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Outras ideias com José Luiz Duarte

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Mauro Morais

A cada ano, mais de 1,25 milhão de pessoas morrem vítimas de acidentes de trânsito, segundo as estimativas mais recentes da Organização Mundial de Saúde, que aponta, ainda, que a cada 100 mil crianças e adolescentes brasileiros, mais de oito são mortos no trânsito anualmente. De acordo com os últimos levantamentos feitos pelo SUS, as mortes no trânsito cresceram no país cerca de 2%. Em Minas Gerais, entre 2008 e 2015, um motociclista sofre um acidente fatal a cada dois dias, considerando dados do Ministério da Saúde, que também confirma, de janeiro a maio deste ano, 458 pessoas internadas em Juiz de Fora, 11 delas mortas, todas vitimadas por um trânsito violento, animalesco e cruel.

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Como Duarte, trabalhando oito horas na direção de um ônibus, se mantém gentil, estendendo a mão a cada passageiro que cruza a porta e sobe as escadas? “Meus pais sempre me ensinaram a ser humilde e educado. Na época de roça, se eu não cumprimentasse quem chegasse na minha casa, quando a visita ia embora, o coro comia. Me sinto bem dando ‘Bom dia!’ e cumprimentando as pessoas. Sei cada passageiro que foi hoje e os que faltaram. Quando alguns não vão, sinto falta”, responde José Luiz Duarte, um senhor de 63 anos, alinhado nas roupas que veste e no trato, responsável pelas manhãs de um dos carros da linha 524, do Bairro São Mateus.

‘Tudo o que queria’

A gentileza de Duarte mora num sonho. “Vim de Coronel Pacheco para Juiz de Fora porque um rapaz falou que estavam precisando de trocadores numa empresa que tinha ganhado algumas linhas. Sair da vida sofrida na roça para trabalhar de trocador era um sonho. Eu era louco para ser motorista, e aquele era o começo. Na época, fomos uns cinco meninos. A empresa chamava Auto Viação Alvorada. Eram os ônibus mais bonitos que passaram pela cidade. Fiquei apaixonado com aquilo. Treinamos por uma semana, e, quando acabou, o dono da empresa reuniu a gente e disse que infelizmente ia ter que nos dispensar, porque a licitação da linha tinha sido cancelada. Aquilo foi um punhal no coração, fiquei muito triste. Pensei bastante, não queria voltar para a roça e pedi para o rapaz: ‘O senhor permite que eu durma aqui na garagem, só mais essa noite, porque amanhã vou tentar arrumar um outro serviço? Estou tão feliz aqui’. Os outros todos foram embora, só eu fiquei. Na manhã seguinte, eu dormindo, alguém bateu no meu ombro: ‘Você está pronto para trabalhar? Dá conta? Porque faltou um cobrador’. Chorei muito na época. Era tudo o que eu queria.”

‘Fui longe pra burro’

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A gentileza de Duarte nasceu em Dona Eusébia. Com apenas 7 anos, ele já trabalhava na fazenda onde nasceu, na pequena cidade da Zona da Mata com menos de dez mil habitantes. “A plantação que mais dominava a gente era o fumo, e eu plantava, colhia, pindobava, fiava, enrolava, fazia o processo todo do cigarro. Lutei assim até os 13 anos”, conta ele, um dos 13 filhos de um casal que nunca saiu da roça. “Dos 13 aos 15, fui morar em Coronel Pacheco, trabalhando em horta. Saía a pé, de manhã cedo, levando um balaio grande nas costas, cheio de marmitas para o pessoal”, recorda-se o homem que chegou a Juiz de Fora, tornou-se cobrador e, passados três anos, já empregado em uma linha de viagens, conquistou a carteira de motorista. Há 43 anos convive, dia após dia, com o volante do ônibus. “Fui até no Paraguai levar sacoleiras. Longe pra burro. Até enjoa de tanto dirigir”, lembra, rindo. Aposentado há 20 anos, o marido de Silvana é pai de Juliana e Matheus e morador do Bairro Nossa Senhora das Graças. Aos 65 anos, quer parar por definitivo. Mas pode não conseguir. A paixão fala mais alto.

‘Sou felicíssimo’

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A gentileza de Duarte supera o calendário. Transpõe o tempo, que é outro para ele que acorda às 3h30, pega um ônibus às 4h, chega à garagem às 5h10 e trabalha até 13h10. Às 14h, senta-se para almoçar. E depois dorme. “Quando comecei a trabalhar, pegava às 6h e ia até as 20h, com uma hora só de almoço. Era bem pesado. E não tinha ônibus hidráulico como tem hoje, com direção e embreagem levinhos. Naquela época, tinha que dar três ou quatro bombadas com o pedal para parar o ônibus. Só que não tinha trânsito”, lembra. Era tudo mais calmo. “Éramos os donos da Avenida Rio Branco. Como cobrador, ainda peguei os bondes. Como motorista, comecei pesando 58 quilos e tinha quase que ficar em pé para virar o volante, de tanta força que fazia”, ri. “Cada vez que pego um ônibus novo, melhor, penso: ‘Agora que estou com esse filezão na mão, não quero parar mais'”, diz o homem cuja gentileza não é passageira e não se reduz à lotação. “Pedi para colocar o temporizador porque nesses sinais que tinha a tripla fiscalização eles colocaram radar. Com ônibus, que é pesado, não dá para parar fácil. O carro é só plantar o pé no freio. A gente carrega passageiro em pé, cadeirante e não dá para frear de uma hora para a outra, porque põe todo mundo em risco. Como os motoristas estavam reclamando muito, com multas chegando, resolvi procurar o sindicato e fazer o abaixo-assinado. Teve colega que foi multado duas vezes num mesmo dia e num mesmo lugar, com um desconto de R$ 300 no holerite, o que faz uma falta danada”, conta o responsável por criar uma comissão, com parceiros de outras empresas, que coletou mais de 1.300 assinaturas para a instalação de temporizadores em três pontos da Avenida Rio Branco, próximo ao Mergulhão, no cruzamento com a Rua Benjamin Constant e perto da ponte do Manoel Honório. A proposta foi acolhida pela Prefeitura. “Me doí pelos colegas. Foi minha forma de ajudar”, sorri Duarte, um homem aparentemente feliz. Você é feliz, Duarte? “Felicíssimo. Não tenho tudo o que desejo, queria dar mais conforto para minha família, gostaria de ter mais recursos e de ter estudado, mas sou feliz com o que tenho.”

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