Não é novidade que o universo dos personagens dos quadrinhos está em constante revolução. Desde que o primeiro gibi chegou ao público, as histórias ganharam aprimoramento de técnicas através de balões com onomatopeias e recursos cinematográficos, como a narrativa cena a cena nos quadros. Na luta contra o mal, os super-heróis favoritos de pessoas de todas as idades têm ganhado cada vez mais popularidade se valendo até mesmo das telas do cinema. Prova disso é o sucesso de filmes, como Os Vingadores, que, em 2012, arrecadou mais de US$1,5 bilhão em bilheterias. Com a crescente transformação do mundo tecnológico, as cativantes figuras têm buscado outras paragens. A bola da vez é pular das páginas impressas para as telas de tablets.
Dando os primeiros passos nesse filão, a Mauricio de Sousa Produções chega em 2013 com novidades para os adeptos do mundo digital. A partir deste mês, a empresa, responsável por 87% da fatia do bolo, vai disponibilizar na livraria virtual, Xeriph, a primeira coleção de contos digitais da Turma da Mônica. Apesar de ser em arquivo PDF, que pode ser aberto em qualquer computador, as 14 aventuras clássicas integrarão a iniciativa do grupo de entrar, aos poucos, no novo nicho do mercado.
Desde o dia 5 de dezembro, as peripécias da menina dentuça e sua trupe são acompanhadas, também, via celular. Cerca de dez quadrinhos, enviados por uma plataforma MMS sequencial desenvolvida pela Movile, chegam aos leitores, diariamente, às 10h. O projeto, que promete fomentar o hábito de leitura entre as diversas faixas etárias, está disponível em todo o território nacional por meio de duas operadoras de telefonia móvel. Estamos examinando o terreno com pequenas ações. Com essas tiras, conseguimos sentir a receptividade do público, que está dando um bom retorno. Em uma semana, alcançamos a marca de 56 mil assinantes, levando-nos a crer que a estratégia está funcionando, destaca Rodrigo Paiva, gerente editorial e multimídia da organização.
Há exatamente um ano, a Mauricio de Sousa lançou o aplicativo, liberado para iPhone, iPad ou iPod-Touch, Quero ser Turma da Mônica. Os usuários criam personagens da turminha bem parecidos com pessoas da vida real. Roupa, tipo de cabelo e cor dos olhos são apenas algumas das características que podem ser escolhidas para o avatar. Em uma semana, batemos 300 mil downloads, conta Paiva.
No caso do professor de história, de 34 anos, Clever Lizardo Sales, o modelo virtual entrou para dar conta de exemplares esgotados ou que nunca foram lançados no Brasil. Seu forte mesmo, desde criança, são as coleções de super-heróis de papel. Hoje, perdeu a conta de quantas revistas possui. Na última vez que calculou, havia passado da casa dos mil. O tablet facilita, porque pode ser carregado para todos os lados, sem contar que coleções inteiras podem ser armazenadas sem ocupar muito espaço. O tempo que eu gasto para achar um volume na estante é infinitamente maior do que no computador.
Apesar de exemplos como o de Roseane e Clever, aqui no país, o mercado digital ainda se mostra incipiente. De acordo com a última pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada em março de 2012 pelo Instituto Pró-Livro, 70% dos entrevistados nunca ouviram falar de publicações disponíveis em tablets. Nos Estados Unidos, a venda de quadrinho digital ultrapassou a de papel. Isso se deve à cultura do país. Lá, a pessoa paga pelo serviço automaticamente quando faz o download. Aqui não. Tem que entrar no site, botar o CPF e digitar número de cartão de crédito. Se apresentassem um jeito prático de debitar o valor, o público se adaptaria bem mais fácil ao novo formato, opina o quadrinista juiz-forano, que trabalha para o portal UOL, Raphael Salimena.
De acordo com Paiva, o custo do desenvolvimento desse tipo de iniciativa é muito alto, o que acaba inviabilizando a sua execução. Isso custa caro e, diferentemente do que ocorre com o impresso, ainda não se paga. Sabemos que, no início, não teremos retorno. Uma revista digital chega ao público 30% mais barata do que o exemplar físico, diz o gerente. Ele ainda ressalta que, atualmente, o grupo tem uma tiragem de 2,5 milhões por mês, sendo cada periódico lido por uma média de quatro pessoas. Se forem adotados de vez dispositivos, como iPads, os números saltariam, segundo estimativas, para 10,5 milhões, causando um grande impacto no mercado. Conversas já foram travadas com Google, Amazon e ComiXology.
O cartunista, formado em comunicação social pela UFJF e residente em São Paulo, Ricardo Coimbra, há 12 anos se dedica aos quadrinhos. Na sua visão, certos recursos presentes em cartoons virtuais, em muitos casos, tolhe a criatividade de quem lê. A coisa está caminhando e não sabemos aonde vai parar. A animação me desagrada, porque tira o pedaço da ação que deve ser preenchida pela imaginação da pessoa. A ideia vem muito pronta. Prefiro quando está subtendida, explica.
Enquanto isso, do outro lado do continente, nos Estados Unidos, a Marvel, a maior editora do ramo, se antecipou e lançou no ano passado o selo Infinite Comics, que disponibiliza revistas desenvolvidas especificamente para tablets. Um gibi nesse formato custa um quarto da versão física. Outra iniciativa que chegou com força total é o jovem aplicativo Madefire: a HQ contemporânea conta com trilha sonora, onomatopeias sonorizadas e desenhos em 360 graus. Engrossando a fila, ainda tem a iniciativa da DC Comics. Toda a sua linha de revistas periódicas está liberada para compra digital na iBookStore, Kindle Store e Nook Store. Só nos primeiros nove meses de 2012, a empresa registrou um salto de 197% em suas vendas em relação ao mesmo período de 2011.
