
Neste domingo (17), comemora-se o Dia Nacional do Patrimônio Histórico e Cultural. A data serve para provocar um olhar mais cuidadoso sobre o que compõe uma cidade e a torna única, além de fazer com que a população reflita sobre quais aspectos da sua vida cotidiana gostaria que permanecessem nos dias de amanhã e quais são os passados que continuam habitando o imaginário compartilhado. Seja em prédios públicos ou privados, no que é histórico ou que recupera uma memória silenciada, é através das chamadas “preexistências” que os especialistas entendem que também podemos nos reconhecer.
Em Juiz de Fora, são 211 bens culturais e históricos espalhados pela cidade — dentre eles, verdadeiros cartões-postais, como o Cine-Theatro Central e o Museu Mariano Procópio, mas também aqueles menos conhecidos e que não fazem parte da paisagem, mas sim da vida cultural, como é o caso do batuque afro-brasileiro de Nelson Silva e do pão alemão. A partir desta matéria, a Tribuna inicia a série Nosso Patrimônio, falando sobre os bens que ajudam a contar a história da cidade, abordando também os desafios para sua preservação.
A importância do patrimônio histórico e cultural obedece a diferentes valores. Para que um espaço físico seja assim considerado, é preciso obedecer a uma série de justificativas formais para o reconhecimento, que passam também por muitas avaliações técnicas e pesquisas de profissionais da área, conforme explicam a professora de Arquitetura da Uniacademia, Mila Andreola, e a gerente do Departamento de Memória e Patrimônio Cultural da Fundação Alfredo Ferreira Lage (Funalfa), Renata Morais.
A partir disso, os conselhos responsáveis decidem o quê exatamente, naquele bem, deve ser tombado, e também quais são as diretrizes para a preservação. “Esses são espaços de rememoração onde a sociedade vai se conectar com seu passado. Isso vai acontecer tanto no nível individual, quanto no nível coletivo. Hoje, temos pessoas que têm referências de práticas culturais e sociais por conta do espaço, como é o caso da Casa d’Itália”, explica Renata.
Referentemente à Juiz de Fora, é notável que grande parte do conjunto arquitetônico reconhecido como patrimônio da cidade remete à história da industrialização no século 19 e a uma aposta em um desenvolvimento cultural ligado aos centros urbanos. É o que explica Mila, sobre essa cidade que também é exemplo da pluralidade mineira: “A forma pela qual Juiz de Fora foi formada, a partir do café e da industrialização, tem uma história riquíssima. Além dos vários povos que constituíram esta cidade, como indígenas, negros e imigrantes, que trouxeram uma diversidade grande de manifestações culturais. Por isso, acho que não podia ser diferente essa grande quantidade de bens tombados”, justifica.
Apesar de todo esse olhar técnico, como observa a professora da UFJF e jornalista Christina Musse, esses patrimônios também vão ganhando, com um tempo, um valor ligado à memória da cidade. “Me parece que o patrimônio funciona como um grande álbum de família, nos quais gostamos de reconhecer quais eram os traços que uma bisavó ou uma tataravó tinham e que nós também temos. (…) Com essas histórias, conseguimos abastecer não só nosso coração, nossa alma, mas nossos imaginários e nossos sonhos”, diz ela. A arquiteta também entende assim esse processo e ressalta que esses espaços marcam a cidade “como se fossem palimpsestos de várias camadas de tempo que também orientam o futuro”, define Mila.
Envolvimento da população
Para que o patrimônio seja visto como uma parte viva da cidade, no entanto, é necessário que a população consiga incorporá-lo em sua vida. Isso, como observa Renata, já deve acontecer pela própria proposição dos espaços a serem preservados, mas também através de um olhar que se transforma com o tempo para uma cidade que também vai mudando. “Quando estamos falando de bens tombados em Juiz de Fora, a maior parte deles é permeado por uma narrativa histórica. Mas quando construímos um centro de memória negra, estamos colocando em evidência um patrimônio que foi silenciado e demolido durante muito tempo.”
No entanto, é perceptível o quanto essa situação, por vezes, foge de ser perto da ideal. “Temos uma situação ideal e uma que, muitas vezes, é a real. Quando um órgão tomba um patrimônio, muitas vezes, a própria instituição responsável já começa a programar atividades e visitas. (…) Não adianta tombar ou registrar e esquecer aquilo como um bibelô que vai empoeirar na estante. É preciso de ações para que a população se apropriem desses espaços”, destaca Mila.
Ela considera que o Cine-Theatro Central e todas as suas propostas de ocupação ao longo do ano seriam um exemplo positivo disso, enquanto as ruínas do Palacete Fellet, por exemplo, não teve incorporação da população e, para muitos vizinhos do local, se tornou um problema.
Equilibrar modernidade e tradição
Reconhecer um patrimônio não só incentiva a noção de identidade dos moradores mas, como Andreola e Morais destacam, também pode ser uma ferramenta muito importante para contar as histórias da cidade e incentivar o turismo. Para que isso ocorra, no entanto, a professora destaca que é preciso equilibrar as demandas do mercado imobiliário por inovação e a necessidade de preservação do que é histórico. É o mesmo em que acredita Christina, que entende que cabe aos órgãos públicos estarem mais atentos a essa regulamentação.
“A cidade que eu quero contempla muito mais esses projetos de meio ambiente, sustentabilidade, patrimônio, história e memória, do que uma cidade que eu olhe para ela e não a reconheça em sua singularidade. Como se fosse uma lugar que poderia existir em qualquer lugar do mundo ou ser um grande shopping center. (…) O que eu acho rico e lindo é a diversidade”, afirma Musse.
