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O cinema não existe. O que há de concreto são filmes, cada um com sua personalidade. Apesar de acompanhar a nova geração de produtores, o diretor e roteirista paraibano José Joffily – autor dos aforismos anteriores – não acredita em rótulos. A atualidade, continua ele, abre espaço para tudo, venha o que vier. Após 36 anos de carreira, Joffily ainda se sente um iniciante. Em um mercado tão instável, como não recomeçar do zero a cada projeto? A estabilidade só chegará quando cinema e TV forem para o altar, dispara o cineasta, em entrevista pelo telefone pouco antes de pegar a estrada para Juiz de Fora. Na última quinta, ele esteve na cidade para exibir seu documentário Prova de artista na programação da Calourada 2012 da UFJF. Gratuita, a sessão foi promovida pelo Primeiro Plano Festival de Cinema de Juiz de Fora e Mercocidades e antecedeu um debate com o diretor.

Para Joffily, a relação dos jovens com a telona está cada vez mais rarefeita. As modalidades audiovisuais se multiplicaram, e, diante de tantas formas de acesso a um título, há menos chance de um garoto plugado se aquietar em uma sala escura. O 3D é uma tentativa de sobrevida para o entretenimento cinematográfico, observa o paraibano. Ele ressalta ainda que a técnica sofreu poucas modificações ao longo do tempo. O 3D atual é o mesmo de quando eu tinha 12 anos. Tentando antever o futuro, ele descreve um adolescente de hoje indo ao cinema quando for avô: o espectador imaginário entraria em uma espécie de galeria e assistiria a videoartes de durações variadas.

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A luta está praticamente perdida, mas poucos querem abrir os olhos. Assim enfatiza Joffily, mencionando a aversão dos grandes exibidores à pirataria. Não que ele a estimule. Apenas constato a realidade. A pirataria não atinge os produtores. Segundo o diretor, organizações como a Disney possuem um patrimônio de cinco mil filmes e não estão dispostas a mudar tão facilmente a trajetória convencional do cinema. As propostas independentes, porém, estão aí, ocupando as lacunas deixadas pelas tradicionais.

Sobre as supostas revoluções da contemporaneidade, o cineasta aponta que muitas delas são centenárias. As narrativas não lineares, por exemplo, apontadas pela 15ª Mostra de Tiradentes como uma marca da atual geração, são usadas há tempos, inclusive pela antecessora – e mais experiente – literatura. Neste último caso, já é antigo o embate entre linearidade e fragmentação. Joffily comenta, entretanto, que é natural a escolha dos mais jovens por projetos que contrariem o óbvio. Mas as novidades realmente estreantes, garante ele, não estão na produção. Agitam-se nas variadas possibilidades de distribuição. Em janeiro, o paraibano permitiu downloads gratuitos de Prova de artista no site do filme. O retorno foi fantástico. Mais de oito mil pessoas deram o play, conta ele, salientando o trabalho de divulgação da notícia nas redes sociais. É preciso encontrar maneiras para mostrar seu trabalho.

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Interessado pela questão da vocação, o diretor reconheceu traços de seu ofício na rotina dos músicos que acompanhou para o documentário. No meu caso, ou toco de acordo com a banda, ou dou um jeito de fazer as pessoas ouvirem meu bumbo, metaforiza. O filme também revela as diferenças entre os artistas de orquestra e os solistas. Os primeiros precisam somar, e os segundos, reinventar-se. O cineasta se identifica com a segunda busca, admitindo conviver com o temor – algo natural para qualquer homem da arte.

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Questionado sobre uma possível abertura aos documentários no Brasil, o entrevistado garante que ela se deu em termos de execução. Em 2002, quando ele exibiu O chamado de Deus, sobre vocação religiosa, apenas duas ou três iniciativas do gênero surgiam em paralelo no país. Hoje, o cenário é bem diferente. Ainda assim, o mercado continua fechado. Joffily também capitaneou Vocação do poder (2006), um registro do dia a dia de seis políticos. Em 2012, o diretor lança o longa Mão na luva, comandado ao lado de Roberto Bomtempo.

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