
A um dia do desfile, Zé Kodak posou na Rio Branco, de onde não pretende sair jamais
Muitas eram as dúvidas a respeito do desfile de 40 anos da Banda Daki em 2012. Entretanto, muitos também foram os esforços do General da Banda, Zé Kodak, para manter seu "pelotão" de foliões no tradicional itinerário, que sai do Largo do São Roque (Avenida dos Andradas) e segue pela Avenida Barão do Rio Branco até a Catedral Metropolitana, cujo trecho continua em obra. No final da tarde da última quinta, porém, técnicos da Prefeitura, Polícia Militar, Bombeiros e da empreiteira responsável pelas obras realizaram uma vistoria na avenida. Fragmentos de madeira, ferramentas e outros objetos da obra foram retirados. As determinações, conforme a Prefeitura, têm como objetivos reduzir os impactos negativos no trânsito e no transporte urbano e viabilizar condições adequadas de segurança.
"Não poderia ser em outro lugar. Procurei o prefeito, que deu um jeito. Quem tem que arrumar os problemas da Rio Branco são eles (da Prefeitura), a banda não pode ficar prejudicada", dispara Zé Kodak, antes de reforçar as atrações para o desfile de hoje. "Teremos o primeiro trio muito decorado e com capacidade para 40 pessoas", diz o General, para quem a condição para subir no carro é estar fantasiado. "Ninguém pode entrar de bermuda e chinelo", arremata, confirmando a presença do Rei Momo e da Rainha do Carnaval num segundo trio e a Banda Realce no terceiro.
Com relação ao repertório, Zé Kodak retoma o discurso do bom e velho carnaval das antigas. "Não tem espaço para funk. Nada contra, mas é que não tem nada a ver com a identidade da banda", garante o folião, na tentativa de se cercar de todos os argumentos possíveis para refutar "profecias" de violência ao longo do cortejo. Mesmo sendo este num local que passa por intervenções físicas há cerca de seis meses.
Para o desfile de hoje, ele aguarda mais de 80 mil pessoas. O motivo? "Com toda essa celebração em torno dos 40 anos, acho que vai ter muita gente curiosa que vai acabar desfilando", diz. "Estou feliz com tudo que vem acontecendo, como o diploma que a banda Daki recebeu na Câmara (dos Vereadores) na última quarta, quando acabou acontecendo um carnaval dentro do prédio do Legislativo, com direito a rei, rainha e banda no hall, além dos aplausos e da alegria dos parlamentares e do povo."
Conforme publicado na Tribuna, serão instalados gradis nos cruzamentos da Avenida Rio Branco, além de toda a extensão do Parque Halfeld e do Largo do Riachuelo. Nesses dois pontos, o acesso será controlado pela Polícia Militar. O objetivo, de acordo com a PM, é evitar dispersões, facilitando a abordagem e revista de suspeitos por parte de policiais, cujo efetivo será de 400 homens, além de quatro pontos estratégicos de observação durante o desfile da Banda Daki. O horário de saída, no entanto, foi antecipado em meia hora em relação ao ano passado, e está marcado para as 12h30. Contudo, o início da concentração está mantido para as 10h, e o término, às 16h30, como em 2011, quando, sob forte chuva, oito mil foliões (10% do esperado em 2012) participaram da folia.
Bons motivos para fincar raízes
Uma das únicas manifestações grandes do carnaval de rua que permaneceram em Juiz de Fora é a Banda Daki. O modelo é a Banda de Ipanema, no Rio, cujos fundadores, Freddy Carneiro, Albino Pinheiro e o cartunista Jaguar, por sua vez, vieram se inspirar aqui perto, em Ubá, onde nasceu o gênero "banda de carnaval", na virada dos anos 50. "Eram movimentos que iriam marcar fortemente a cultura carioca nos anos 60 e 70", define, por meio de nota, Luis Carlos Novaes Rosa, um dos criadores do estandarte local. O resultado, na opinião dele, só poderia dar em "um caos sonoro e um desfile de personagens engraçados".
Para o superintendente da Funalfa, Toninho Dutra, a Banda Daki, um dos bens imateriais de Juiz de Fora, integra o calendário oficial do carnaval da cidade e é um reduto da folia democrática, pois abriga foliões anônimos de todos os bairros, classes sociais e gerações. "A Banda Daki tornou-se um dos símbolos do reinado de Momo e tem como marcas a alegria, a irreverência e a animação", diz.
Os caminhos da inspiração
Segundo consta nos registros de Luiz Carlos Novaes Rosa, a primeira troca de opiniões sobre a fundação de uma banda em Juiz de Fora aconteceu numa mesa do Restaurante Brasão em 1972, após uma festa de Réveillon, que acontecera na boate do restaurante. "Ao redor dela, estavam velhos amigos, todos na faixa dos 20 e poucos anos, que ali faziam ponto de encontro em noitadas boêmias", detalha Novaes Rosa, ao citar ainda Walmir Pifano, Márcio Domenici Alves, o Jacaré, os gêmeos Samir e Munir Yazbeck, José Paulo Abdalla, Adair Araújo, Nicolau Helvécio e o único não morador da cidade, o jornalista Ivanir Yazbeck, irmão dos gêmeos, que, em 1964, havia partido para o Rio, com a finalidade de atuar no "Jornal do Brasil".
Aceito o desafio, o projeto da Banda do São Roque se estendera ao Bar do Bolão, de Edmundo Costa, na Rua São João, com a adesão de um bando de foliões, como Ivan Barbosa, Duca Braga, Paulana, Osmany Maninho, os irmãos Cirinho e Leopoldo Tristão, Pauleca e os irmãos César e Márcio Itaboray. "Uma banda daqui da cidade, e não apenas do Largo do São Roque." Esse foi o argumento que fez Luiz Carlos Novaes Rosa concordar com a mudança do nome. Mas com uma condição da qual não abria mão: a data e horário do desfile, e o local da concentração seriam mantidos, às 10h, sábado de carnaval, no Largo, berço onde nasceu, cresceu e multiplicou a célebre Turma do São Roque.
A partir, então, da frase de Maninho – "uma banda daqui" -, Adair Araújo acrescentou o k, aprovado por todos, para dar uma característica mais personalizada ao nome. E assim, a Banda Daki desfilou pela primeira vez, em 1972, reunindo cerca de cem foliões. Todos contribuíram com uma quantia em dinheiro para as despesas com a contratação da orquestra do maestro Tim e a compra de bebidas a serem distribuídas. Devidamente autorizado pelo então Departamento Autônomo de Turismo da prefeitura e pela polícia, o roteiro previa as avenidas dos Andradas, Rio Branco e a Rua Halfeld, com a dispersão na esquina da Batista de Oliveira com a São João.
Novaes Rosa conta que 1978, "por motivos particulares", seria o último desfile da banda sob o seu comando. "Mas havia alguém, que mesmo não tendo participado da fundação, se tornara amigo dos líderes, desde o segundo ano da Banda Daki, se revelando um dos mais entusiasmados na organização e angariação de fundos", ele comenta, sobre o comerciante José Carlos Passos, o Zé Kodak, então proprietário da loja Focus Filmes.
"Eram todos estudantes, e como haviam se formado, partiriam para outras cidades em busca de emprego, deixando-me a incumbência de seguir com a banda", lembra Zé Kodak, a quem fora outorgada a responsabilidade de "não deixar a peteca cair" no ano seguinte e daí em diante… Pois como resumiu Luiz Carlos Novaes Rosa, "os caminhos da inspiração fizeram o gênero ‘banda de carnaval’ se espalhar e fincar raízes aqui, para sempre, com a Banda Daki".

