
Cena do espetáculo “Araci: quando abraço de mãe não cura” (Divulgação)
Quando um homem contou para a mãe ser homossexual, ela lhe disse que a partir dali, então, não lavaria mais suas roupas e nem deixaria que as peças do filho se misturassem com as do resto da família. Outra história: Um homem, quando criança, sonhava em brincar com bonecas, mas era terminantemente proibido. Ele, assim, pegava os frascos de perfume da mãe e fingia que eram bonecas, para que ninguém desconfiasse. Um dia, a mãe descobriu, e o garoto fez uma cerimônia para enterrar, frasco por frasco de vidro, na terra. Ambas as cenas integram, ainda que em vestígios, o espetáculo “Araci: quando abraço de mãe não cura”. “Ainda temos um resíduo dessa cena (a primeira narrativa) original, numa referência, quando um ator se banha. Já a segunda história, trabalhamos em cena com a ideia da transparência, investigando o que está escondido e o que está revelado”, explica o coordenador do grupo Araci, que se apresenta neste sábado em Juiz de Fora, integrando a programação do Dobra Cultural, evento que começa nesta quarta, reunindo apresentações artísticas e debates sobre questões de gênero e minorias.
Fruto de um projeto de pesquisa da Universidade Federal de São João del Rey, o espetáculo “Araci: quando abraço de mãe não cura” parte de relatos autobiográficos para a composição de uma dramaturgia que propõe sensibilizar através da experiência visual. “Não necessariamente parte de um depoimento da própria pessoa, mas do que impactou esses atores. Não fazemos isso de forma realista. Nosso trabalho está muito mais próximo da dança do que de um teatro do real. Existe uma dramaturgia, mas ela não tem o objetivo de contar sobre uma pessoa, mas de criar uma cena que toque as pessoas”, pontua Tibaji, professor do curso de teatro da instituição de ensino.
Mutável desde que iniciaram as pesquisas para formatação das cenas, a peça se aproveita de debates posteriores às apresentações para afinar as leituras que propõem segundo a ordem estabelecida pelo professor. “Através desses encontros, identificamos leituras do espetáculo, e, daí, pensamos em como favorecer certos olhares. Alguns espectadores falam que não tratamos apenas do preconceito contra o público LGBT, mas de como a sociedade nos impõe formas de viver. E o tema da diversidade de gênero trata mesmo das vidas das pessoas de maneira geral”, comenta Tibaji.
Desdobramentos urgentes
“Ainda tem coisas para serem ditas, revistas”, assevera o professor. “Fizemos a peça num momento importante, quando a discussão está na pauta nacional e internacional. O assunto ainda não foi ultrapassado, e quanto mais visibilidade tiver, maior será o número de pessoas contra”, aposta, demonstrando o ponto de contato com o evento que reforça a ideia de que a arte pode (e deve) ser instrumento político da sociedade. “A arte é agente transformador. Nossa proposta é integrar todas as questões das minorias, porque não adianta só falar de gays, só de negros, ou só de mulheres. É preciso juntar para que a reflexão se torne maior e se desdobre de maneira a abranger mais pessoas”, defende o idealizador e produtor do evento Kennedy Vasconcelos Júnior, destacando o caráter independente da mostra, que acontece tanto na Zona Norte (em Benfica), quanto na Zona Sul (Praça do Bairro São Mateus), e, ainda, no Centro.
“A aliança das minorias é o que nos daria força. O problema é, justamente, sempre ter alguém se sentindo no direito de discriminar, até mesmo dentro das minorias. É preciso mostrar que somos uma maioria juntos. Lógico que em alguns momentos é preciso reivindicar especificidades, mas a luta pode ser feita em união”, pontua a militante Indianara Alves Siqueira, coordenadora da Ong TransRevolução. Paranaense, radicada no Rio de Janeiro, a transexual participa de debate na próxima quinta, contando um pouco da sua trajetória ativista, iniciada há mais de 20 anos, quando saiu de casa. “Foi o caminho da prevenção da Aids que me ligou ao ativismo”, diz. “Mas nada é intencional. A maneira como vivo acaba resultando em militância. Decidi romper amarras, e essa liberdade que exigi para mim acabou gerando identificações. Não vivo para a militância. Vivo, apenas, e essa forma se torna ativismo”, completa.
Segundo Indianara, a cena LGBT avançou nos últimos anos, ganhando visibilidade, mas poucos direitos estão garantidos em lei, o que lhe demanda sempre hastear a bandeira. “Já saímos do anonimato, hoje existimos para a sociedade, mas a luta continua. Os movimentos organizados acabaram estagnando, mas o ativismo pela internet está pressionando bastante. Saímos dos formatos de ONGs e ganhamos as redes sociais”, expõe. De acordo com Kennedy, o Dobra Cultural segue o mesmo percurso. Shows (MC Xuxú é a atração de abertura), artes visuais, teatro, circo, cinema, esporte, baladas (na Trend ClubHouse) e outras expressões ajudam a criar novas “dobras” para uma discussão que invade todas as áreas da vida social. “Tudo o que submete a dobra se altera e gera outras formas”, reforça o idealizador do evento.

