almeida Prado, publicado em 1971 e que certamente serviu ao jornalista. Meu pai gostava de tudo muito certinho. Se as coisas não estivessem no lugar, ele logo dava uma bronca. Com certeza ele adoraria ver como está hoje, lembra o advogado Dormevilly Júnior, um dos três filhos do jornalista.
Versos e prosas daqui
A grande maioria dos títulos pertence ao final do século XIX e à primeira metade do século XX. Curiosa, a obra Sombras e penumbras, do próprio Dormevilly, lançada em 1950, se abre com um terceto – Bondade – que muito diz sobre o autor: Que eu seja bom, senhor, de tal maneira/Que ao ser bondoso o povo nunca saiba/Do vazio de minha outra algibeira. Ele sempre adorou ver o pessoal pesquisando, me recordo de já ter feito muitos trabalhos escolares na biblioteca. Aprendi a ler ali. A intenção de meu pai era que isso se mantivesse para o público, emociona-se o filho Dormevilly Júnior.
Segundo Nícea Helena Nogueira, diretora do Mamm, a incorporação do acervo ganha importância e relevância diante da figura criteriosa de Dormevilly. A questão da memória local é muito forte nesse acervo. Ele é uma fonte de pesquisa para diversas áreas e contribui muito com todo o acervo da universidade. É um grande tesouro, comenta, afirmando que não há projetos de retirá-lo do museu, mas de ampliar seu espaço dentro da instituição. Fora do eixo Rio-SP-BH, é muito difícil encontrar um tratamento tão profissional como o que oferecemos, destaca a diretora.
Dormevilly trabalhou em rádio, foi professor de português, geografia e desenho, passou pela Folha Mineira, Gazeta Comercial, Diário Mercantil e Revista Marília, além de jornais de São Paulo, Rio de Janeiro e Recife. Aposentou-se como servidor público da Câmara Municipal de Juiz de Fora, somando, ainda, formação artística na Sociedade de Belas Artes Antônio Parreiras. A profissionalização do acervo do jornalista dialoga com o que ele mesmo acreditava. O destino de haver nascido no Caminho Novo (serve) para abrir novos caminhos de progresso para as Minas Gerais, escreveu ele em um de seus muitos artigos.

