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Um ano após reabertura, Mercado Municipal tem 14 espaços ociosos e preocupa comerciantes

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(Foto: Felipe Couri)

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Dos 14 espaços ociosos no Mercado Municipal, alguns nem chegaram a ser ocupados neste primeiro ano (Foto: Felipe Couri)
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O Mercado Municipal reabriu em abril de 2025, após uma obra que demandou investimento de R$ 11 milhões da Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) e durou mais de um ano. O objetivo era modernizar o lugar e trazer uma ligação mais próxima entre o comércio, a gastronomia e a cultura da cidade, assim como foi feito em várias outras cidades, inclusive Belo Horizonte. O resultado foi um espaço em que caberiam 64 comércios, entre boxes, lojas e restaurantes. No entanto, depois de um ano de funcionamento e do boom inicial de visitas, os comerciantes encontram dificuldades para manter os negócios.

Em entrevista à Tribuna, os relatos são de que o público não voltou ao patamar anterior à reforma. Os valores de condomínio e as dificuldades de divulgação estariam entre os principais desafios, motivando, inclusive, a saída de parte dos permissionários. Atualmente, o Mercado Municipal tem 14 espaços ociosos, somando os que foram desocupados pelos empreendedores e os que nem chegaram a ser ocupados nesse primeiro ano após a reforma. Deste total, cinco são destinados ao setor de  artesanato; quatro, ao setor de frutas, legumes e verduras; quatro, ao setor de restaurante/bar; e um, ao setor de restaurante e bar com entretenimento.

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A dificuldade de trazer os clientes de volta foi sentida por Davi Martins Ferreira, do Linda Nata. “Eles procuraram outros fornecedores e outros lugares para comprar, e para trazer os clientes de volta é complicado”, diz. Apesar de reconhecer que, antes das reformas, o espaço não estava em boas condições, ele observa que o público juiz-forano foi o que mais se afastou do dia a dia das compras no espaço. “Aumentou o turista, mas diminuiu o cliente de dentro de Juiz de Fora.”

Ele relata que também teve algumas surpresas: o valor de aluguel da loja, que tem 29 metros quadrados, já estava definido, mas o preço do condomínio foi acima do que esperava e impactou os lucros. Além disso, este ano ele recebeu cobrança de IPTU no Mercado pela primeira vez: um valor aproximado de R$ 4,3 mil, que depois foi anulado pela Prefeitura por se tratar de um bem tombado.

Procurada pela Tribuna, a PJF informou que não há cobrança devida nesses casos e quem eventualmente já tiver efetuado o pagamento pode solicitar a devolução do valor. “Para isso, basta formalizar o pedido de restituição via Prefeitura Ágil e, em caso de dúvida sobre o processo, procurar uma unidade do Diga”, orienta.

Erico de Paula, do hortifruti Nutri Sempre, é um dos comerciantes mais antigos do Mercado, está no local desde 1988, e nota as mudanças que o tempo trouxe. “Todo mundo que queria comprar vinha aqui, mas com o afastamento que a gente teve, as pessoas se afastaram também. Agora precisamos conquistar eles de volta”, reflete. Ele relembra que, de início, as pessoas estranharam a dificuldade do estacionamento, que era cobrado sem período de carência — o que foi negociado com a PJF em seguida. O valor do condomínio também é algo que o surpreendeu. “A gente tem uma história aqui. Gosto daqui, entrei novo e hoje tenho duas filhas formadas. Faz parte da minha vida.”

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Uma das grandes novidades após a reforma foi o espaço gastronômico. Bete Baiana, do Aruwê, trouxe a comida baiana para o local justamente para ocupar esse posto: ela tem a perspectiva de quem chegou depois da reabertura e vivenciou os desafios de perto, ocupando esse espaço importante no coração da cidade. Na percepção dela, os primeiros meses após a reinauguração foram bem agitados, mas com o passar do tempo, as visitas reduziram. A programação musical conseguiu atrair público, mas os desafios continuam.

“Lá fora, muitas pessoas têm a ideia de que o Mercado ficou muito sofisticado e caro. E muitas pessoas resistem a vir porque escutam essas coisas – o que não é verdade. Temos preços acessíveis para todas as pessoas”, afirma. É o que também pensa Pablo Navarro, do Gran Chopp, que está desde dezembro no Mercado e acredita que os eventos são o que pode ajudar a chamar mais pessoas a conhecerem o espaço. “A gente veio por acreditar que aqui é um lugar plural, que mostra e acredita no que a cidade tem de bom.” Para Bete, é preciso percorrer um longo caminho até que o espaço fique do jeito que os comerciantes precisam: “Com mais movimento, mais transeuntes e mais pessoas vindo visitar”. 

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Comerciantes deixaram espaço após meses

O comerciante Carlyle Lopes teve hortifruti no Mercado Municipal durante 38 anos. Em novembro de 2025, meses após a reinauguração, ele decidiu deixar o posto. “O valor do condomínio estava muito acima do esperado”, conta acrescentando que chegou a pagar algo próximo de R$ 2,3 mil. O movimento, segundo ele, não compensava o valor, ainda mais considerando o aluguel que já estava acordado e o pagamento dos funcionários. “Outras pessoas também saíram. Está faltando muita gente lá. É uma pena, porque é uma vida lá dentro do Mercado.”

Assim como ele, Ana Daibert, da padaria Oui Uai, também optou por deixar o quiosque que tinha após seis meses de funcionamento — e “bastante investimento financeiro e principalmente emocional”, como define. O que a fez querer se instalar  no local foi justamente a ideia de tornar acessível produtos do café e proporcionar encontro entre as pessoas. No entanto, o dia a dia no local, com dificuldade de diálogo com o seu tipo de negócio e a mudança frequente na gerência do Mercado, tornou  a experiência desgastante.

Espaço onde funcionava o Oui Uai, no segundo andar, segue ocioso (Foto: Felipe Couri)

Ela também relata que um problema estrutural fez tudo ficar mais difícil: “No dia de inauguração, teve uma chuva muito forte. Eu saí pra comprar gelo e, quando voltei, todos os funcionários que estavam dentro do quiosque estavam molhados. Naquele momento, vi que tínhamos um problema”, relembra. Com o passar dos meses, o problema foi se agravando, e apesar de várias tentativas, ela diz que o quiosque ficava alagado e nenhuma medida era tomada, fazendo com que fosse necessário ficar sem trabalhar.

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A confeiteira Aline Porto também deixou o Mercado Municipal após seis meses de atividade. Ela ocupou um dos box se dividindo entre o local e o emprego fixo, contando com a ajuda do filho, que deixou o emprego para ajudar a mãe. Depois de investirem em matéria-prima para produção e aquisição de mobiliário, conta que sentiu que parte das “promessas feitas não foram cumpridas”, principalmente no que dizia respeito à segurança e à manutenção no local, que quando precisava de reparos demorava meses para conseguir contato com os responsáveis. Isso aconteceu, por exemplo, com uma luminária que ficava em cima de seu box, que ficou sem funcionar por dois meses apesar de ter avisado para a gestão. “No início, tivemos um movimento muito forte, mas com o passar dos meses, caiu de maneira drástica”, conta ela. A decisão foi tomada, então, por uma série de fatores que foram se somando, mas o principal foi a queda brusca de vendas em um espaço em que o regime de trabalho era todos os dias da semana.

Artesãs apontam falta de divulgação

No espaço dedicado apenas ao artesanato, a principal dificuldade citada é relacionada à divulgação dos trabalhos. Como os boxes são menores, os permissionários pagam valores menores de aluguel e condomínio, o que entendem tornar acessível a ocupação. Mas a falta de visitantes causa preocupação. É o que relata Valéria Borges, do box 7, que está desde dezembro ao lado de uma amiga vendendo crochê e panos.

“Sentimos um descaso com o artesanato. Tem muita gente desmotivada, agora, por isso”, diz. Ela conta que as duas pagam cerca de R$ 600 para ficar no local, o que considera justo pelo espaço que tem e pela boa localização na cidade. Mas, mesmo assim, as contas, muitas vezes, não fecham. “O movimento não chega. Estamos pagando e tem mês que não vendemos uma peça. E aí, precisamos tirar do nosso bolso”, diz. 

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A necessidade de uma divulgação maior também é reforçada por Isabella Fortuna, do box 10. Ela vende velas aromáticas e costura criativa ao lado de uma amiga. “Temos gostado muito do espaço. É uma boa convivência e vemos que quem vem valoriza o artesanato.” Atualmente, a maior parte dos seus clientes são turistas, que vão especificamente para comprar lembrancinhas. Por um lado, considera isso um fator positivo. Por outro, reconhece que seria ainda melhor se tivesse mais divulgação para que outras pessoas que frequentam o Mercado também fossem ao espaço. “Tem muita gente que ainda não conhece a parte de artesanato, mas a gente tá aqui”, destaca.

PJF avalia que momento é de adaptação e ajustes

PJF afirma que é natural que o Mercado Municipal, após este primeiro ano, ainda passe por ajustes (Foto: Felipe Couri)

Em relação aos problemas apresentados pelos permissionários e ex-permissionários, a coordenadora da Comissão de Gestão do Mercado Municipal e secretária de Desenvolvimento Urbano e Participação Popular, Cidinha Louzada, respondeu que, como acontece em todo equipamento público recém-reaberto, os primeiros meses foram de adaptação. Mas com o passar do tempo, o Mercado foi ganhando ritmo próprio, ampliando sua programação, consolidando operações e atraindo novos perfis de frequentadores.

“Entre os moradores de Juiz de Fora, houve crescimento gradual da apropriação do espaço, especialmente à medida em que a agenda cultural foi se fortalecendo e o Mercado passou a sediar apresentações, encontros, exposições e eventos integrados ao calendário da cidade. Já entre os visitantes, a presença foi impulsionada por excursões, ações como o Caminhando pela História e o Educatur, além de grandes eventos realizados no local.”

Após um ano de funcionamento, ela também avaliou ser natural que o Mercado Municipal ainda passe por ajustes e reorganizações internas. No momento, foi inclusive aberto o credenciamento para ocupação dos espaços disponíveis, em uma iniciativa voltada a empreendedores que tenham interesse em desenvolver suas atividades no local, mas com um processo simplificado e menos burocrático. As propostas serão avaliadas com base no critério de melhor técnica, por uma banca responsável, garantindo a qualidade das iniciativas selecionadas. O edital completo está disponível para consulta no site da Prefeitura. “Neste momento, mais do que tratar a vacância como dado isolado, é importante situá-la dentro de um movimento de amadurecimento da ocupação, com revisão de condições e busca por perfis de negócio alinhados à proposta do espaço”, afirma. 

Ao longo do primeiro ano, Cidinha também considera que o funcionamento do equipamento permitiu identificar ajustes necessários. A partir dessa experiência prática, a gestão promoveu adequações e reviu condições de ocupação para tornar esses espaços mais atrativos e compatíveis com a realidade de mercado. Para ela, a dificuldade de ocupação faz parte de um processo de calibragem para que a futura ocupação seja sustentável e adequada ao perfil que o Mercado vem consolidando.

Nesse período, ela também entende que medidas importantes já foram adotadas para aperfeiçoamento do funcionamento, como revisão de valores, reorganização da gestão operacional e o fim da intermediação por terceirizada, fortalecendo a relação direta entre permissionários e a Prefeitura. “Também houve avanços voltados à atração de público, como a implantação de 30 minutos gratuitos de estacionamento e a ampliação da programação cultural e de convivência.” 

Em relação ao fluxo, foi destacado que o Mercado, hoje, cumpre funções mais amplas do que no passado: além do abastecimento, tornou-se espaço de gastronomia, cultura, turismo e encontros. “Isso naturalmente altera a dinâmica de circulação entre os setores. O trabalho da gestão é justamente fazer com que esse novo perfil beneficie cada vez mais todos os segmentos, com ajustes de operação, calendário e estratégias de ativação do espaço”, diz. 

Segundo ela, a gestão tem atuado em duas frentes: consolidando a relação com os permissionários que já estão no espaço e ampliando a atração de novos interessados. “Há procura de empreendedores, inclusive de pessoas que já atuam no próprio Mercado e demonstram interesse em expandir sua presença. Ao mesmo tempo, a ampliação da programação cultural, a inserção do espaço nos circuitos turísticos e a participação em grandes eventos da cidade ajudam a aumentar o fluxo de visitantes e a tornar o ambiente mais atrativo para novos negócios. A perspectiva é seguir nesse caminho, com ocupação qualificada e crescimento sustentado”, conclui.

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