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Artistas da Caramuru exploram cultura popular, crítica social e novas materialidades em exposições

caramuru
(Foto: Leonardo Amorim)
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Os artistas Mariana de Andrade e Rodrigo Dias, da Caramuru Produtora Cultural, acabam de estrear na última semana, na Galeria Nívea Bracher do Mercado AICE, “Entrega efetuada“. A exposição foi elaborada pelos dois em 2022 e já passou pelo Rio de Janeiro, quando eles quiseram fazer uma crítica sócio-racial sobre a precarização do trabalho. Os dois se conheceram ainda na universidade, no Bacharelado em Artes e Design da UFJF, e formaram uma parceria que também já se repetiu nas exibições “É dia de feira!”, “A linguagem do lenço”, “Manto do axé, Manto sagrado” e “Reza forte” – que, em diferentes perspectivas e materiais, trazem um olhar para a cultura popular brasileira e as vivências de populações marginalizadas. 

Mariana, 35, começou a imaginar sua trajetória como artista ainda na infância, a partir de seu interesse pela moda. Aprendeu a costurar e algumas técnicas de artesanato com a família, mas ainda sem saber o que aquela manifestação artística poderia se tornar. É um caminho próximo do que Rodrigo, 36, percorreu, já que ainda muito novo ele ficou fascinado pelo movimento de uma escola de samba próxima à sua casa, em Rio Pomba. “Em 2010, a gente se conheceu na universidade e a nossa trajetória já começou a se cruzar. A gente já formou uma parceria, de conexão, de fazer trabalho junto. Depois também trabalhamos com saúde mental. Mas o nosso trabalho artístico mesmo, que a gente começou de fato a mostrar, é bem recente”, conta Mariana. 

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Os dois se aproximaram, como contam, por terem uma visão de arte que também dialogava bastante. O que começou como uma amizade e gosto de trabalharem juntos também foi se mostrando como uma forma de complementarem o olhar um do outro e se incentivarem a produzir mesmo com as dificuldades que uma vida de artista pode ter. “Temos uma relação de complementaridade. O que falta em um, tem no outro”, explica Rodrigo, que acrescenta que eles têm suas diferenças (ele se define como mais organizado, e ela mais bagunceira, por exemplo), e que mesmo assim isso sempre ajudou no processo dos dois. E as ideias que têm também fluem dessa maneira: muitas vezes vêm da memória de um e parte da conversa entre eles para a criação, ou mesmo entra no “banco de dados” de ideias para serem desenvolvidas pelos dois juntos.

Hoje, Mariana acha praticamente impossível separar o que é dela ou dele. São trabalhos feitos em conjunto do começo ao fim. “Às vezes as pessoas tentam adivinhar quem fez tal obra, mas não tem como, somos nós dois sempre. A gente senta para escrever a ideia junto, se um tá filmando, o outro tá pesquisando. A gente vai trocando os lugares durante o processo de trabalho para chegar naquele resultado final. Mesmo que um tenha atuado um pouquinho mais em tal lugar e o outro não, é um conceito só”, explica ela. Além das obras artísticas, eles também sempre produzem um documentário sobre o mesmo tema das obras. Isso, na perspectiva dos dois, é uma forma de dialogar com as histórias que inspiram suas criações, e também de trazer mais versões para aquelas ideias.

Material como linguagem

Parte da exposição “Entrega efetuada” é feita com caixas de pizza, em que cada uma delas tem manchas que se parecem com aquelas de gordura deixadas pelos alimentos, mas que formam rostos de pessoas. O trabalho tem como foco justamente abordar os danos do cenário de entregas e pressão por mais horas trabalhadas, dando enfoque para quem está na linha de frente dessa cadeia produtiva, e por isso arrisca sua saúde física e mental. A ideia, como explica Rodrigo, veio muito como reflexo da pandemia de Covid-19, que agravou as desigualdades sociais. Mas, a partir das pesquisas dos dois, também foi se enchendo de outras referências, como a  música “A carne”, imortalizada pela Elza Soares. 

O trabalho dos dois tem como característica incorporar a mensagem dentro da própria materialidade escolhida. O “Reza forte” também é exemplo disso: eles fizeram um levantamento das benzedeiras de Juiz de Fora ao longo da pesquisa e, depois, criaram obras que as retratassem a partir de folhas secas, que costumam ser usadas na benzeção. Em “A linguagem do lenço”, por sua vez, os dois trabalharam com lenços que foram usados por mulheres ao longo da vida para formar as peças, que refletem sobre esse elemento na vida de mulheres negras e periféricas. “Sem a gente se dar conta, começamos a desenvolver esse estilo que busca materiais alternativos”, conta Rodrigo. Para ele, também foi uma forma que encontraram de suscitar reflexões. “Eu acho que a arte não soluciona nada, mas conseguimos propor diálogos através das obras”, diz.

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(Foto: Leonardo Amorim)

Memórias afetivas

Durante as exposições que os dois já fizeram, já perceberam que as pessoas se reconhecem nas obras e passam a olhar para histórias que estavam sendo esquecidas a partir delas. “Quando fizemos o trabalho “Reza forte”, aparecia todo dia alguém me pedindo contato de benzedeira. Muitas pessoas começaram a refletir que não estavam mais encontrando essas mulheres”, relembra Mariana. Esse trabalho, para os dois, também se propõe a fortalecer e resgatar memórias que não são só deles. O caso da “A linguagem do lenço”, por exemplo, começou com uma lembrança pessoal da artista, e quando virou exposição passou a dialogar com pontos de vista diferentes do dela.

Para os dois, o fazer manual é importante nesse processo, pois também valoriza técnicas humanas e ancestrais em meio a uma era que valoriza demais a tecnologia. “Nosso trabalho busca trazer à tona expressões que estão sendo esquecidas nesse mundo moderno, e também por isso entendo que acessamos essas memórias afetivas”, diz ela.

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