
Em seu segundo romance, Sérgio Abranches traz a história de Clarice, uma mulher que prepara sua partida após decobrir ter poucos meses de vida
Autora bem-sucedida, Clarice é professora de literatura e criação literária na universidade. Ela é feliz, culta, sensível, aberta e mãe de Marina e Jorge, um casal de jornalistas. Quer aproveitar cada minuto da vida. Ao descobrir que tem um câncer terminal e apenas mais alguns meses de vida, ela escreve para os filhos e começa a preparar sua partida. Essa é a história que o escritor, jornalista, cientista político e sociólogo Sérgio Abranches escolheu para o seu segundo romance. “Que mistérios tem Clarice” (Biblioteca Azul, 310 páginas) parte dos dias atuais, ano de 2012, para uma viagem por tempos e paisagens distintas. Apesar de possuir certas semelhanças com a aclamada escritora brasileira, Clarice Lispector, a protagonista desta trama é rigorosamente ficcional, conforme relata o autor na entrevista que segue nesta edição. “Muita gente acha que o livro foi inspirado em Clarice Lispector, de quem eu gosto muito, mas, em momento algum, pensei nela, embora as duas tenham alguns paralelismos biográficos, como, por exemplo, a maneira como viveram e o fato de serem escritoras. O título do livro tem a ver com uma música do Caetano Veloso”, ressalta Abranches, que falou à Tribuna (ouça entrevista neste sábado, às 10h30, na Rádio CBN) sobre o doloroso momento em que sua criação surgiu. Inspirações? Sua alma mineira falou mais alto, e a travessia de Guimarães Rosa se impôs.
Tribuna – Você disse em uma entrevista que esse livro trata de uma ficção existencialista? Por que isso?
Sérgio Abranches – Clarice tem uma visão de vida como uma escolha permanente. Quer dizer, na nossa vida, somos aquilo que construímos. Tento mostrar como a Clarice constrói a vida dela a partir de escolhas bastante claras e firmes e como isso produz nela uma atitude diante da vida e da morte, que é muito positiva, no sentido de que a morte não pode significar uma derrota.
– O livro surgiu em um momento difícil da sua vida…
– Eu tinha voltado de uma viagem à África, onde sofri um pequeno acidente. O jipe freou bruscamente, bati com a câmera no olho e descolei a rotina. Quando voltei para o Brasil, após descobrir que tinha perdido boa parte da visão, tive que fazer uma cirurgia de emergência. Fiquei seis meses sem poder ler até que recuperei completamente a visão. Fiquei muito traumatizado com a ideia de uma pessoa que leu muito, vivia de ler e escrever, e, de repente, se vê ameaçado de não enxergar mais. Imediatamente comecei a escrever Clarice, que era um projeto meio vago na minha cabeça ainda. Escrevi uma história, inclusive, completamente diferente do que tinha imaginado originalmente. Mergulhei na história dessa mulher para conseguir sair dessa impressão ruim que fiquei desse episódio.
– Há quem faça comparações entre a sua personagem e Clarice Lispector. Como tem sido as críticas?
– Minha Clarice é rigorosamente ficcional. Na verdade, ela representa uma quantidade grande de mulheres que fizeram o que ela fez: passaram a vida escrevendo, tiveram uma atitude existencialista muito clara, opções muito claras de vida, valorização muito forte da vida e, ao mesmo tempo, são escritoras que pensam muito filosoficamente o mundo. Há várias escritoras que são assim, inclusive algumas importantes autoras de outras partes do mundo. Eu me lembrava um pouco desse perfil genérico de mulher, uma mulher que é independente a qualquer tempo e que tem uma ousadia intelectual e ousadia existencial que são extraordinariamente libertadoras.
– De que forma o cientista político e o jornalista estão presentes nesta ficção?
– Estou neste livro mais como jornalista do que como cientista político. O livro não tem uma trama política muito forte. Na verdade, ele tem uma passagem pela ditadura militar, uma questão política muito importante na trajetória de Clarice, mas eu analiso esse período muito mais do ponto de vista do sentimento do oprimido, do perseguido, do censurado, do que do ponto de vista da explicação para o fenômeno do autoritarismo militar. Agora, no caso do jornalismo, os dois filhos da Clarice, o Jorge e a Marina, são jornalistas. Ele é fotógrafo, e a Marina escreve reportagem de viagens. Claramente, boa parte da construção desses personagens tem a ver com a minha experiência de jornalista. Há também um pouco dessa observação do jornalista em toda construção das experiências pelas quais Clarice, Jorge e Marina passam.
– Você se declara um admirador de Guimarães Rosa. O que há de roseano na sua ficção?
– Há algumas influências muito marcantes na minha trajetória literária, e o Guimarães Rosa é a principal delas por duas razões fundamentais. Primeiro, porque temos sentimentos muito semelhantes e que derivam desse nosso ser sertanejo. Guimarães era de Cordisburgo, e eu sou de Curvelo. É exatamente a mesma região, o mesmo serrado, o mesmo sertão. A trajetória de “Grandes Sertão: Veredas” é pelo sertão que conheci desde criança. A segunda é que tenho uma relação diretamente pessoal com a história de Guimarães porque meu bisavô, José Lourenço Viana, o doutor Juca, é personagem dos livros dele. Foi ele quem descobriu que Guimarães, quando garoto, era míope e deu-lhe o primeiro óculos. Em vários livros, Guimarães Rosa se refere a ele como o médico do Curvelo. Em “Miguilim”, que traz a a expressão literária desse drama do menino que não enxerga direito, que vê as coisas borradas e que descobre como é bom enxergar bem depois de ter os óculos, ele usa o nome inteiro do meu avô. O eixo fundamental do livro é Clarice se ver diante da possibilidade da morte concreta, dando-se conta de que a existência é tudo o que vale, isto é, a travessia, nem o começo nem a chegada. Isso é claramente a mensagem de “Grande Sertão: Veredas.”

