Na esteira da explosão fabril do final do século XIX e início do século XX, quando a energia elétrica trazida por Bernardo Mascarenhas possibilitou a implantação aqui de um pólo têxtil referencial no país, Juiz de Fora detona um processo cultural que faria história de projeção nacional.
Um tempo de seis teatros, sete jornais diários, revistas, uma rádio (a primeira de Minas) e uma tradição de independência e altivez. Um povo que vibra, palpita e trabalha, como dizia o saudoso jornalista José Carlos de Lery Guimarães. Tempo de Belmiro Braga, Azevedo Júnior, Albino Esteves, José Rangel, Machado Sobrinho, Lindolfo Gomes, Gilberto de Alencar, Heitor Guimarães, Alfredo Ferreira Lage e outros intelectuais que fizeram da alvorada do século passado um repositório de arte e conhecimento.
A tantas lembranças estéticas prazerosas, somam-se, a todo instante, novas informações que não só explicam as razões desse escaninho histórico, como o tornam mais rico. Na exposição Cordiais saudações de Noel Rosa a Minas Gerais, com que o Espaço Cultural Correios brindou a cidade até o último sábado, pudemos colher a informação de que o avô materno do lendário poeta da Vila Isabel, Eduardo Corrêa de Azevedo, foi médico, poeta e jornalista em Juiz de Fora, onde colaborou no Diário da Tarde.
Aqui viveram seus avós, sua mãe, dona Martha de Medeiros Rosa, e tios. Dessa linhagem mineira, que também incluem Leopoldina e Cataguases, o filósofo do samba certamente herdou o espírito de humor refinado, a crítica social e política e o gosto pela poesia, a música e as serestas. Noel Rosa, que chegou a estudar Medicina, mas preferiu o samba e a boemia, responde com sua poesia popular e sofisticada, por raro momento na historiografia musical brasileira.
Em boa hora, o Espaço Cultural Correios proporcionou-nos conhecer um pouco mais dessa figura notável. E num momento cultural estratégico, pois, tempo mesmo em que a Universidade Federal de Fora, através do Museu de Arte Murilo Mendes, exibia-nos as Obras selecionadas, um recorte da 29ª Bienal de São Paulo.
Reunindo trabalhos de Adrian Piper, Arthur Barrio, Cildo Meireles, Gil Vicente, Hélio Oiticica, Sandra Gamarra, Zanele Muholi e rara entrevista de Clarice Lispector à TV Cultura, a única que concedeu em toda a sua vida, o juizforano teve acesso a uma amostra do generoso espaço de criação em que se constitui a Bienal de São Paulo.
As personalidades que acima citamos, responsáveis por fazer da primeira metade do século XX um momento excepcional da criação cultural de Juiz de Fora, aplaudiriam de pé (quem sabe não o estão fazendo?) o que pudemos ver e ouvir até domingo último.
Ismair Zaghetto
Sociólogo e professor
