Ícone do site Tribuna de Minas

Entrevista/Adriano Reis Ramos, conservador-restaurador

PUBLICIDADE

Ao receber a Tribuna, o especialista em conservação e restauro Adriano Reis Ramos estava com uma edição do "Estado de Minas" por perto. Dias antes, ele havia oferecido depoimento para uma matéria sobre os perigos da restauração irresponsável. O assunto ganhou espaço na mídia e nas redes sociais depois que a espanhola Cecília Gimenez, de 81 anos, modificou as feições do Cristo na pintura "Ecce Homo", do século XIX, atribuída a Elías García Martínez. Caminhando pelo Museu Mariano Procópio, onde ministrou a palestra "Pragas que infestam os acervos bibliográficos e documentais: prevenção e tratamento" na terça passada, Adriano encontrou alguns exemplos de intervenção equivocada. Para ele, humildade e respeito à obra de arte são as principais características de um profissional da área.

Ao lado da irmã e sócia Rosângela Reis Costa, o especialista desenvolve no museu o tratamento do acervo em suporte de papel. "Essa questão dos insetos é um dos maiores problemas que temos no Brasil, com seu clima tropical." O Grupo Oficina de Restauro, fundado em 1987 por Adriano, Rosângela e Maria Regina Reis Ramos, está finalizando atualmente a desinfestação, por meio do sistema anóxio, de 880 metros cúbicos de documentos – livros e periódicos – da Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo. O processo consiste no isolamento do material no interior de bolsas plásticas impermeáveis de alta barreira e na substituição do oxigênio por gás inerte, nitrogênio ou argônio. "É exatamente esse trabalho que estamos realizando aqui", observa Adriano. Em entrevista ao jornal, o restaurador falou sobre o envolvimento da comunidade e do poder público com a preservação dos bens culturais, discutiu a situação de sua atividade no país e lançou por terra a antítese progredir X preservar.

PUBLICIDADE

 

– No site do Grupo Oficina de Restauro, há a frase "conservar sem ser conservador". O que ela quer ressaltar?

– Pode-se progredir e, ao mesmo tempo, preservar o que se fez no passado. Não é preciso parar no tempo. Se assim fosse, nem um banheiro seria construído, pois antes havia fossas. É possível progredir e preservar. Amsterdã (Holanda), por exemplo, cresceu como leque, para manter o centro histórico. Tudo é uma questão de planejamento.

 

PUBLICIDADE

– De que maneira o poder público e a comunidade vêm interagindo com a ideia de preservação do patrimônio cultural no país?

– Temos o Grupo Oficina há 25 anos. Atuei no Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha-MG) durante nove anos, de 1978 a 1987. Naquele período, essa história estava engatinhando. Tive um professor que dizia: "não trabalhe com restauração. Só terá desilusão". Era uma situação difícil. Hoje, tomamos outro rumo, até mesmo em termos conceituais. O assunto se descentralizou. Há associações comunitárias, além de prefeituras interessadas. Tem-se a consciência de restauração, não de reforma. Parece uma palavra descabida, mas virou "moda". Uma bela moda. É uma questão de honra preservar os bens artísticos, culturais e históricos. Isso facilitou as coisas para o poder público, estadual e federal. As pessoas se unem a favor de uma igreja, de uma casa, da memória de alguém, de um museu. No Brasil, de Norte a Sul, vemos alguma ação de restauração.

PUBLICIDADE

 

– Como o cidadão comum pode colaborar com a conservação de um bem?

– Na época da ditadura, havia um certo olhar de milagre econômico, de crescimento chutando o passado. Entretanto, povo sem memória não tem futuro. O cidadão de hoje é a favor da preservação, diferente do cidadão comum de 40 anos atrás. Muitas vezes, trata-se de dinheiro público, e as pessoas cobram. O olhar positivo delas faz com que os políticos se mobilizem. Por isso, é importante a atitude da comunidade. Certa vez, numa cidade do interior, um senhor me disse que, se pudesse, passaria o trator para derrubar uma igreja que estávamos restaurando. Após alguns meses, ele me procurou para pedir desculpas, pois se deu conta de que o avô, o pai e a mãe estavam enterrados ali. Depois, agradeceu pelo nosso trabalho. Atualmente, são raras as pessoas que pensam como esse senhor fez inicialmente.

PUBLICIDADE

 

– Restaurar é um processo mais complexo que construir?

– Sem dúvida. Estou acabando de construir um galpão e vejo como flui. A restauração sempre traz uma surpresa. Por exemplo, por mais que você analise o piso numa casa e o considere bom, quando se abre, aparecem problemas na estrutura. A gente costuma brincar que um projeto só acaba no fim da obra. É possível prever um pouco por conta da experiência, mas nem sempre. Nós estamos restaurando uma edificação em Belo Horizonte com oito cômodos. Achamos pinturas decorativas em todos ao longo do processo. É uma tarefa que não acaba. Durante as prospecções, descobrimos que toda a casa é decorada. É um exemplar típico do início da cidade, do final do século XIX.

PUBLICIDADE

 

– E o que se sente ao encontrar essas preciosidades escondidas?

– Quando o profissional entra no prédio, pelo histórico ou por sua experiência, tem alguma noção. Então, vai às fontes, consulta e percebe as possibilidades. Mas, às vezes, não se espera nada, e surgem coisas maravilhosas. Creio que essa seja a grande satisfação do restaurador: encontrar uma pintura artística debaixo de uma pintura lisa. Isso acontece bastante, porque, nos séculos XIX e XX, as pinturas barrocas não eram bem-vistas pelas pessoas. Todos achavam o barroco kitsch. O século XIX veio com uma estética classicista, o azul e branco, e toda a efervescência barroca foi considerada bisonha.

 

– Quais as principais características necessárias a um conservador-restaurador?

– Humildade e respeito à obra de arte. O que se vê, inclusive em alguns itens do Museu Mariano Procópio, é a tendência de certos artistas plásticos de levar sua vontade para a obra a ser restaurada. Com o restaurador, acontece o contrário. Ele deseja que a obra permaneça como foi concebida. Importante também é lembrar que antes da restauração vem a conservação. Na realidade, somos conservadores e restauradores. Mas o primeiro passo é conservar, evitar que o dano ocorra para não chegar à restauração. Fazendo analogia com a medicina, a restauração é uma intervenção cirúrgica, enquanto a conservação é o cuidado para não ficar doente. Mais especificamente, o conservador-restaurador precisa ter conhecimento de química, física, biologia. Trata-se de uma atividade interdisciplinar.

 

– Por falar nisso, que tipo de diálogo vocês estabelecem com outros profissionais como arqueólogos, curadores, arquitetos e museólogos?

– Um diálogo constante. Hoje, se a pessoa atua no Iepha ou no Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), está ligada a arquitetos e historiadores. Se ela desenvolve projetos, também se alia a outros profissionais, como químicos etc. No caso das igrejas barrocas do século XVIII, que é o nosso carro-chefe, há sempre a cobertura e a decoração interna. É indispensável trabalhar ao lado de um arquiteto, de forma que um não interfira no ofício do outro e haja um planejamento conjunto. Uma única martelada no telhado pode soltar a pintura do forro. Então, é necessário fazer sua fixação, além de um escoramento para agir com os devidos cuidados. Aliás, já existe o arquiteto-restaurador, especialista na área.

 

– Como analisa a situação da sua profissão no Brasil?

– É uma profissão bem estabelecida, mas não regularizada. Atualmente, já temos cursos, inclusive a graduação na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que está formando sua primeira turma. Na década de 1940, com a implantação do Iphan (em 1937), surgiram três restauradores no país, todos já falecidos. Foi assim que tudo começou, depois que os três voltaram do exterior, onde foram estudar. Fui aluno de um deles, Jair Afonso Inácio. Meu irmão mais velho, minha irmã, que é minha sócia, e eu integramos uma escola em Ouro Preto (MG). Com o tempo, a área se profissionalizou. Muitos foram estudar na Europa, inclusive eu e minha sócia. Só assim se podia começar a trabalhar.

 

– Quais as suas impressões a respeito do acervo do Museu Mariano Procópio?

– Esse museu tem importância extra no cenário nacional, é muito conhecido. Possui problemas, claro, que estão sendo tratados com disposição pela equipe. Nosso trabalho aqui vai resolver a questão mais urgente, exterminando os insetos da coleção sem nenhum dano para os documentos.

Sair da versão mobile