
A relação entre cerâmica e música é antiga — o material é usado como base para percussão, como nas moringas, presentes na música africana, e também nos instrumentos de sopro, nas ocarinas usadas na cultura latino-americana e andina. Mas o Concerto Mineral traz uma proposta nova: as peças ocupam o lugar da harmonia, representando, cada uma, uma nota. Esse projeto é resultado de 27 anos de pesquisa do artista plástico Máximo Soalheiro, que une a paixão por arte e música na iniciativa, que passa pela primeira vez pelo interior de Minas. Em Juiz de Fora, o show único acontece no sábado (20), às 20h, no Cine-Theatro Central. Os valores dos ingressos variam entre R$ 15 e R$ 50 e podem ser adquiridos pelo Sympla.
A pesquisa do projeto Mineral nasceu enquanto Máximo trabalhava no projeto gráfico do álbum “Baile das pulgas”, da artista Marina Machado, em 1999. Um dos patrocinadores do projeto tinha uma mina, e ele conta que resolveu pedir análise físico-química do material que o local continha, e encontrou um elemento chamado agalmatolito. Esse material é responsável pelo endurecimento da cerâmica e, quando o artista resolve incluí-lo na composição das peças, consegue produzir itens com melhor sonoridade, que se sustentam e têm altura definida.
Com o avanço das pesquisas, o ceramista passou a incorporar outros elementos e a refinar os processos de moagem e queima, obtendo um material capaz de atingir a precisão sonora necessária. Atualmente, ele consegue definir a nota que cada peça vai emitir ao ser retirada do forno. Verdadeiros instrumentos. “O mineral é o encontro dessas minhas duas paixões, a música e a cerâmica. Com muito desenvolvimento, desde 1999, a gente fecha o projeto e apresenta pela primeira vez na Sala Minas Gerais da Filarmônica de Belo Horizonte”, conta. No ano seguinte, 2019, o espetáculo foi apresentado no Grande Teatro Cemig Palácio das Artes, esgotando 1.700 ingressos em uma única apresentação.
Para ele, o diferencial está na possibilidade criativa que a cerâmica gera, em um espetáculo que estimula tanto o aspecto musical quanto o visual — e que exige que os músicos tenham um preparo específico para compreender. “O que a gente consegue com o mineral é ter instrumentos de mais de três oitavas que você consegue estar com vários instrumentos. É um espetáculo que tem a ver com instalação e performance, porque tem mesas de dois e quatro metros com cerâmicas que vão ser tocadas, com arranjos feitos especialmente para esses instrumentos”, diz.
Repertório
O repertório do espetáculo traz nomes como Hermeto Pascoal, Santiago Vazquez, Steve Reich, Bobby McFerrin, Rafael Martini, Björk, Claude Debussy e Ary Barroso — inclusive já aproveitando de muitas experimentações desses artistas com diferentes materiais. E também inclui cinco músicas inéditas de Milton Nascimento, Caetano Veloso, Animal Collective, Dave Brubeck e Davi Fonseca. “Essa seleção passa por manter brasilidade ao mesmo tempo que traz o internacional e contemporâneo”, explica Máximo.
O projeto foi feito com o músico Pedro Durães, que é responsável pela direção musical do espetáculo, e também conta com instrumentistas que, além da instalação, que tocam com as mãos, baquetas e arco, também adicionam a performance musical com baixo acústico, percussão, sopro, piano, clarineta, clarone e voz. Todos esses arranjos foram escritos especialmente para a sonoridade criada pelo conjunto de instrumentos, pois, como Máximo explica, é preciso conhecer bem esse instrumento tão raro, e que exige bastante estudo. Tudo precisa funcionar em perfeita harmonia: “Cada peça dessa é uma nota, e precisa estar completamente afinada, porque toca junto com piano, clarone, clarineta e eletrônicos”, diz ele.
Sob o teto de Arcuri
Ao desembarcar no Cine-Theatro Central, a experiência do Concerto Mineral também se modifica. Máximo explica que já conhecia o trabalho que o arquiteto Raphael Arcuri fez no local, mas só na visita técnica pôde ver ao vivo. “Esse projeto (do Arcuri) é apaixonante, espero que a gente faça um belo espetáculo. As pessoas podem esperar uma coisa muito diferente e que vai marcar elas muito, como aconteceu antes também no Inhotim e no Palácio das Artes. É um espetáculo que tem muito sucesso com o público”, conta.
Para a viagem, como ele conta, são levados 103 peças de cerâmica, sendo 96 de harmonia e sete de percussão. Além dos 38 microfones que precisam ser utilizados e todos os cuidados necessários para garantir que a apresentação ocorra bem. “Viajar com isso é uma loucura, porque temos cases especialmente projetadas para essas cerâmicas não quebrarem. Quanto mais graves, mais finas são. Tem que ter super cuidado na hora de viajar e de montar, de afinar”, revela Máximo. Além de Juiz de Fora, o Concerto Mineral também passou por Uberlândia e irá chegar em Diamantina e Ouro Preto. O concerto é patrocinado pela CEMIG, por meio da Lei Estadual de Incentivo à Cultura de Minas Gerais, e tem apoio cultural das prefeituras municipais e realização do Governo de Minas Gerais.
