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Da madeira, instrumento; de Vitor, memórias

Domingos Vitor
Domingos Vitor
Domingos Vitor se viu luthier da noite para o dia, depois de passar por tantos trabalhos também manuais (foto: Divulgação)
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Domingos Vitor é bom de prosa. Mineiro do tipo que, com um café e pães de queijo na mesa, estende a tarde a contar causos de quando era pequeno e morava na região de Lima Duarte, mais precisamente em São José do Lopes, nos arredores da estrada que leva a Ibitipoca. “Tem gente que não gosta de recordar o passado, pode ser que tenha até as justificativas para isso. Já eu, tenho outro pensamento. É minha origem, gosto de contar isso para as pessoas, relembrar como era quando eu era criança nessa casa, próxima à fazenda.” Recentemente, essas histórias deram origem a um documentário produzido pela Secretaria de Cultura de Andrelândia, com o nome de “O fazedor de violas”, disponível no YouTube. O tema era como se tornou luthier, o processo de sair das fazendas e se dedicar à oficina. Mas as coisas são indissociáveis: impossível falar do Vitor de agora, aos 62 anos, morando em Andrelândia, sem falar do Vitor pequeno e rural.


Ele se recorda de tudo o que passou como se fosse hoje. Lembra, por exemplo, de, aos 8 anos, estar brincando na sala de sua casa, dentro da fazenda em que seu pai trabalhava, e ver chegar o responsável por ela, a cavalo, fazendo um convite. “Ele estava pedindo para eu ir trabalhar em outra fazenda, para cuidar de uma menina que tinha acabado de nascer.” E Vitor foi. Ficou lá até a menina completar 2 anos. Ele disse que sabe de muita coisa que ela não deve saber, mas tem vontade de contar pessoalmente. “Oportunidade eu tenho certeza que não vai faltar”, acredita.

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Mas seu pai, o senhor Chico, como era conhecido, mudava muito. Não parava nos lugares. Ainda assim, naquela época, Vitor e seu irmão Vicente estudavam em uma escola a 5 quilômetros da fazenda. Ele fala que não era comum usar sapatos, por exemplo, e iam na chuva muitas vezes, com um saco de arroz cobrindo os materiais. Ele não lamenta isso, muito pelo contrário. Rememora saudosista. “A gente tem que dar valor a essas coisas também.” Ele ficou na roça até 1977, quando se mudou para Juiz de Fora para servir no Exército. Na cidade, também trabalhou como pedreiro, tecelão, segurança, em uma fábrica de laticínios. “Eu vou lembrando e contando, está bem?”, ele se desculpa, quando lembra mais outra atividade na trajetória.

“Ah! A música”

Depois, foi para São Paulo, trabalhar com cana de açúcar. Nessa época, ele lembra que o dinheiro dava e sobrava para guardar. Foi quando foi possível fazer curso técnico em elétrica. Logo depois, retornou a Juiz de Fora para trabalhar com o que tinha acabado de se formar, consertando televisão e rádio. Depois de percorrer toda essa trajetória, Vitor se lembra do mais importante, o que ele escolheu finalmente para a vida, depois de tantas tentativas: “Ah! A música. Ela veio de berço. Eu sempre ouvia rádio. Meu pai tocava violão, minha mãe, cavaquinho. Fui ouvindo e aprendendo. Lembro da minha mãe, quando me deu um violão antigo, falar com meu pai: ‘esse menino vai aprender a tocar'”. Mais tarde, a curiosidade continuou. “Tinha baile na minha época. Meus amigos iam para dançar. Eu ia e ficava prestando atenção no que eles faziam no violão. Chegava em casa e tentava copiar. Eu aprendi ouvindo e vendo.” Como quase tudo na vida de Vitor.

Já em Andrelândia, em 2000, ele teve vontade de entrar no conservatório de música de São João del-Rei. Ficava curioso em saber o que ainda não sabia no violão. Mas, nessa época, ainda tinha a oficina de eletrônicos na cidade. O jeito encontrado foi dividir os trabalhos: até quarta-feira, oficina; depois, música. As cidades são distantes. Não foi fácil também, mas encarou. “Era pegar ou largar. Tem que ter coragem e persistência para fazer as coisas. Sem luta não tem nada”, acredita.

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Do dia para noite: luthier

Também na cidade histórica, um violão de um professor chamou sua atenção. Para ele, o som era diferente. O professor respondeu, então, que ele mesmo tinha feito. “Isso me despertou curiosidade e eu quis saber como fazer. Eu fui visitar o ateliê do professor e aprendi algumas coisas, mas sem prática.” Dias depois, na oficina que era de eletrônica, ele tentou fazer um violão. E deu certo. O professor, sem acreditar naquilo, já que Vitor fizera sem nunca ter tido experiência com madeira, falou que era aquilo: o violão não tinha defeito. Vitor era luthier mesmo sem saber. E assim foi sendo até transformar a oficina em ateliê, começando com conserto de instrumentos de amigos, depois fabricando e, por fim, vivendo disso – além de dar aulas particulares nos finais de semana.

“Antes de decidir se viveria disso, eu pensei muito, porque eletrônico todo mundo tinha, mas instrumento, nem todo mundo. Mas quando você começa a entender a música, você começa a valorizar mais. Quase todo mundo gosta de música. Mas fazer instrumentos é a minha profissão. Ver da madeira nascer um violão, depois ouvir um som sair dele. Isso é muito interessante. Eu transformo meu trabalho em arte”, ele diz, quase emocionado. Mas não é só fazer. Ele gosta de prestar atenção nos detalhes. Por isso, tem que ser criativo. E é na oficina, onde passa a maior parte do tempo, que consegue se dedicar. “Aqui é meu lugar sagrado. Onde eu me realizo.” Até chegar nesse ponto, precisou, muitas vezes, criar as próprias ferramentas para fabricação, já que, hoje em dia, é difícil encontrar lojas especializadas em luteria, com as fábricas dominando e substituindo as funções.

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Humildade e história para contar

A maioria dos trabalhos de Vitor foram mesmo manuais. E ele acredita, sim, que isso contribuiu para que se transformasse em um luthier. Sem eles e sem as histórias, sempre pensando em São José do Lopes, as coisas não teriam tanta graça. Por isso é bom relembrar, enquanto transforma tudo em música. “Tem um ditado que eu gosto muito e acho que define bem: feliz aquele que tem história para contar”, ele quase encerra a conversa. Mas lembra outra coisa mais importante que isso: “Eu acredito muito que não importa o que você seja, tem que ser humilde”. E, agora, sim, finaliza.

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