
Acho a vida às vezes trágica, às vezes cômica. talvez, a coisa mais importante é não ter sentido mesmo, porque se não tem sentido você tem que viver seu dia a dia da maneira mais intensa que possa ser
Alô? É Rachel? “É sim”. Boa tarde, Rachel. Sou repórter do Jornal Tribuna de Minas e ligo por conta de seu aniversário, dos seus 90 anos que se completam neste domingo (18). “É verdade.” Pode falar agora? “Posso sim.” Então, queremos fazer uma matéria que diga das memórias de uma memorialista, de um escritora nascida em Juiz de Fora e radicada no Rio de Janeiro, que se dedicou a falar do tempo. Tempo que agora são nove décadas. “Olha! As memórias com 90 ficam muito fracas. Com a idade a gente vai perdendo a memória. É uma coisa estranha, uma contradição, porque você, aos 90 anos tem muita memória. Ao mesmo tempo, tem muito esquecimento também. Você vai começando a ficar esquecida, das coisas, das pessoas, dos nomes. Sobretudo os nomes. Nome é uma coisa perigosíssima. Não me lembro mais de nome nenhum, confundo todos. A idade traz essa coisa do esquecimento, ao invés da memória. É uma coisa impressionante. Inclusive, você tem mais memória das coisas passadas do que das coisas presentes. Esquece o que acabou de acontecer”, pontua Rachel Jardim, ao telefone, na tarde da última terça-feira. “O Drummond tem uma frase que eu adoro: ‘O esquecimento ainda é memória’. É uma forma de memória muito especial. Com 90 anos você é dotada, é presenteada com o esquecimento, como se fosse um dádiva de Deus.”
‘Ainda não achei um sentido para a vida’
A voz límpida dissimula a idade de uma autora que se debruçou sobre os anos 1940 e suas porcelanas, retratos e casarões; voltou-se aos anos 1920 por conta de um bordado; regressou à adolescência de um conterrâneo Murilo Mendes com suas referências literárias adolescentes. Hoje, o que há de mais precioso nas suas lembranças? “São poucos momentos. Tenho alguns que ficaram. Um momento em Juiz de Fora, em que eu estava com o José Alberto (Pinho Neves), Affonso Romano de Sant’Anna e Marina Colasanti. Nós estávamos num restaurante e de repente me deu uma consciência estranha de que eu estava viva, de que minha cidade estava viva ainda, não tinha morrido. Juiz de Fora estava viva. Aqueles amigos fizeram eu me sentir tão dentro, tão viva naquela cidade. E isso me marcou”, recorda-se.
“Outro momento foi em Paris, eu ia subindo uma ladeira, ia para um restaurante e de repente tive uma sensação tão estranha de felicidade, subiu à cabeça aquilo. Acho que a graça de Deus deve ser isso. Nunca me esqueci, mesmo tendo sido fugidia. Acho que uma continuidade de felicidade é difícil, mas momentos assim… Tem momentos de criação também, quando escrevo, quando leio Drummond, quando leio um grande livro e tenho uma sensação de prazer e alegria. Quando vejo uma obra de arte, quando ouço Mozart, quando ouço ‘A flauta mágica’, do Mozart, me dá uma sensação de plenitude. São momentos. A felicidade contínua é uma coisa muito estranha para mim.”
Agora: tempo de leitura. “Tenho muita preguiça de escrever hoje em dia. O último livro que fiz foi ‘Um reino à beira do rio’, que tem mais ou menos 12 anos. Tenho preguiça de escrever, de ficar sentada. Escrever dá muito trabalho. É uma mão de obra horrível. Gosto de ler, minha vista está boa, consigo entender direitinho”, diz. “A gente vai ficando com a vista mais fraca, e é difícil ler, cada vez mais. Não fiz catarata, nenhuma operação. Mas não paro de ler. O que me dá o maior prazer na vida é ouvir música e ler. Leio Drummond permanentemente, leio a Bíblia, que é uma leitura fascinante. Leio ‘Homero’, que estou sempre relendo. Ler é uma graça que a gente tem. Embora não tenha nenhuma religião, acho a Bíblia uma leitura fascinante, com aqueles personagens e situações.”
E tem o grupo de estudos ainda, Rachel? “Já morreu quase todo mundo. Esse grupo tem 30 anos. Cada vez vai morrendo mais gente. Agora tem, no máximo, no máximo, umas dez alunas, que sobreviveram. A gente está lendo Proust a vida inteira. Lendo e relendo. Depois Tolstoi, ‘Guerra e paz’. Lemos Thomas Mann, ‘A montanha mágica’. Gosto muito de leituras que se refiram ao tempo. O tempo é um grande personagem para mim. É o personagem de Proust. Me fascina. Por isso gosto de ‘Homero’. É um passeio no tempo, na história. A história contada de outra forma, que não é a oficial, mas a vivida, inventada, imaginada.”
‘Agora quero ficar sossegada’
Mora no mesmo lugar? Hoje, diz, vive no Humaitá, Zona Sul do Rio de Janeiro, para onde foi em 1942, aos 16. “Trabalhei bastante tempo no Patrimônio, fui a primeira diretora quando foi criado o Patrimônio Cultural no Rio. Pedro Nava foi o presidente do conselho e eu fui diretora do departamento que depois virou uma secretaria. Tive bastante trabalho. Sou advogada também. Era uma funcionária com cargo e vida trabalhosa. Dei muito duro a vida inteira. Agora acho a melhor coisa do mundo não fazer nada. Acordar de manhã e não ter nada para fazer é muito bom. Dou aula no grupo às quartas. Nos outros dias me dou o luxo de não fazer nada. Gosto muito de cinema, quando posso. Aqui no Rio tem muita coisa, exposições, cinemas, programas culturais muito importantes, mas já fiz tantos programas culturais na minha vida que não preciso mais fazer muito. Viajei bastante, agora quero ficar sossegada.”
Há uma nova geração muito atenta ao discurso memorialístico… “Não tenho acompanhado muito, mas acho que há um total erro ao falar da memória. Chamo de romancista da memória. Meus livros nem sempre são memórias. Fiz contos, romances. ‘O penhoar chinês’, meu penúltimo livro, é um romance. A memória é um tema. O Proust não é um memorialista, mas um escritor que trata da memória do tempo. Esse termo memorialista ficou muito reduzido, e as memórias são consideradas uma literatura quase de segunda. O romance é considerado muito melhor. Mas se você for uma escritora de valor, a sua memória vira a memória do outro. Senão, não vale nada. Quando lê Pedro Nava, você sente que aquilo está na sua carne, está vivendo aquilo. Então, o memorialista, para ser um grande escritor, tem que fazer com que o outro viva o que ele está vivendo, e não apenas contar as suas aventuras. É uma criação. É um gênero literário que se você não faz muito bem é um desastre. Ou é grande literatura ou não é literatura. Pedro Nava é grande literatura. Drummond faz memória. Proust faz memória. Thomas Mann, Elliot, Joyce fazem memória.”
Lê os novos? “Atualmente na área literária conheço pouca gente. Não estou muito a par dos novos grandes escritores. Gosto de ler Machado (de Assis), não consigo parar. Guimarães Rosa tem contos inacreditáveis. Estou mal acostumada com literatura muito boa. Aprendi a gostar de ler com meu pai. A gente lia Shakespeare na minha casa. Meu pai lia Shakespeare em inglês e francês. Minha filha é uma escritora muito boa, também. Ana Teresa Jardim escreve muito bem. Essa coisa da literatura está na nossa vida, no nosso sangue”, responde.
‘A literatura dá conta do mistério’
Pergunto sobre o pedido dos 90 anos. Rachel entende sentido. E diz: “Acho que nada faz sentido na vida. A vida não tem sentido nenhum.” Desisto da ideia do pedido e invisto na questão do sentido. Para ela, seu percurso literário criou sentido, questiono. “Literatura é um estado de graça. Quando você começa a ler uma coisa boa, passa dos limites do mundo, se transfere para outro lugar. É uma outra coisa, uma força, uma coisa de espírito. Fazer arte, fazer música, fazer literatura é uma graça.”
Qual sentido busca, então, aos 90? “Ainda não achei um sentido para a vida. Acho a vida às vezes trágica, às vezes cômica. Não consegui achar o sentido e, talvez, a coisa mais importante é não ter sentido mesmo, porque se não tem sentido você tem que viver seu dia a dia da maneira mais intensa que possa ser. Tem que tirar do nada alguma coisa para viver. O grande heroísmo é esse. Você sai de casa todo dia de manhã e não sabe se vai morrer, desce a escada, ou o elevador, e ele pode cair com você. Não sabe se vai morrer naquele mesmo dia, ou no seguinte ou meia hora depois. Não sabe nada, é um mistério. O que acontece depois da morte eu não sei, não tenho a menor ideia, se é que existe alguma coisa. A literatura dá conta desse mistério, tenta fazer parte, revelar alguma coisa. É o que segura a vida para mim.”
Retificação: Rachel Jardim completa 90 anos nesta quarta-feira, dia 21, e não no último domingo, 18, como publicado anteriormente. A informação foi retificada às 16h13 desta segunda-feira (18).

