Os amantes da música erudita poderão assistir nesta quinta-feira a uma apresentação singular no XXIV Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga. Trazendo ao palco do Cine-Theatro Central sua identidade musical própria, o grupo Anima, de Florianópolis, Santa Catarina, apresenta pela primeira vez em Minas Gerais o espetáculo "Donzela guerreira". Neste trabalho, o grupo, que completa 25 anos em 2013, aborda o encontro entre o feminino e o masculino – "anima" e "animus" – a partir do mito da donzela guerreira, personagem que aparece em diferentes contextos, em diversas culturas e épocas: a mulher que se veste de homem, transgride o papel feminino e entra no universo masculino.
Composto de três atos – "O tempo mítico (Anima)", "O sangue fecunda a terra (Animus)" e "A revelação e o encontro (Anima e Animus)" -, o espetáculo conduz a uma viagem sonora, alicerçada nos polos da música medieval ibérica e da tradição oral brasileira. "Ao longo da sua trajetória, o Anima consolidou essa linguagem de sobreposição, que fica muito clara logo no primeiro CD, ‘Espiral do tempo’, de 1997", avalia um dos integrantes do grupo, Luiz Fiamingui (rabecas brasileiras). Compõem ainda o Anima Gisela Nogueira (viola de arame), Marlui Miranda (voz e percussão), Paulo Dias (percussão), Silvia Ricardino (harpa medieval) e Valéria Bittar (flautas doce e Yãkwá), além da soprano convidada, Marília Vargas.
"Donzela guerreira" teve lançamento oficial em concertos dramático-musicais em 2010 e esteve em diversas salas e festivais do Brasil e da Europa. O quinto álbum do grupo é acompanhado de livro ilustrado, de 88 páginas, com vários textos, entre eles, um ensaio inédito de Walnice Nogueira Galvão, que oferecem substratos teóricos sobre os temas abordados e enriquecem a audição.
Mito universal
Mais que um programa de música erudita, "Donzela guerreira" propõe um roteiro dramático-musical. A narrativa passeia por versões do mito recorrente em vários lugares do mundo. "Um mito universal, cujas referências já podem ser buscadas na Grécia Antiga, em Atenas, na mulher que vai à guerra em defesa da justiça e da ordem, não pelo poder", propõe Fiamingui. "No Brasil, o mito é recontado desde a chegada dos portugueses, pelas contadoras de histórias. Aparece também, por exemplo, em ‘Grande sertão: Veredas’, de João Guimarães Rosa, na personagem Diadorim, que se veste de homem para vingar a família", prossegue.
As tramas amorosas ao redor da donzela também são recorrentes, embora assumam diversas vertentes. Para se passar por homem, a jovem frágil deve disfarçar sua feminilidade. Cortar os cabelos, esconder o volume dos seios, usar botas que cubram os pés pequenos. "Mas o olhar é algo impossível de disfarçar, e é a partir desse olhar que ela revela sua identidade feminina", diz.
No espetáculo, o mito se entrelaçada a outras histórias que abordam a mulher que transita pelo universo tido como masculino. Mitologia e história também se confundem. Caso de uma tribo indígena do Acre, cuja sabedoria da cerâmica e da tecelagem é dominada pelas mulheres, em meio a um universo fortemente masculino. Ou, ainda, das caixeiras do divino Espírito Santo e seus tambores, do Maranhão. Aos sons que remontam a história da tribo do Norte do país, são acrescidos hinos de louvor compostos por uma monja europeia do século XI, sábia que dominava a medicina das ervas.
O hibridismo musical proposto pelo grupo passa por várias etapas de construção, que começa com um intenso trabalho preliminar de pesquisa musicológico-histórica e etnomusicológica e se completa na elaboração coletiva de arranjos e composições musicais. Essa estética musical permeável é possível pela origem dos instrumentos utilizados pelo grupo e pela própria formação eclética de seus integrantes.
"Cada um traz consigo a sua contribuição enquanto instrumentista", avalia Fiamingui, que toca quatro tipos de rabeca. "Marília, convidada para este trabalho, é especialista em canto medieval, em música antiga. Dos outros componentes vêm contribuições da cultura afro-brasileira, dos tambores de Minas, do congado, da música indígena, da mitologia grega." Instrumentos da tradição folclórica são transportados para uma linguagem camerística. Harpa medieval, tambores, flautas e viola de arame (ancestral da viola caipira) se unem na eclética identidade musical do Anima.
DONZELA
GUERREIRA
Com Grupo Anima
Quinta-feira, às 20h30
Cine-Theatro Central
