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Guilherme Melich lança livro ‘Olhar a(r)mado’

Olhar a(r)mado
MELICH Adalgisa Nery e Murilo Mendes Livro Reproducao
Adalgisa Nery e Murilo Mendes (foto: Divulgação)
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O olhar do artista para outros artistas é caminho aberto para a criação. O ponto de encontro, aliás, o grande motivador, nesse caso? Murilo Mendes. Não só ele como pessoa e poeta, mas o fruto que foi gerado a partir de suas obras: o Museu de Arte Murilo Mendes (MAMM) e seu acervo aberto ao público para visitação e desfrute. Guilherme Melich bebeu disso sendo frequentador ávido do espaço. Lá, alguns retratos chamavam sua atenção, principalmente o que Flávio de Carvalho fez de Murilo e o que Guignard fez de Ismael Nery. O interesse, nesse caso, não era só no autor juiz-forano, mas, sim, no ciclo de artistas que havia em seu entorno, que incluía esses dois. A partir deles, Melich foi pesquisando outros que tinham pintado Murilo. Até que encontrou uma foto de Guignard fazendo tricô e decidiu fazer o que virou o livro que ele lança nesta sexta-feira (17), às 18h, no Paço Municipal: “Olhar a(r)mado”.

O livro reúne os desenhos e as pinturas que Guilherme fez daqueles que retrataram, em telas, Murilo Mendes. Ele, que já tem interesse em pintar pessoas próximas, encarou o desafio de retratar um outro ciclo, do qual ele não fez parte. Seu olhar, por esse interesse, é armado. Ele olha com atenção para as fotos e, de sua maneira, com tintas carregadas que sobressaem às telas, registra mais que uma foto, uma expressão. “Meu trabalho e desafio foi criar expressão, fazer parecer que eu estava naquele momento. Apesar de que uma foto diz muito, mas deixa de dizer também. É apenas um recorte. O exercício foi fazer um retrato que tivesse intimidade. A expressão mais forte que a pintura. Pesar na tinta.” O peso das telas já é característico em seu trabalho. Encontrar essa forma de fazer foi um processo. “O que me atrai é esse um pouco mais de carga. Eu quero fazer uma pintura que me dê água na boca, que instiga.”

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O começo é no papel e no lápis. Melich conta que a maioria de suas obras começa pelo desenho. É onde ele diz se conectar mais para explorar. Com isso, ele criou as telas que ocuparam o MAMM em uma exposição de mesmo nome do livro. O trabalho de pensar “Olhar a(r)mado” e os seis meses de produção foram o que deu forças e foco em 2019. Como o trabalho exigia expressividade e, claro, tinta, ele decidiu fazer quadros menores. “No começo, em uma sede de fazer. O vigor vem forte. Com o tempo, aquilo foi me desgastando, fiquei muito tempo só pensando nisso. Lembro de sair o último, que foi até do Murilo Mendes, e ficar aliviado.” A vontade do livro veio logo depois do fim da exposição, que durou cerca de um mês e meio. Ele queria fazer perdurar o trabalho.

Experiência tátil do livro

Mas, ao mesmo tempo, a vontade era que o livro fosse muito mais que um simples catálogo, com apenas as fotos das pinturas e do desenho. “Olhar a(r)mado” seria, também, uma “experiência tátil”. “Eu queria que as pessoas conseguissem sentir a porosidade do livro, a costura.” A capa, na verdade, é como se fosse uma caixa. Dentro dela, já sinalizando a página 3, está o livro, com costuras aparentes, em papel que, de acordo com o responsável pela impressão, foi feito para livros de poesia, não de imagens. Mas era esse mesmo que Melich queria: que não tivesse tanto brilho, fosse mais fosco, para que as texturas continuassem puras ali, sem tanta interferência. O mais próximo possível do real.

Tiras as fotos das telas foi um trabalho à parte. Ele relembra que, desde que começou a pintar profissionalmente, há mais ou menos dez anos, tem dificuldade em achar a melhor maneira de fotografar. Melich conta que já tentou de tudo: dentro e fora de estúdio, com luz e sem luz. A solução foi encontrada fora do seu ateliê, contra a luz, no pôr do sol. Isso foi o suficiente para dar a carga que ele queria. Em algumas páginas duplas, um close da textura dá um respiro entre as fotos dos pintores. “O livro acabou ficando bem vivo”, acredita.

Alberto da Veiga Guignard (foto: Divulgação)

“Amor de retratar alguém”

Pensando e vivendo sob um grande encontro de artistas diferentes entre si, mas que têm Murilo Mendes como elo, no final do livro, Melich propõe um novo encontro. Ele chamou amigos que tinham ido à exposição para escrever, de maneira livre, sobre “Olhar a(r)mado”, a partir daquilo que os tenha atraído andando pelo MAMM. Assinam textos Afonso Rodrigeus, Mauro Morais, Frederico Lopes, Luiz Fernando Medeiros, entre outros. É comum que, nos relatos, histórias pessoais apareçam, sobretudo no que diz respeito à constante visita de Melich ao museu e às características impressas em outras telas, presentes nessas também. É pelo tema do livro, por cada amigo presente nele, e cada pessoa que o fez acontecer que, constantemente, ele diz ter tido “sorte pelo grande encontro”. O próprio nome, além de ser uma referência a um poema de Murilo Mendes e a forma como ele olha o mundo, é também sobre “o amor de retratar alguém”: a motivação de tudo isso.

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Melich não acha que sua função é ser didático e ensinar alguma coisa a partir de suas obras. Mas, nesse trabalho em específico, ele acredita que faz isso. Mesmo sendo nome de museu e de lei de incentivo à cultura em Juiz de Fora, pouco se aprofunda na história de Murilo Mendes, na opinião do artista. Ele, então, apresenta não só o poeta juiz-forano, mas resgata a história dos pintores que o registraram em diferentes momentos. No livro “Olhar a(r)mado”, os rostos dos amigos de Melich que escrevem também estão registrados e impressos em desenhos. Eles também, agora, fazem parte desse grande círculo. Mas entre eles e os pintores está Melich, ele também pintou Murilo Mendes. “Eu tinha que estar ali.” Ele quase separa as duas partes do livro, de imagens e textos, mas, de certa forma, foi quem uniu e possibilitou o encontro geracional e artístico.

Flávio de Carvalho (foto: Divulgação)
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