Não há quem não se seduza por um buraco de fechadura. Há, sempre, uma curiosidade pelas frestas do que não se pode saber. Por isso, para conter os desejos, existe o conceito de privacidade, que, além de colocar certa ordem social, faz valer a prática de outra noção, ainda mais preciosa: a intimidade. Pelas gretas de uma porta, que o jornalista e escritor Flávio Braga não deixa escancarar, surge a história de Stalking: A história real de uma perseguição amorosa (Editora nVersos, 151 páginas), A surreal saga entre amantes que não comungavam do mesmo sentimento começou a ser escrita quando o autor colheu entrevistas de um arquiteto carioca. Aos 49 anos, o homem relatou os absurdos cometidos por uma mulher abandonada.
Eduardo, o personagem quarentão – que poderia, facilmente, pertencer ao campo da ficção, mas dificilmente seria aceito como verídico -, conhece uma garota na praia e logo se encanta. Para sua surpresa, a menina é filha de uma velha conhecida, Tânia. Na tentativa de se aproximar da jovem, ele acaba ganhando a mãe. Enviada para a casa do pai, em Minas Gerais, a garota abre um espaço na casa, que logo em seguida é ocupado por Eduardo, fisgado pelo sexo, mas não pelo coração. Uma amiga delirou, argumentando que é um jogo no qual eu faço a minha parte. Que eu a incentivei inconscientemente, sabe como é? Mas isso não explica nada, é só uma especulação a mais, relata o narrador logo no início do texto.
Sem emprego fixo, morando na casa dos pais e sem filhos, Eduardo estava completamente suscetível ao risco de uma paixão e tinha consciência de que arriscar também envolve errar. Quando percebeu o passo em falso, Eduardo recuou e largou Tânia. No momento, já estava caído de amores por Dirce, uma cliente. Enlouquecida, a mulher desamparada arma inúmeras tramas para fazer o quase marido voltar para casa. Num dos casos que Braga relata de maneira leve, assumindo a voz do perseguido, Tânia se esconde para aguardar Eduardo sair de casa, segue-o até o ônibus e faz um escândalo dentro do coletivo. Em outro, denuncia-o como um grande traficante, fazendo com que a polícia invada sua casa e vasculhe todos os espaços.
Caçadora cheia de garras
Desesperado, Eduardo procura ajuda psicológica, tenta conversar amigavelmente com a mulher, muda de rota e para de atender o telefone. Mas já era tarde, ele vivia um inferno. Armado de indignação e prudência, procurei Tânia em sua casa. Fui recebido por uma nova surpresa. Ela não morava mais ali, conta o narrador, para logo constatar: Pela primeira vez eu me senti vítima de stalking, Flávio, como a nova expressão que você me ensinou define. Eu estava sob a mira de um caçador. Poderia ser abatido em qualquer momento.
Constituído de pequenos capítulos, com um projeto gráfico leve e atraente, a obra é fluida, apesar de muito mais jornalística que ficcional. Certamente os mesmos recursos utilizados pelas notícias são o que alimentam o leitor a encarar uma narrativa irreverente, surreal e hilariante, haja vista a loucura de Tânia diante de uma separação. Com uma proposta maior, Flávio Braga, que já se lançou no romance entre mais de duas dezenas de títulos – a maioria com temáticas voltadas aos relacionamentos amorosos, como O que contei a Zveiter sobre sexo, de 2007 e Sob Masoch, de 2010 – encara um drama comum, porém ainda desconhecido.
O termo inglês stalker, que dá nome ao título, aplica-se a alguém que importuna de forma insistente e obsessiva uma outra pessoa. Normalmente, celebridades, principalmente as mulheres, são as maiores vítimas, mas o que Braga confirma com seu livro é que até nossas leis carecem de mais atenção a esse fenômeno. Do outro lado da fechadura pode haver uma boa dose de humor, mas, também de espanto.
