E é uma personagem igualmente deslocada e perturbada – porém nada descolada ou cool – a protagonista de “Meu nome era Eileen”, que chegou ao Brasil no final de 2021 também pela Todavia. Lançado originalmente em 2015, o livro levou em 2016 o Hemingway Foundation/PEN Award, que premia o melhor romance de estreia do ano anterior, além de ser indicado ao Man Booker Prize.
A personagem principal da história, contada em primeira pessoa, é Eileen Dunlop. Ela relembra, 50 anos depois, os dias anteriores à fuga de sua terra natal – chamada no livro de Cidadezinha X, na região da Nova Inglaterra -, no Natal de 1964. Ela tinha, então, 24 anos, e morava com o pai, um ex-policial alcoólatra, numa casa quase em ruínas após anos de total desleixo. Durante a semana, a jovem trabalha na parte administrativa de um instituto correcional de adolescentes, onde tem uma paixonite platônica por um dos guardas.
Além disso, Eileen tem sérios problemas para se relacionar com as outras pessoas, passando os dias com uma “máscara mortuária”, como ela mesma diz, para suportar o pai e os colegas de trabalho. Some-se a isso os péssimos hábitos de higiene e alimentação, agravados pelo consumo diário de bebidas alcoólicas. O resultado, além de uma magreza extrema – e pouco atraente pela perspectiva da personagem -, é o consumo constante de laxantes para prisão de ventre. Seu vestuário é todo baseado nas roupas da mãe, morta há alguns anos e que, assim como seu pai, nunca foi capaz de grandes demonstrações de afeto.
Com uma vida desprovida de maiores perspectivas, a protagonista do romance sonha em abandonar a cidade e passa os dias imaginando planos mirabolantes que nunca se tornam realidade. O seu universo de mediocridade é abalado, porém, com a chegada de uma nova funcionária à prisão para jovens: linda, despachada e confiante, Rebecca logo se torna a obsessão de Eileen, e esse relacionamento vai levar a história para um desfecho surpreendente.
Desprezo e baixa autoestima
Ottessa Moshfegh apresenta na sua estreia literária uma surpreendente e brutal história sobre uma jovem amoral, quase niilista, que faz um relato mordaz sobre os efeitos de ter sido criada em um lar totalmente desestruturado e sem amor, que por causa disso se tornou uma jovem apática, com baixíssima autoestima, displicente com a própria saúde e aparência, perdida em delírios de romances, mortes e fugas e que despreza quase todos aos redor.
O que acompanhamos nas 272 páginas do romance são os relatos desses dias modorrentos e frios em sua terra natal, sem nada para fazer além de cuidar do pai, beber, vigiar a casa de sua obsessão amorosa, seus planos de fuga, os pequenos furtos e a monotonia do trabalho, além de opiniões nada lisonjeiras sobre as pessoas ao seu redor e, principalmente, sobre si mesma – além do impacto da chegada de Rebbeca, a ponto de Eileen questionar a própria sexualidade.
Assim como em “Meu ano de descanso e relaxamento”, Ottessa Moshfegh conquista o leitor ao apresentar em seu primeiro romance uma personagem nada convencional em uma história pontuada por um humor às vezes sombrio, mas sempre capaz de surpreender pela sua brutalidade e sinceridade.
E jamais confie em uma pessoa que diz não tomar banho todos os dias.

