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Barba, cabelo, bigode e a cidade

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Quando Walter Augusto de Assis saiu de sua pequena Catas Altas da Noruega, então distrito de Conselheiro Lafaiete, e chegou a Juiz de Fora, "o Bom Pastor era pasto". "Só havia quatro prédios. Era a época dos bondes. Vi a cidade crescer", diz ele, com sua voz baixa e seus cabelos grisalhos a esconder os 83 anos, 64 deles dedicados aos cortes de cabelo. Acometido por um verme, Walter se mudou para fazer o tratamento, e nesse período começou a trabalhar no Salão São Paulo, na Avenida Rio Branco, enquanto concluía os estudos, tendo como uma de suas professoras a escritora Cleonice Rainho. Certo de que havia fincado raízes, ele resolveu abrir seu próprio negócio, com quatro cadeiras. A pequena porta na rua Batista de Oliveira, 623, oculta o ar retrô, com dez cadeiras azuis, espelhos ovalados, sofás redondos e um inusitado bar interno – é raro os que tomam whisky, preferem Coca-cola, conta o profissional. A 25 degraus da rua, o salão pouco a pouco foi ganhando a confiança dos maridos e caindo no gosto das mulheres, num tempo em que não era comum ver fios de cabelos de uma mesma família no chão.

Um dos personagens de "Navalha do tempo – Barbearias tradicionais no centro histórico de Juiz de Fora", livro que a artista visual Valéria Faria acaba de lançar, Walter se orgulha não apenas por ter atendido bispos locais e tingido os cabelos de Itamar Franco, quando este resolveu se candidatar ao senado. Ao mostrar um pequeno e lúdico assento em forma de carro e contar de sua didática com as crianças, muitas delas hoje bisnetas de antigos clientes, o barbeiro aponta para o pioneirismo de sua proposta de atendimento. "Naquela época, precisava de uma melhora na cidade. A gente amarrava a criança na cadeira, com um corrião, para cortar o cabelo. Isso não pode, eu falei. Fui a Belo Horizonte, ao Rio de Janeiro e a São Paulo pesquisar salões de criança. Lá eu comprei cadeirinhas, mas depois vi que precisava ser um carrinho", recorda.

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A inusitada mobília integra a publicação financiada com recursos da Lei Murilo Mendes e também compõe a exposição "Barbearias", em cartaz no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas, na programação do "Foto 14". O olhar sensível e atento de Valéria encontra vestígios de uma urbe elegante e histórica, dos tempos das singularidades, do personalizado, das empreitadas entre o afeto e o comércio. "Ainda que inconscientemente, eles guardam frascos vazios, navalhas que não são mais usadas. Isso mostra que esses objetos continuam contando nossas histórias. O que seria de nós se todos jogassem tudo fora?", indaga Valéria.

 

 

Acúmulo de narrativas

Não. Valéria Faria não tem parentes barbeiros. Seu vínculo com esses homens que guardam fragmentos do passado da cidade está no fato de também acumular o que já não é. Seu pai era assim, um guardador de coisas. "Sempre tive a preocupação estética, mas também a patrimonial. Quando saio para passear, o trabalho começa ali e não para. Do mesmo jeito que me emociona, quando percebo esses objetos com valores estéticos e de memória, existe a intenção de tocar o outro", diz. "Como não posso ter, fotografo", brinca. Para ela, a arte também é o lugar do tempo, do espaço. "Na minha arte, em todos os momentos, tenho a memória como uma das palavras-chave do meu pensamento, do meu raciocínio", comenta. Ao revisitar, a artista lança um olhar sobre o presente. "Essas barbearias estão espremidinhas nesse comércio banalizado. Tudo hoje é muito banal, as coisas perderam a essência. Meu movimento é de resgatar o que ainda existe."

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"Fotografei muito a Loja da Seda e logo depois o seu Jamir (antigo dono) morreu. Tenho algumas fotos da O Pirralho, do Hotel São Luiz, Hotel Majestic, o Renascença é lindo. Tenho muitas fotos perdidas desses universos particulares. Numa dessas andanças, vi a Barbearia Praça da Estação e, por acaso, fiz uma foto dela. Dali a uma semana, quando voltei para fazer outras fotos, ela já não existia mais. Entrei na padaria do lado e perguntei. Eles já estavam arrancando o piso de azulejo hidráulico. Ali tive o estalo de me concentrar", lembra. O tal lugar aparece no livro, então, no formato que é visto hoje: sob o nome Salão Renascença, três jovens que alugaram o espaço preservaram apenas duas cadeiras antigas, mas modificaram o piso e pintaram as paredes de um verde quase fluorescente.

 

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Os tempos do manual

A poucos metros da finada Barbearia Praça da Estação, Virgílio de Oliveira Santos, 81 anos de vida e 66 de profissão, lembra dos anos em que o barulho em frente à Barbearia Democrata, herdada de seu pai, que a fundou em 1912, era bem menor com os bondes que fronteavam o lugar. Sócio de Virgílio, José Cirenes de Salles, 67, há quatro décadas trabalhando no salão, lembra que não apenas o bonde, mas tudo era menos tecnológico. "Antigamente era tudo manual, os cortes não eram tão sofisticados quanto hoje", diz, tentando explicar o famoso moicano e comparando-o ao tradicional corte militar – "antes rebaixavam em cima, hoje levantam tudo para o alto, o tal do Cristiano Ronaldo".

Enquanto o Democrata possui, segundo Virgílio, 80% da freguesia composta por operários, José Maria de Almeida se recorda dos tempos em que trabalhou numa das casas mais tradicionais da cidade, o Salão Gaburri, na Galeria Pio X, que deu seu último suspiro em 1955 e era considerado o ponto de encontro da elite local. Aos 77 anos, 59 deles cortando cabelos, Zé Maria continuou vendo a elite ao se instalar numa loja própria. Em 1965, o amigo Almada o ajudou a alugar uma loja na galeria Ali Halfeld, ao lado do Cine-Theatro Central – "O Almada era um dos cabeleireiros que mais trabalharam em Juiz de Fora, ele cortava uma média de 40 cabelos por dia". Dali ele viu o teatro dos grandes festivais de música, a época em que o Central recebia filmes, o período em que o lugar ficou fechado, e sua retomada nos anos 1990.

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Zé Maria, Walter, José Cirenes, Virgílio e muitos outros personagens encontrados por Valéria Faria viram uma cidade e agora veem outra. Ainda assim, não se cansaram. Resistentes, agora se eternizam em uma obra fotográfica – "Não tenho o refinamento da fotografia, utilizo-a como uma das linguagens dentre as muitas pelas quais me aproprio. São fotografias da arte, mas tem esse caráter do documento, do registro", destaca Valéria. Pergunto a Virgílio se pretende parar. "Enquanto der, enquanto Deus permitir, a gente vai tocando. Quando não aguentar mais, para. Já estou chegando ao fim, 81 anos, o que posso esperar?"

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