Ícone do site Tribuna de Minas

Vitrolas ligadas

PUBLICIDADE

"Nada de ficar escondendo o jogo." A pegada que envolve a música discotecada agora é outra, segundo Pedro Paiva. "O barato é compartilhar as raridades que conseguimos encontrar", dispara o integrante do Vinil é Arte, coletivo de pesquisa musical que se dedica a formar uma diversificada coleção de discos de vinil. "Estimamos que temos mais de 15 mil títulos, já que cada um dos integrantes possui entre 2.500 e 4 mil discos em casa", contabiliza o discotecário, que no dia da entrevista à Tribuna já havia adquirido mais dois exemplares para a coleção.

Os seis integrantes da atual formação do coletivo, que nasceu em Juiz de Fora em 2001, se dividem, hoje, em três estados. Niggas e Formiga atuam em São Paulo, enquanto Tuta e MB Groove cobrem o Rio de Janeiro. Em Minas, Pedro Paiva permaneceu em Juiz de Fora, e Luiz Valente, o mais novo integrante do grupo, é de Belo Horizonte. Apresentando-se de forma individual, em duplas ou com formação completa, os discotecários do projeto seguem a tendência mundial da música alternativa, promovendo intercâmbios e diversificando o repertório de acordo com a festa – e com as novidades que vão aparecendo.

PUBLICIDADE

Assumindo mais o crédito de pesquisadores e divulgadores do que de estrelas da festa, o coletivo evita o termo DJ. "Tem mais a ver com a época que é o grande alvo da nossa pesquisa", avalia Paiva, que assina tendência bastante voltada ao rock e à música instrumental, dando preferência a orquestrações e arranjos modernos e experimentais. Tuta traz uma bagagem mais direcionada à música regional, com samba, bossa, choro, maracatus e outros ritmos nordestinos. Formiga passeia por gafieira e suingue, samba jazz e versões raras da MPB com uma pegada groove. Niggas (à frente do selo Brasilis Grooves) e MBgroove passeiam por música negra, soul, funk, samba-rock, MPBlack, jazz, música latina e africana. Luiz Valente, dono do Vinyl Land Records, vai incorporando ao projeto as tendências internacionais, já que divide seu tempo entre Minas e a capital inglesa, Londres.

Além da pesquisa, o coletivo se lança agora em uma nova fase – a dos relançamentos -, viabilizada pelas parcerias e pelos selos dos integrantes. O vinil "Di Melo" (1975/EMI-Odeon), do cantor homônimo, atraiu não só pelo primeiro relançamento do Brasilis Grooves (São Paulo), mas pela prensagem na fábrica GZ Media (República Tcheca) com capa dupla ("gatefold") especial para as 500 primeiras cópias, com direito a autógrafo do compositor nos 50 primeiros vendidos. "O nosso é original", pontua Paiva, ressaltando que o que se encontra mundo afora é, muitas vezes, pirata. O próximo relançamento será o trabalho do músico brasileiro Noriel Vilela.

Em 2013, o coletivo dá forma ao projeto aprovado pela Lei Estadual de Incentivo à Cultura, com lançamento de um vinil que trará em suas faixas composições de artistas contemporâneos de Juiz de Fora. Mais que compilar a obra dos músicos locais, o projeto, em fase de captação, fará um remix dessas canções. O número de cópias prensadas vai depender dos recursos captados, mas deve girar em torno de 500 a mil exemplares. Os LPs serão distribuídos entre os DJs, que farão os hits "rodar" nas pistas, da cidade e até do exterior. "A ideia é enviar para amigos que tocam aqui e em outras partes do mundo, como em Nova York", propõe Paiva. Quinteto São do Mato, Silva Soul, Roger Resende e Rama Ruana são alguns dos nomes já fechados para integrar o disco, que trará apenas artistas em plena produção e que tiveram álbuns lançados com apoio da Lei Murilo Mendes. "Não queremos nos desvincular da cidade. As parcerias daqui são muito importantes para o coletivo", completa.

 

PUBLICIDADE

Sujando a mão

A busca pelas raridades conta hoje, sobretudo, com o comércio na web, melhor caminho para os lançamentos e para as obras internacionais. Outro trajeto, ainda mais atraente à Paiva, é o garimpo, "aquele no qual você suja a mão". "Frequento diariamente os sebos, as lojas de discos de Juiz de Fora, a feira de diversidades aos fins de semana na Avenida Brasil. Esse é o universo dos colecionadores." Há ainda aqueles que encontram na doação uma maneira ímpar de compartilhar seus acervos particulares. "São coleções de uma vida inteira, muito caras a seus donos. Algumas pessoas, quando veem nossas apresentações, ficam muito emocionadas e resolvem doar seus LPs. Isso fortalece ainda mais nosso trabalho", conta.

Um LP que teve o acetato bem cortado, as partes metálicas bem produzidas e a prensagem feita dentro dos padrões básicos tem o som invejado pelas novas mídias. Se o CD vingou nos anos 1990 porque proporcionava vantagens nítidas em relação ao vinil, como a portabilidade, o menor espaço nas prateleiras, a capacidade para muito mais tempo e músicas, a facilidade para se ouvir a faixa num simples toque de tecla, ainda há quem cultue os "bolachões". O bom e velho disco conserva a qualidade do som que se perde claramente nos formatos digitais, viabilizado em larga escala pelo MP3.

PUBLICIDADE

Destaque no circuito alternativo da capital carioca, o Vinil é Arte se apresenta em eventos significativos no Rio, como o Copafest, no Copacabana Palace, no qual assina participação anual. Nesta semana, o coletivo abrirá o show de Caetano Veloso. "O nome no Rio está bem forte, bastante divulgado em outdoors, em lambe-lambes, busdoors. Já em São Paulo a concorrência é muito grande, existe muita coisa bacana. Em Juiz de Fora também existe uma geração nova, muito interessada no vinil", observa.

Verdadeiros amantes das vitrolas ligadas, o Vinil é Arte percorre em caminho nunca óbvio. "Não é nossa proposta tocar o que está nas FMs", afirma Paiva. "O público que consome vinil não está interessado em músicas efêmeras. Por isso, temos autonomia para escolher o repertório, com clássicos e novidades, que, mesmo desconhecido, vai ser apreciado por quem gosta de música", conclui.

Sair da versão mobile