
Baseada em suas experiências, a jornalista da TV Globo relata o dia a dia de Mocinha e Momô em ‘Gentil como a gente’. Crédito Leo aversa
Os jogos Olímpicos haviam acabado naquela semana. Fernanda Gentil ainda estava se acostumando com a volta à rotina, quando conversou com o “Sala de leitura”. “Me desculpe pelo desencontro, porque estou aqui correndo atrás do tempo perdido nas Olimpíadas. Por isso, não consegui falar com vocês antes”, diz ela, sempre sem firulas. Seu jeito despojado, aliás, é o ingrediente que a faz ter o passe cada vez mais valorizado na TV desde que ganhou o título de Musa da Copa do Mundo de 2014. “Acho que o telejornalismo esportivo, em geral, está indo para esse lado, mais informal, conversado, leve, e é o que tento fazer. Não me imagino falando de uma forma engessada, quadrada. Costumo dizer que gosto de fazer televisão do jeito que gosto de ver televisão. Gosto de ver aquela pessoa que se aproxima de mim, que é gente como a gente, é humana, tem defeitos e qualidades.”
Já que é sem rebuscamento que a mãe do Lucas (afilhado que ela cria desde que a mãe dele morreu) e do Gabriel gosta de se expressar, é assim que ela conversa com o leitor de “Gentil como a gente” (Intrínseca, 288 páginas), livro em que ela traz, de maneira leve e bem-humorada, o dia a dia de Mocinha e Momô. Ela é um tanto neurótica, mas não é para menos. Ele é para lá de avoado.
A jornalista começou a registrar suas experiências no blog “Gentil Braga”, em 2013, depois que foi morar com o ex-marido, o empresário Matheus Braga. Mas o projeto cresceu tanto que a editora fez a proposta de levá-lo para o papel. A obra traz o conteúdo do site adaptado, com identidade visual diferente, e o QR code que direciona o leitor para um link com vídeos exclusivos que completam os episódios. A agora escritora pegou gosto pelo negócio e já planeja novas publicações. “Meu leitor é só na faixa entre 0 e 99 anos, de homem a mulher, de preto a branco, gordo a magro, passando por altos e baixos, quem gosta de pizza, chocolate, fandangos. Enfim, é para quem gosta de se divertir.”
Tribuna – O leitor acompanha uma história de amor que cativa. De repente, nas últimas páginas, essa história chega ao fim. Mesmo sabendo que se trata de um romance de verdade, o público recebeu bem esse final?
Fernanda Gentil – Acho que, primeiro, a decisão de colocar a separação no livro foi mais do que natural. Estou, mal ou bem, contando relatos da minha vida que todo mundo sabe que tinha no blog e que de fato aconteceram. Não seria honesto, justo, se eu resolvesse omitir isso. Essa foi uma decisão que não tive nem como pensar duas vezes antes de tomá-la. Com certeza, eu escreveria isso, assim como o restante do livro, da minha maneira, de forma real, verdadeira, suave, leve e, até certo ponto, romântica. Não quis tirar de ninguém a ideia de casal, objetivo de criar uma família, porque fui muito feliz enquanto durou, sou muito feliz por ter conseguido ter uma família, ter tido um filho com o Matheus. O fato de falar da separação no livro foi justamente para continuar sendo fiel e leal aos leitores e ao meu público. Não é nenhum tabu, não tenho que esconder. Acho que isso acontece em várias famílias, mas a mensagem que fica é que devemos acreditar no amor durante cada minuto que ele durar, porque ele é incrível. E quando acabar, como aconteceu comigo, se acabar, que a gente seja madura e corajosa o suficiente para reconhecer isso e nos dar uma nova chance. Foi o que a gente fez.
– Você estourou na Copa das confederações e fez o quadro “Mamãe Gentil. “Teve a vida muito exposta na mídia. Como lidar com essa exposição toda?
– São ossos do ofício, trabalho com televisão e sei que essa curiosidade vai acontecer. E eu sempre coloquei isso de maneira muito verdadeira, nunca vesti um personagem. Se tivesse vestido, talvez nem teria me separado, nem teria publicado as dificuldades que tive na vida pessoal, como amamentar, por exemplo. Não tem como fugir disso. Continuo vivendo minha vida do jeito que acho que tem que viver, de acordo com meus princípios, meus valores, sem passar por cima de ninguém. Sempre com o único objetivo de ser feliz, e eu vou retratar do jeito que eu estiver vivendo e o que eu achar que devo retratar. Fui muito feliz com o Matheus, fiquei enormemente realizada por ter um filho biológico, já tinha um de coração. Não me arrependo de nada.
– Como é ser jornalista mulher em um meio majoritariamente masculino como o esporte?
– É delicioso, enriquecedor. Acho que as visões do homem e da mulher não se eliminam, muito pelo contrário, se completam. Não à toa agora as mulheres estão cada vez mais ocupando seus espaços, estão sendo bem-vindas. Só temos a ganhar, e a gente precisa ter humildade porque, muitas vezes, o homem sabe muito mais que a gente porque, culturalmente, no Brasil, é assim. O homem vai desde cedo aos estádios, acompanha mais futebol. É isto que eu procuro fazer sempre, tirar dúvidas, reconhecer, querer aprender com eles. Sempre fui muito bem recebida. São visões que se completam, e quem tem a ganhar é o telespectador, que na verdade, é a pessoa para quem a gente faz nosso trabalho.
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