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Heitor Luique estreia com ‘O cadáver e a pena’, coletânea que reflete sobre tempo, palavra e renascimento poético

Heitor Luique lanca livro Divulgacao
Livro apresenta ao público o lado poeta de Heitor Luique (Foto: Divulgação)
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Depois de cinco anos de escrita, revisões e amadurecimento criativo, o escritor Heitor Luique apresenta ao público sua estreia literária: “O cadáver e a pena”, primeira coletânea de poesias que marca o início de sua trajetória no cenário nacional. O livro, gestado entre diferentes fases pessoais e artísticas e lançado no início deste mês, reflete uma relação profunda com a palavra e com o tempo, reunindo versos que, segundo o autor, nasceram de um processo mais insistente do que inspirado –  um exercício constante de escuta, silêncio e reinvenção poética.

Sua relação com a poesia, conta, remonta aos anos 2000, quando venceu um concurso escolar ainda na transição entre a infância e a pré-adolescência – momento que descreve como um “ritual de coroação”, por ter sido a primeira vez em que alguém o reconheceu como poeta.

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“O livro, ao longo de cinco anos, manifestou-se para mim; com isso não quero dizer que o nascimento foi algo divinal, porém sim processual. O livro não é um resultado da inspiração, mas sim da insistência na relação com a palavra, na qual, a protagonista foi e continuará sendo a folha em branco: o seu vazio é extremamente revelador.”

Os cinco anos mencionados pelo autor correspondem ao período entre 2018 e 2023. A ideia, relembra, surgiu durante um intercâmbio acadêmico em Buenos Aires, na Argentina, quando se deparou, ao caminhar pela cidade, com uma pichação que dizia “Cadáver Poético”. “Naquele momento pensei: ‘A esta altura, poetas não nascem, poetas ressuscitam'”, relembra.

A partir dali, começou a estruturar os poemas que dariam origem à obra. Alguns textos já existiam e foram incorporados ao processo criativo, que ganhou força durante a pandemia.

Luique comenta que, ao longo dos últimos dez anos, viveu diferentes fases de criação, alternando momentos de intensa produção com períodos de afastamento literário. Esses hiatos, segundo ele, foram tanto intencionais – como estratégia para se distanciar do próprio texto e repensar o processo – quanto inevitáveis, motivados por demandas cotidianas ou bloqueios criativos.

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Antes de ser selecionado pela Editora Caravana, no início de 2023, o autor havia tentado inscrever a obra em outros concursos, sem êxito. Decidiu, então, revisitar o material, revisá-lo e lapidá-lo até chegar à versão final.

“Sol a sol, minha fase de escrita parece outra, sinto que a poesia me cobra um rigor e uma maturidade que depuram o meu olhar que, cada vez mais, analisa à medida que cria, sem nenhuma segurança de estar analisando com adequados critérios sua própria criação. Em algum momento, escrever pôde ou poderá chegar a mim como uma intuição, mas prefiro equivocar-me e, até mesmo, manifestar ingratidão à intuição, creio na escrita como uma relação íntima consigo mesmo somada à responsabilidade para com à palavra, esta palavra que será, tal qual a responsabilidade, fluida e polissêmica. Veja bem: eu não tive a sorte de João Nogueira que foi levado por certa magia, guiado bem no meio da noite ou no claro do dia”, analisa.

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Quando a descrença encontra a palavra

(Foto: Divulgação)

Descrita pelo autor como “uma escrita da descrença e da reconciliação”, a coletânea aborda diferentes dimensões da descrença – parte delas deixada ao leitor, que tem liberdade para interpretá-las. Luique explica que essa descrença nasce, em primeiro lugar, de uma autorresponsabilidade da própria obra, que não busca atender a finalidades externas. A escrita, afirma, é movida por necessidade, não por consequência, e por isso é descrente de propósitos utilitários ou resultados previsíveis.

Em um segundo sentido, o autor associa essa descrença à escassez de espaço da poesia no mundo contemporâneo, marcado pela lógica da produção e do consumo. Para ele, o que parece ser espaço para a poesia é, na verdade, uma construção simbólica, já que o sistema socioeconômico rejeita – ou cooptaria – toda forma de expressão que não sirva ao ciclo produtivo. Ainda assim, a poesia resiste, deslocada, como um gesto de reconciliação entre o ser e o vazio.

Inspirado pelo escritor e professor Edimilson de Almeida Pereira, Luique reflete que um texto literário não é apenas algo produzido, mas algo que nasce, como um ser vivo. Enquanto o produto é fabricado e estático, a poesia é viva e transformadora: perturba o estabelecido e faz o leitor repensar suas certezas.

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O autor diz não acreditar na “capacidade” da poesia, mas em sua natureza – uma força que só age em quem se abre para senti-la. Para ele, não é feita para ser apenas lida, mas relida, pois o sentido se revela aos poucos, conforme o leitor se permite ser tocado.

A reconciliação, explica, acontece entre ele e sua própria escrita: a poesia é um encontro íntimo consigo mesmo, não com o público ou a crítica. Ainda assim, publicar é parte do processo.

Para ele, quando o poeta compartilha sua obra, ele “corta o cordão umbilical” e a deixa viver sozinha no mundo.

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O autor reconhece que, em alguns momentos, adiou ou não viveu a poesia como gostaria – por falta de tempo ou entrega -, mas entende que isso também faz parte do percurso.

Segundo ele, o livro pode ser o início de uma trilogia, sucedida por Primeiras mortes (II) e Memento mori (III), projeto poético que reflete sobre tempo e mortalidade. Cada obra representa uma etapa desse percurso: o poeta começa como cadáver, passa pelo luto e, por fim, reconhece a própria finitude.

Embora o tema da morte esteja presente, Luique garante que o projeto não é sombrio e trata de “pequenas mortes” simbólicas, como as perdas e transformações da vida: o fim de relações, injustiças sociais, censura à arte, tragédias ambientais e a indiferença diante do sofrimento coletivo. São essas experiências que alimentam sua escrita e dão sentido à sua poesia.

O peso e o voo de uma pena

O título da obra também carrega múltiplos significados. “O cadáver”, explica Luique, representa o poeta do passado, aquele que foi contemporâneo ao seu tempo – uma forma de gratidão aos que o antecederam, pois reconhece que precisará buscar inspiração em tempos antigos para se expressar neste livro.

Já “a pena” assume vários sentidos: é a caneta, instrumento de criação; é o pesar, diante da dificuldade de ser poeta em 2025; é também a dor e o sacrifício que acompanham o ato de escrever; e, por fim, é sentença – a condenação à poesia como destino inevitável.

O conceito de “sujeito poético natimorto” reflete a relação entre criação e morte na poesia contemporânea: ao concluir um poema, o autor “morre” para aquele texto, que passa a viver por si. Cada livro nasce para o mundo e se desprende do poeta, enfrentando, entre leitores, o desafio de existir em um tempo marcado pela pressa e pela distração.

Nessas brechas, observa Luique, o poeta resiste – e mantém viva a essência da poesia.

O samba, os livros e as vozes que o formaram

Revisitando o passado e suas inspirações, Luique se define como um leitor tardio, embora reconheça que o primeiro exemplo veio de casa. Seu pai lia jornais e revistas com frequência, hábito que despertou sua curiosidade pelo mundo. Antes mesmo da literatura, ele já era um “leitor do cotidiano”.

Entre as influências que moldaram sua linguagem, destaca o samba, que o ensinou sobre circularidade, escuta e conexão coletiva. “O samba me afastou de uma linguagem fechada, ensimesmada. Aprendi com ele a manter um gesto de escuta e diálogo com o leitor”, afirma.

Na transição para a vida adulta, buscou ser um leitor intenso e curioso, equilibrando as leituras acadêmicas com as de interesse pessoal. Cita entre suas referências autores como Gabriel García Márquez, Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto, Clarice Lispector, Júlio Cortázar, Maria Gabriela Llansol, Paulo Henriques Britto, Tomás Antônio Gonzaga, Liev Tolstói e Clément Rosset.

Além da literatura, a música também teve papel central em sua formação – especialmente Milton Nascimento e Fito Páez. 

Nos últimos anos, o cinema tornou-se outra fonte de inspiração. “Quando um filme me sufoca com seus sintomas, eu me curo escrevendo”, resume o autor.

Entre lições e versos, o ofício de sentir

(Foto: Divulgação)

Além de poeta, Luique também se encontra na sala de aula e  reflete ainda sobre o impacto da docência em sua vida, experiência que diz ainda estar compreendendo. Descobriu que a verdadeira matéria-prima do professor não é o conteúdo, mas a emoção.

Segundo ele, tudo na escola acontece “à flor da pele”: a emoção é o motor e o resultado do trabalho docente, presente em cada gesto, conflito e aprendizado.

Essa percepção, explica, influenciou sua relação com a linguagem. As vivências escolares, que leva inclusive para a terapia, tornam sua fala direta e aberta; na poesia, essas mesmas emoções se manifestam de forma mais simbólica e velada – como se a arte fosse o oposto da análise.

No convívio com os alunos, o autor diz que suas convicções literárias e visão de mundo estão em constante transformação. Vê nos jovens um turbilhão de angústias e revoluções adormecidas, além de uma sede por literatura ainda em despertar.

“Colocar-se no lugar do outro é sempre partir de si mesmo”, reflete. Para ele, o caminho é manter-se próximo da juventude – “continuar jovem”, brinca – e jamais esquecer o aluno que um dia foi.

“Essencialmente o papel da crítica e da vigilância, enquanto professores, estamos sempre atuando e examinando nossa atuação, posto que nossa responsabilidade é com vidas. A leitura em suspeição e a escrita rigorosa são duas consequências da minha formação. Por escrita rigorosa não entendamos escrita didática, pois este não é um atributo da linguagem poética, nem mesmo é seu avesso.”

O autor acredita que sua obra tem potencial para provocar reflexões, especialmente pelo entusiasmo com a literatura e com o poder da palavra – algo que já se reflete em sala de aula. Ele cita, como exemplo, a participação de duas turmas do sexto ano no concurso de redação “Como contribuir para a Igualdade Racial”, promovido pelo Instituto Casa Cirene Candanda, em parceria com a Secretaria Municipal de Educação (SME) e a Secretaria Especial de Igualdade Racial (SEIR) da Prefeitura de Juiz de Fora. Segundo ele, os alunos demonstraram grande envolvimento e espírito coletivo, produzindo textos com dedicação e torcendo uns pelos outros.

Luique também pretende levar exemplares de sua obra à escola, aproximando os estudantes da literatura e mostrando que o autor de um livro pode estar presente em seu cotidiano. Em suas aulas, conta, une o papel de educador e contador de histórias, relacionando a narrativa literária aos conteúdos – mesmo quando o foco é a gramática.

*Estagiária sob a supervisão da editora Carolina Leonel

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