
Tairone Vale, tal qual Brás Cubas, do livro de Machado de Assis, não quis colocar filhos em um mundo como esse. A decisão do ator e roteirista, que mora em Juiz de Fora desde a infância, ou a não existência de mais uma pessoa, foi calculada, arquitetada e desejada. “Eu não dou conta nem de mim direito”, ele justifica. Essa certeza, que ele diz ter sido uma das mais acertadas de sua vida, já estava plantada desde a infância. Mas, de acordo com ele, a pandemia descortinou algumas máscaras pessoais, e esse desejo (o de não ter filhos) foi um dos que foram aflorados e, por fim, transformou-se em um curta-metragem, “Carta a meu não filho”, ou, como ele prefere dizer, uma performance audiovisual escrita, dirigida, gravada, atuada e editada por ele, com o financiamento da Lei Aldir Blanc de Minas Gerais.
O vídeo de 4 minutos é uma carta direcionada a alguém que sequer existe. Tairone mescla o texto com imagens feitas durante a pandemia, que ficaram guardadas um bom tempo, sem ele saber o motivo disso. As cenas do isolamento só registram o que olho e câmera conseguem alcançar até o portão do lugar onde ele mora, cercado pela natureza. “Do portão para fora o terreno parecia ser inóspito.” Na pandemia, como a maioria dos artistas, ele se viu sem trabalho e teve que inventar moda, como disse. Com a possibilidade do edital, decidiu colocar sua criança interior para fora. Para ele, “todo artista deve ter a criança interior viva. A minha, no caso, é exarcebada”. Junto com isso, decidiu colocar a público suas próprias questões. A ideia da carta surgiu a partir disso.
Tairone acredita que os personagens, todos eles, são construídos a partir do artista mesmo. “Para construir um personagem, você tira de você o que não se encaixa nele. Mas tudo o que você coloca é você, que se expõe cada vez mais, inclusive coisas que você não conhecia sobre você.” Por esse fator, a exposição nunca foi um problema. Ela, apoiada no mergulho interior constante, transformou-se em impulso artístico. O mote de “Carta a meu não filho” são as coisas que estão dentro. “O curta é pessoal, íntimo e genuíno”, ele afirma.
‘Melhor parir de uma vez’
Logo no começo da conversa, conduzida por telefone, o artista disse que é procrastinador. Mas só com coisas que ele faz sozinho. Quando atua em projetos de terceiros, com prazos, ele acaba encenando um outro personagem que segue o estabelecido. Mas, quando começa a escrever, tudo sai de uma vez só, como foi o caso da carta. “Eu sento e escrevo exatamente para não procrastinar. É melhor parir de uma vez.” A explicação para isso é que ele diz escrever sobre coisas que já estavam sendo maturadas por conta própria, o que acaba sendo mais fácil de sair. A certeza de não ter filhos sempre o acompanhou, por isso, esse processo de escrita acabou sendo fluido. Um parto? “Eu não levanto uma bandeira de não ter filhos, eu levanto uma reflexão. Existe uma pressão social muito grande em cima disso. Mas eu mesmo entendi que não sou obrigado a isso, e falo sobre isso com outras pessoas.”
O fazer sozinho não é novidade no seu trabalho. Ele diz que se entende melhor dessa forma. Sem perspectiva no isolamento, Tairone foi encontrando outras possibilidades. “Por mais cômico que eu seja, meus personagens sempre foram dramáticos”, diz. Pensando nisso, ele teve vontade de ter um projeto mais engraçado. Pensou, então, que o que mais fez durante a pandemia foi cozinhar. “Juntando esses pauzinhos, pensei em fazer o ‘Cozinha sem paciência’: um canal de receitas que é bem como eu sou: mal-humorado, com pouca paciência”, ele explica.
Ir fazendo e buscando como
Tairone lança vídeos todas as segundas e quintas-feiras, e ainda teve, mais recentemente, a ideia de fazer lives às sextas. “Eu sou muito sem juízo”, ele argumenta, quando repassa pelas tantas atividades que assumiu nesse período. Desde o início da sua carreira, ele conta que foi emendando uma coisa na outra. Mal dá tempo, por exemplo, de parar para se dedicar a ter inspiração. “Mas eu fui me moldando para isso. Me programei a sempre ter prazos e, independente de qualquer coisa, ter esse período de inspiração.”
O trabalho do ator não se resume à atuação. “Isso acaba sendo o de menos”, acredita Tairone. O momento em que as câmeras estão ligadas, ou a plateia aguarda o início do espetáculo, é um curto período em que o artista se mostra ao público. Mas, além disso, o processo se estende. Tairone diz que não é fácil. Nenhum trabalho é. Mas, ser artista nesse caso, e precisar passar por tudo isso, foi outra escolha acertada – além da de não ter filhos. “Hoje, apesar de já ter feito muita coisa (inclusive ter passado pela redação da Tribuna com repórter de política), não consigo me imaginar sem produzir arte e me conectar com as outras pessoas de maneira lúdica.” Para não desistir, em meio a tantos percalços, ele busca algumas forças, que começa do levantar, passa pelo resistir e termina em tocar o caminho. Por enquanto, ele diz não estar preparado para subir nos palcos, encarar as pessoas olho no olho. Mas ideia, ainda que precisando ser maturada, é o que não falta.
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