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Antes da madruga, nem pensar

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Quem parte para Ibiza, na Espanha, atrás de diversão, encontra um relógio diferente. Por lá, a maioria das baladas começa durante o dia, numa tentativa de esticar a festa o máximo possível. Na contramão, em países como Alemanha, França e Reino Unido, independentemente da quantidade de público, as noites começam por volta das 20h, encerrando antes de meia-noite. Do lado de cá do Atlântico, em locais como Jericoacoara (CE) e Florianópolis (SC), é possível dançar do nascer ao pôr do Sol. Na vila cearense, depois de alguma conversa e uns "bebericos", a onda é seguir para o arrasta-pé, enquanto que em Floripa, casas de rock e música eletrônica oferecem shows em qualquer hora.

Neste quesito, Juiz de Fora vem acompanhando uma tendência que tem dado o que falar. Seja para estender a curtição ou baratear os gastos, a noite, por aqui, tem começado cada vez mais tarde, depois da 1h, quando, na maioria das grandes metrópoles brasileiras, o público já está batendo palmas para o final das atrações. "Em São Paulo, por exemplo, a gente começa por volta de meia-noite, enquanto que no Rio, é mais cedo", comenta Thiago Salomão, baixista do Martiataka. "Em nosso último show por lá (Rio), começamos às 11h30 e encerramos antes da 1h. É muito mais tempo para curtir o restante da noite", completa o músico.

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Bruno (Santinho) Rocha, articulador do coletivo Epinefrina (Núcleo de Áudio Visual e Música) concorda. "Desde os anos 80, quando meu pai tocava e morava dentro de um espaço onde se produzia shows de MPB, já aconteciam alguns atrasos. Ele reclamava que, por mais que trabalhasse o dia inteiro arrumando pequenos detalhes para a festa da noite, na ‘hora H’, o público não estava lá", conta.

Convidada a tocar em diferentes casas da cidade, a flautista Amanda Martins defende que o "atraso" já foi incorporado à cultura local. "Sempre tem uma ‘concentração’ em algum bar ou na casa de alguém antes de um show. Quando é agenda de fora, tem uma banda de abertura. Tanto o público quanto as casas se habituaram a esse horário. As casas que fecham as portas mais cedo fazem com que o público reclame ou continue sua noite em outro local." O vocalista Rhee Charles (da Glitter Magic) também acredita que o público em Juiz de Fora se acostumou com o início da balada mais tarde. "Como temos uma cidade basicamente de estudantes, os finais de semana são tirados para curtir até não poder mais. E os produtores acabam inclinando para mais tarde os eventos voltados ao público adulto. Um círculo vicioso e difícil de quebrar", constata.

Para o compositor Fred Fonseca, a música local está muito atrelada à curtição, e a apreciação de um trabalho autoral tem buscado espaço em locais menores e mais adequados a essa realidade. "Os artistas daqui estão muitas vezes escalados para se apresentarem após os shows consagrados e tornam-se reféns do atraso da atração principal. O artista atrasa, o público espera. Quando o público atrasa, o artista também espera, mas a casa pede para começar, numa ideia errônea de que a iniciativa vai chamar a atenção daqueles que ainda não estão ali", comenta Fonseca, diretor regional da Cooperativa da Música de Minas.

Convocado a subir ao palco do Cultural Bar à 1h30 na última sexta, Pedro Luís, que veio acompanhado por sua banda, afirma que o quanto antes começar melhor. "Somos apenas uma das atrações da noite, e o horário depende do expediente da festa. A cerveja é sempre mais barata do lado de fora, embora, por mim, sempre prefiro começar mais cedo para ir para casa mais cedo ou curtir o restante da noite", diz. "No Japão, onde já tocamos muito, o show começa às 19h e acaba às 21h", exemplifica o músico. Quem endossa é o guitarrista Danniel Goulart (Eminência Parda). "É claro que onde a noite começa mais cedo, o show tende a ser mais tranquilo de fazer."

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Acústicos começam mais cedo

Enquanto algumas iniciativas do entretenimento tendem a protelar a abertura das portas, outras, como lembra Monique Leitão, vocalista do Ferrovelho, fazem o caminho contrário. "Algumas casas aqui vêm tentado começar mais cedo, normalmente as que têm programação acústica", afirma a cantora, referindo-se a espaços como Mezcla, Sabor das Arábias e Boutique dos Sabores, onde a noite tem início a partir das 20h. "Se você frequenta esses lugares sabe que, se chegar depois das 23h, provavelmente, o show estará no final ou até terá terminado.

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Para Bruno Rocha, o início da diversão nada tem a ver com a "importância" da atração. "No Festival SWU, o portão que deveria ser aberto ao meio-dia só foi liberado às 14h30. Como estava lotado, as apresentações começaram 15 minutos após a abertura", conta. "Se alguém é culpado, somos todos. Se o organizador deixa passar muito tempo e não começa o show, o público sempre vai demorar a chegar nos próximos eventos que ele fizer." Conforme o produtor, as casas de shows acabam ganhando um pouco com isso, pois as pessoas que chegam no horário consomem até o final, mais até do que o fariam se chegassem pontualmente.

No Privilège, como assegura a gerente de operações noturnas do espaço, Paula Miranda, o diferencial está na abertura das portas, marcada para as 22h, com apresentação ao vivo no Café da Mata e DJs no pub. "Isso foi idealizado justamente para que os clientes circulem na casa com uma programação diversificada com atrações e horários diferentes. Incentivamos a entrada antes das 23h com promoções. Quem gosta de sair mais cedo, para curtir música ao vivo, encontra esquema de bar, com pratos, drinques etc. Ou seja, o famoso ‘concentra’ pode ser feito no próprio local onde vai passar a noite", completa.

Já Diego (Dids) Rocha, diretor de marketing e promoter do Café Muzik, cita a inevitável tarifa inserida pelas casas noturnas sobre o preço dos produtos do bar como causa para as reuniões regadas a bebidas e petiscos mais baratos antes da noitada. Por outro lado, Dids fala sobre o comportamento daqueles que, para ser vistos por todos, preferem iniciar sua balada mais tarde. "Ainda que se perca uma ou duas horas da atração, esse público opta por chegar quando as pessoas já chegaram e, muitas vezes, prefere dar uma olhada e ter uma prévia da noite antes de realmente se cadastrar e entrar na casa. O famoso ‘Vou dar só uma olhadinha’", justifica o promoter, alertando para os prejuízos causados pelas altas horas. "Quando o evento é mais tarde, não só começamos a vender mais tarde, como também tendemos a fechar o estabelecimento além do horário ideal de funcionamento, o que implica em um aumento das despesas, como impostos tradicionais (luz, água e até mesmo hora extra de funcionários).

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Aline Brufato produz e comanda o Bar Semente e as noites de sexta do Clube dos Democráticos, ambos no Rio, com o projeto "Semente da música brasileira". A última proposta, que existe desde 2004, integra o cardápio de vanguarda da cena musical da nova Lapa. "A programação do bar começa entre 22h e 22h30, a casa abre mesmo às 20h. O Bar Semente faz algumas temporadas curtas de shows mais cedo, das 22h à meia-noite, uma espécie de ‘cedo e sentado’ para escutar mais que dançar", explica. "É uma característica de palcos de teatro, um modelo que as cidades deveriam investir", dispara a produtora.

Como o Café Muzik – entre outras casas da cidade -, de acordo com Dids, já experimentou uma série de promoções de "guerrilhas", com descontos, consumações e outros facilitadores, e não surtiu o efeito esperado, fica comprovado – pelo menos por hora – que quem decide os rumos da noite é a vontade do público. Afinal, seja em que momento for, a badalação, hoje, parece não só ter hora para acabar, como que para começar também.

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