
Gerente de Operações do Teatro Oi Casa Grande, o jornalista João Luiz Azevedo é o responsável pela homenagem à atriz
“Sou uma mulher que tem personal trainer, ando na esteira, tenho 1,57m e peso 56 quilos. Minha balança fica na sala. Tenho corpinho de menina”, dispara Berta Loran, prestes a completar 90 anos, em uma conversa que, inicialmente, pensei que seria breve. Foram cerca de 20 minutos de bate-papo no telefone. Como não se impressionar com a vitalidade esbanjada com quase um século de vida? “Se eu botar um maiô e uma meia linda de renda nas pernas, posso entrar em cena agora”, completa a atriz, cujo aniversário, dia 23 de março, será comemorado no Teatro Oi Casa Grande, a partir das 19h, com lançamento do livro “Berta Loran: 90 anos de humor” (216 páginas), exposição e show, dentro de um projeto tocado por João Luiz Azevedo, jornalista, produtor cultural e gerente de operações da casa de espetáculos carioca. Também autor da obra, Azevedo é o convidado do “Sala de leitura”, que vai ao ar neste sábado, às 10h30, com reprise na segunda-feira, às 14h30, na Rádio CBN Juiz de Fora.
Nascida em Varsóvia, na Polônia, Berta veio para o Brasil com os pais e cinco dos seis irmãos, aos 9 anos, e são as lembranças dessa época que abrem o livro, prefaciado pelo diretor de musicais Claudio Botelho e a estrela Bibi Ferreira. Foi aqui, aos 14 anos, que a polonesa se encontrou com a arte exercida há 76 anos. “Sou uma pessoa bastante realizada na carreira. Meu pai era ator, comecei a trabalhar com ele, até ir para o Teatro de Revista, mas nossas peças eram todas judias. A temporada era sempre muito pequena. Um mês aqui (Rio de Janeiro), um mês em São Paulo e por aí vai. Um belo dia, um maestro brasileiro me viu e disse: ‘Berta, não entendo nada do que você diz, mas vejo a grande atriz que você é'”, conta a humorista, segura do caminho que começava a trilhar. “O povo não me deixava sair de cena”, sentencia.
Entre uma recordação e outra, transcrita na entrevista abaixo, ela me diz que está bem e que está pronta para pegar estrada com a divulgação do livro. Ao que tudo indica, Juiz de Fora entrará na rota dos lançamentos. “Viajando, a gente conhece pessoas e pode beijar todo mundo”, brinca Berta, aprovando a homenagem idealizada pelo amigo. O produtor cultural teve a atriz como protagonista de seu espetáculo “Os Dálmatas – O musical”, e dois dos trabalhos dela – “Divirta-se com Berta Loran”, estrelado em 1993, e “Ainda estou aqui”, de 2003 – têm produção assinada por ele.
“O Teatro Oi Casa Grande é um dos mais bonitos do Rio, e o João Luiz é um amigo, que viajou comigo com meu show ‘Divirta-se com Berta Loran’ por muitos anos. Eu queria escrever um livro contando minha vida há muito tempo, mas quem não é escritora precisa da ajuda de alguém. O editor veio me conhecer e disse que leu três vezes. Portanto, com certeza, está ótimo.”
Bate-papo registrado
“Em Berta Loran: 90 anos de humor”, o leitor encontra uma grande entrevista, conduzida, primeiro, por João Luiz Azevedo. Em seguida, os questionamentos foram feitos por artistas, colegas e fãs da homenageada. Pelas páginas, figuram depoimentos de mais de cem personalidades, como Boni, Mauricio Sherman, Jô Soares, Claudia Raia, Fernanda Montenegro, Fernanda Torres, Arlete Sales, Ary Fontoura e Barbara Heliodora. As origens do projeto estão num jantar ocorrido numa sexta-feira, pós-carnaval, de 2015. “Propus a escrita do livro, e ela falou: “Jão Luiz, você é meu amigo, gosto de você, te dou o direito dessa homenagem, mas não conta comigo financeiramente porque eu não tenho como te ajudar. ‘Falei ok, que não precisava do dinheiro dela para bancar isso, e fui em frente”, recorda-se o autor, que saiu do encontro com uma lista de pouco mais de 30 nomes previstos para integrar a obra.
“Mas depois comecei a pensar e falei?: ‘A Berta conhece muito mais gente que isso, são 90 anos de trabalho’. Para ficar redondo, fechei que seriam 90 depoimentos. Fiz uma pesquisa grande, procurei as pessoas que trabalhava com ela. Quando terminei o livro, um ano depois, eram 202 pessoas envolvidas, contando com os 80 que enviaram as perguntas”, diz o jornalista. Apesar de conhecer Berta há 23 anos, debruçar-se sobre a obra trouxe-lhe novas descobertas sobre a atriz. “O melhor desse projeto todo foi reconhecer a Berta Loran através dessas pessoas. A Bibi Ferreira diz: ‘Se eu tive uma amiga em vida, esta amiga se chama Berta Loran’.” Se o Maurício Sherman, que é o grande entendedor de humor, fala que a Berta Loran é insubstituível, que não tem ninguém que chegue perto do talento dela, quem é que vai negar?”, indaga o autor, fazendo planos de fazer a história da comediante ser conhecida por todos os brasileiros. A publicação pode ser adquirida com o próprio autor em sua página no Facebook.
Tribuna – Você mora sozinha?
Berta Loran – Hoje sim. Fui casada duas vezes e fiquei viúva aos 67 anos. Meu primeiro casamento foi com um grande ator judeu, que fazia teatro na Argentina. Lá, havia três teatros judeus funcionando toda noite. Eu tinha 20 anos, e ele, 51. Ele fazia chorar e fazia rir. Pensei que, com o casamento, ele iria me ensinar muita coisa, mas ninguém ensina nada a ninguém. Ou você tem talento, estuda com ele, ou nada feito. Vivi com ele 11 anos. Aos 29 anos, ele me levou para Portugal com seis meses de contrato. Fiz tanto sucesso que fiquei seis anos. Eu morava aqui, numa pensão com 40 pessoas e, com o dinheiro que ganhei lá, comprei três apartamentos no Rio. Quis me desquitar, e ele não quis. Acabei me separando, e ele morreu. Quando voltei, em 1963, conheci o segundo marido, que era amigo da minha irmã.
– Você acha que o público brasileiro é generoso com os artistas depois de um certo tempo?
– Comigo sim. Até hoje, saio para a rua, e eles me beijam para depois dizer “Berta Loran, eu te adoro.” Fui viajar num navio e tive que tirar fotos com mil pessoas. Quase fiquei doente de cansaço. Mas, quando a gente começa, vira atriz conhecida e famosa, tem que dar um beijo no fã que te adora. Acho um crime fazer o contrário.
– Tem muitos sonhos a realizar?
– Tenho 45 anos de Rede Globo. Sou aposentada pela Globo, e ela foi uma mãe para mim. Sei que trabalhei muito. Há muitos anos, quando a Globo começou e o Boni me levou da Tupi para lá, a gente começava a gravar num dia, às 8h, e terminava no dia seguinte, às 10h. Nunca larguei o trabalho. Dei meu sangue. Muitos artistas, às 3h da manhã, se mandavam. Por isso digo que trabalhei muito e mereço todo o respeito que a emissora tem por mim. Hoje em dia, de vez em quando, eles me chamam para trabalhar. Quando isso acontece, me pagam o ordenado em dobro.
– Você fez poucas novelas. Esse ainda é um projeto?
– Gostaria de fazer um papel cômico numa novela, como o que eu fiz em “Amor com amor se paga”, ao lado do Ary Fontoura. Foi um trabalho que fez muito sucesso. Gosto de fazer rir. Vim do outro lado, lá da Varsóvia, um ano antes da guerra, agora quero só alegria.

