Eduardo Moreira temia que o personagem Romeu não se ajustasse a seu corpo após 20 anos. Também tinha dúvidas sobre o retorno à perna-de-pau, recurso cênico que o fez apresentar a peça Um homem é um homem, de Bertolt Brecht, em uma cadeira de rodas, após grave torção do joelho direito. Mas era preciso reencontrar o diretor Gabriel Villela e retomar William Shakespeare. Era preciso voltar a tocar em ‘Romeu e Julieta’, expressão usada por Moreira no blog do grupo. Afinal, além dos 30 anos de história comemorados em 2012, os mineiros têm pela frente o compromisso de representar o Brasil no projeto Globe to Globe, do Shakespeare’s Globe Theater, durante as Olimpíadas de Londres. Segundo o ator, a proposta irá reunir montagens, vindas de várias partes do mundo, dos 37 textos do bardo. Por uma exigência unânime dos funcionários do Globe, a versão de ‘Romeu e Julieta’ teria de ser a do Galpão. As últimas exibições do espetáculo haviam acontecido em 2003.
Entre fevereiro e março, a trupe recebeu Villela em sua sede, em Belo Horizonte, para uma maratona de ensaios. Conduzidos pelas mãos do diretor, fomos pouco a pouco recuperando o espírito da montagem em que a tragédia dos amantes de Verona é contada como uma brincadeira mambembe, adianta Moreira no blog. Por e-mail, ele conversou com a Tribuna e contou detalhes sobre a imersão teatral.
Tribuna – O crítico Alberto Guzik disse, certa vez, que Gabriel Villela voltou à infância para criar a versão do Galpão para Romeu e Julieta. Agora, nessa nova empreitada, que sensações e lembranças o grupo visita?
– As lembranças são muitas. O espetáculo nos acompanhou por quase dez anos da nossa trajetória. Foram dois anos da primeira montagem, com a Wanda Fernandes como Julieta, e oito anos da segunda versão, em que a Fernanda Vianna fazia a protagonista. Romeu e Julieta faz parte da história do Galpão e, em nossas andanças por todos os cantos do país e do mundo, cansamos de ouvir gente mais nova nos dizendo que começou a fazer teatro depois de ter assistido ao grupo e, com muita frequência, à peça de Shakespeare.
– A montagem se destacou, também, pelo movimento dos atores: agilidade, pernas-de-pau, ritmo. Embora continuem na ativa e com vigor, os integrantes do Galpão estão 20 anos mais velhos. Como lidam com essa questão?
– Essa era a grande preocupação, especialmente minha, uma vez que o espetáculo é realmente muito puxado e exige uma destreza física muito exuberante. Depois de duas semanas com o Gabriel, essa questão praticamente desapareceu. O diretor fez ressurgir, nos ensaios, o espírito da poesia de Shakespeare, que é universal e independe da idade. Acho que hoje, provavelmente, façamos com menos vigor, mas com mais consciência.
– A remontagem prioriza o resgate ou o novo?
– Prioriza totalmente o resgate. Ela se propõe a ser uma celebração da poesia de Shakespeare e do teatro, por meio do encontro do Galpão com Gabriel Villela. Não podemos esquecer que essa retomada é uma espécie de aquecimento para o nosso próximo projeto, Os gigantes da montanha, de Luigi Pirandello.
– Como foi o período de imersão com o diretor?
– Fascinante. Encontramos o Gabriel no melhor da sua forma. Um diretor lúcido, exigente e que busca despertar constantemente no ator a poesia. Retomamos exercícios que foram fundamentais para encontrar o espírito de precipitação da peça. Um deles é o da trave, no qual tínhamos que falar os textos nos equilibrando sobre uma trave a quase dois metros do chão. Fizemos também trabalhos vocais com Babaya e (a italiana) Francesca Della Monica, além dos trabalhos de mesa (estudo do texto) com o Gabriel. Tudo isso nos fez retomar a essência do espetáculo.
– Essa é uma das peças brasileiras mais elogiadas e bem-sucedidas. Qual o segredo?
– A celebração da poesia de Shakespeare por meio do crivo da cultura popular brasileira e mineira. Quando estivemos no Globe Theater, em Londres, durante duas semanas, os ingleses vinham até nós, dizendo-se encantados, garantindo que jamais seriam capazes de transgredir tanto uma obra de Shakespeare. Mas que, apesar da transgressão, nossa montagem trazia o espírito do bardo.
– Em tempos de teatro pós-dramático, o Galpão opta por textos clássicos e ainda os transporta para a rua. Seria nadar contra a corrente? O grupo acredita em histórias ou experiências?
– Acho que o teatro padece de uma falta de bons dramaturgos e de boas histórias, o que afasta, em grande parte, o público. Nosso caminho é, de certa maneira, o oposto. Nesse sentido, o encontro com os clássicos é sempre uma possibilidade. Não é uma questão de nadar contra a corrente, mas de buscar uma trilha própria. A nossa está em permanente diálogo com a tradição.
– Quais são os planos para o espetáculo depois de Londres?
– Devemos fazer o Festival Internacional de Teatro Palco & Rua (FIT), de Belo Horizonte, e, provavelmente, uma comemoração dos 30 anos do Galpão na capital mineira, no Rio e em São Paulo. Nessa comemoração, apresentaremos um repertório de quatro espetáculos. Além dos de rua Romeu e Julieta e Till, a saga de um herói torto, retomaremos as duas montagens da nossa viagem a Anton Tchekhov: Tio Vânia e Eclipse.
