Em uma sociedade em que o novo protagoniza as escolhas e a tecnologia transforma a noção de tempo, os museus necessitam repensar sua posição. O ato de colecionar é conservador por natureza, mas, diante do público, ele se redefine e se ajusta a cada época. Assim sentencia Rodrigo Moura, curador do Inhotim – Instituto de Arte Contemporânea e Jardim Botânico, que participou na última quarta da mesa-redonda O papel dos museus na sociedade, promovida pelo Museu Mariano Procópio. O evento faz parte da 10ª Semana de Museus, que acontece em todo país por conta do Dia Internacional de Museus, comemorado hoje. Neste ano, o tema proposto para discussão é Museus em um mundo em transformação – novos desafios, novas inspirações.
Rodrigo observa que ainda habita o imaginário dos espectadores a ideia de um museu como um quarto escuro repleto de objetos do passado. Na atualidade, porém, as instituições vêm buscando maneiras de serem ativas e próximas do cidadão. Se espremermos ao máximo a missão do Inhotim, diria que o que sobra é educar e transformar a sociedade. Na visão do superintendente de museus e artes visuais da Secretaria de Cultura de Minas Gerais, Léo Bahia, a busca por públicos determinados foi substituída pela comunidade participativa. Bahia cita o Museu da Cachaça, em Salinas, construído ao lado dos moradores do lugar e com base em seu conhecimento. O projeto envolve o universo sócio-cultural do processo de produção e circulação da cachaça. Se essa história não fosse documentada, iria se perder. O espaço – que será inaugurado no dia 13 de julho, durante o Festival da Cachaça – baseia-se na tradição da oralidade, trazendo poucos textos e recursos tecnológicos. Habitantes da cidade, após um treinamento específico, serão os responsáveis por contar a trajetória da tradicional bebida.
Para a diretora do Museu da República do Rio, Magaly Cabral, ainda hoje as pessoas costumam se excluir dos espaços artísticos e culturais. Falta pesquisar quem não nos frequenta e por que não nos frequenta. Segundo a diretora, mais que implementar serviços para atrair o público, os museus devem se preocupar em travar discussões. Não tenho nada contra cafés, restaurantes e lojas, mas me preocupo com o diálogo efetivo, diz Magaly, acrescentando que quem faz a instituição é o profissional que nela atua e não a coleção que ela guarda.
A diretora relembra a chamada Mesa-redonda de Santiago do Chile, que discutiu, em 1972, o papel dos museus na América Latina. Após 40 anos, de acordo com Magaly, a missão continua, principalmente aquela relacionada à educação. Conforme Léo Bahia, a função educadora deve abrir espaço aos atos pedagógicos para o desenvolvimento do sujeito. No caso do Museu do Percurso do Vale do Jequitinhonha, que também está sendo apoiado pela Secretaria de Cultura, cada sede tem a responsabilidade de compreender e definir o que é importante, tendo como referência a vivência dos cidadãos. O superintendente também menciona a gestão compartilhada entre município, estado e governo federal como uma tendência da atualidade.
De acordo com Bahia, cerca de cinco novos museus são inaugurados por mês em Minas. Rodrigo Moura questiona essa proliferação de instituições. É muito mais fácil abrir um novo que recuperar um local antigo. Uma lógica perversa. Com relação ao Museu Mariano Procópio, os três especialistas elogiam o acervo e alertam para a urgência de soluções. Nós da Secretaria de Cultura estamos sensibilizados e queremos levantar medidas efetivas para a reabertura do lugar, comenta Léo Bahia. Ele e Magaly Cabral também participaram da mesa-redonda O papel dos museus na sociedade, que foi mediada pela professora do departamento de arquitetura e urbanismo da UFJF, Mônica Olender.
