No tempo em que disputar a atenção com nomes como Chico Buarque e Caetano Veloso parecia missão impossível, uma mosca parece ter pousado na sopa do cancioneiro nacional nos anos 70. E por lá ficou. Atingindo a marca de cem mil espectadores em sua terceira semana de exibição, o documentário "Raul – O início, o fim e o meio", de Walter Carvalho, com produção e idealização de Denis Feijão, aos poucos, vai chegando a outras cidades do Brasil, como acontece a partir desta sexta, quando desembarca em Porto Alegre (RS), Curitiba (SC), Santos e Campinas (SP). Por enquanto – e desde a estreia nacional em 29 de março -, Juiz de Fora vem conferindo a aventura que foi para Carvalho traduzir Raul Seixas na telona, em que o público tem a oportunidade de conferir, sobretudo, de que forma o Raulzito da Bahia se tornou Raul Seixas, um dos ícones da contracultura setentista que, não só para temperar a "sopa" da música popular, veio para imortalizar a rebeldia do rock genuinamente brasileiro.
Um dos 94 entrevistados por Walter Carvalho ("Cazuza" e "Heleno"), o músico local Toninho Buda virou alvo de comentários de artistas e fãs de Raul da cidade. Por causa de sua proximidade com o compositor baiano, principalmente com relação ao envolvimento de ambos com esoterismo, magia e misticismo (por exemplo, seduzir mulheres com a tal "magia sexual"), seu perfil no FaceBook vem recebendo cada vez mais mensagens de congratulações. "Raulzito foi um gênio. Um abraço ao amigo Toninho Buda que viveu intensos momentos ao lado do ‘cara’! Mais um filme para a disciplina história da MPB que se aproxima", anunciou o compositor Carlos Fernando Cunha.
Toninho Buda participou do projeto com depoimento sobre o contato com práticas de ocultismo ligadas ao mago Aleister Crowley e cenas do seu filme "Contatos imediatos do IV Graal", rodado em Juiz de Fora em 1979 e vencedor do primeiro Festival de Cinema Super-8 da cidade. O filme de Toninho Buda – um dos poucos a levantar a bandeira da "sociedade alternativa" defendida por Raul Seixas e Paulo Coelho na época – chamou a atenção da direção de "Raul – O início, o fim e o meio", daí a inserção de mais de 20 cenas da produção local no documentário que acompanha vida e obra de um dos maiores roqueiros brasileiros, com a participação de outros nomes da cena artística, como Nelson Motta, Tom Zé, Pedro Bial, Caetano Veloso, entre muitos outros, inclusive o próprio Paulo Coelho, com quem Buda também já dividiu seus preceitos ideológicos.
"Eu fazia parte da chamada contracultura, que era muito popular entre os jovens nos anos 60 e 70. Raul Seixas e Paulo Coelho eram expoentes desse movimento", conta Buda. "Eles haviam criado a famosa ‘sociedade alternativa’ em 1973, baseada no mago inglês Aleister Crowley. Meu sonho era conhecê-los, e isto aconteceu em 1981, quando estive com Paulo Coelho num encontro alternativo, no Rio, e em 13 de agosto de 1983, quando trouxemos Raul Seixas ao I Festival de Rock de Juiz de Fora. Daí para frente, meu contato com os dois foi só se estreitando, até que, de 1984 em diante, nós já trabalhávamos juntos no que seria a ‘reativação da sociedade alternativa no Brasil’, praticamente ‘desativada’ em 1976"!, detalha o músico local, cuja trajetória junto a Raul Seixas e Paulo Coelho consta na biografia de Coelho ("O mago"), de Fernando Morais.
Contracultura na contemporaneidade
Imitar Elvis Presley e garantir um "sotaque" à Jovem Guarda só não livraram Raul Seixas do limbo – já que tantos nomes ligados ao rock surgiram nos anos 60 na Bahia – como também fortaleceram seu nome junto aos precursores da chamada contracultura, movimento desencadeado dentro dos EUA, o coração do capitalismo. "Mesmo vivendo um momento de grande conforto material, o país transmitia ao mundo sua insatisfação com relação ao que isso oferecia em termos de respostas para demandas espirituais e psicológicas", observa o compositor e jornalista com pesquisas no ramo da contracultura e música popular brasileira, Edson Leão.
Mas o que, afinal, ainda sobrevive da contracultura na contemporaneidade? Para Edson Leão, este é o momento em que tais questionamentos se fazem mais necessários que nunca. "Estamos cercados de informações por todos os lados, e não parece que a questão central, a felicidade, esteja perto de ser resolvida".
O antropólogo Petrônio Granato garante que não há um espaço muito limitado para movimentos desse tipo em nossa sociedade contemporânea. "Infelizmente, as gerações mais recentes não têm uma forma de organização social diferente da capitalista para fazer uma comparação – uma ‘sociedade alternativa’, nas palavras do bom e velho Raul", diz. "O capitalismo tudo absorve na forma de moda, música, comportamento etc. Tudo vira mercadoria. Entretanto, segundo o também bom e velho Max Weber, para compreendermos uma sociedade é preciso compreendermos o significado que os indivíduos atribuem às suas ações. E tais significados são subjetivos", teoriza.
Quem concorda é o jornalista e professor Cristiano Rodrigues, cuja tese de doutorado investiga a relação dos documentários com a formação de professores. "Não sei se na contemporaneidade faz sentido falarmos de contracultura. Parece que o que assistimos passivamente hoje é o mercado e o sistema capitalista envolvendo as manifestações culturais mais alternativas e transformando-as em produto facilmente consumível", comenta.
Do estouro com o segundo lugar no Festival Internacional da Canção em 1972 (com "Let me sing") à descoberta do diabetes em 1984, Raul Seixas foi um dos muitos a protagonizar uma carreira meteórica, o que contribuiu, de acordo com o diretor Walter Carvalho, para que o viés da contracultura desaguasse no mundo inteiro. "Assim como Cazuza e Torquato (Neto), Raul é um artista que veio para dar o seu recado muito rápido, e na medida em que penetrei na memória das pessoas entrevistadas, inventava meu próprio herói", informou, por e-mail, Carvalho, chamando a atenção para o público, sobretudo mais jovem, nas salas de cinema onde seu documentário se encontra em cartaz.
Qual é o interesse das novas gerações pelos ícones da contracultura? "Caso o público que vem assistindo ao filme seja majoritariamente de jovens, minhas esperanças se renovam no sentido de uma reação um pouco diferente da comum, a qual seria assistir simplesmente como diversão sem reflexão e movimento", dispara Petrônio Granato. "Raul teve também uma postura de vida que parecia representar o que falava nas letras, e, no momento em que você tem cada vez mais artistas com autenticidade em seu trabalho, não há dúvida se é real ou não. Hoje, é perceptivo quando nos deparamos com exemplos de pessoas armadas para parecer rebeldes, o que não é natural como era em Raul, cuja rebeldia foi amadurecendo ao longo da trajetória enquanto consumidor e produtor de música", opina Leão.
Na visão de Cristiano Rodrigues, a relação entre a nova geração e o ideário de rebeldia diz respeito a narrativas modernas. "Acho que a literatura, o jornalismo, a mídia e as diferentes áreas muitas vezes não deram conta de revisitar a história cultural do Brasil com a potência que o cinema documental começa a fazer. Nos últimos anos, a produção de documentários sobre música, músicos e MPB disparou", observa o jornalista, sobre trabalhos referentes a nomes como Arnaldo (Loki) Baptista, Tom Jobim, Paulinho da Viola, Doces Bárbaros, Tom Zé, Titãs e outros que, apesar de algum traço de rebeldia impresso em suas obras, muito devem à "metamorfose ambulante" do rock Raul Seixas.
Palace 2: 15h e 21h
Classificação: 14 anos
