
No ano em que completa 40 anos da sua primeira publicação, Edimilson de Almeida Pereira segue com novos projetos que, além de revisitar toda a obra construída até aqui, continuam investigando seus temas de interesse. Com a movimentação humana e os contrastes em diferentes tipos de situação como a espinha dorsal de sua obra, ele lança “Porte Étoile” pela editora Cobalto, um livro que faz parte da série “o que danças”, e que reconfigura o conceito de “portais estelares” já utilizado por ele antes — desta vez, em um livro-móbile, que pode ser montado e remontado pelo leitor. A obra parte de um termo ligado à comunidade dos Dogons e explora a conexão com tradições orientais e até juiz-foranas, em uma perspectiva de cidade e de contemporaneidade. “O livro faz um grande passeio pelo que é uma grande cidade, e vai revelando várias situações cotidianas, como o abismo, a solidão, a violência, o encontro e o desencontro. Vai desde temas políticos até temas existenciais, com uma linguagem bastante cifrada, é importante dizer”, conta o autor sobre a nova obra.
O lançamento é o nono livro da série, que começou em “ô lapassi & outros ritmos de ouvido”, em 1995, sendo seguido de “o velho cose e macera” (2002), “Veludo azul “(2002), “Sociedade Lira Eletrônica Black Maria” (2002), “iteques” (2003), “Signo cimarrón “(2005), “homeless”(2010) e mais recentemente “A morte também aprecia o jazz” (2023). A ideia de olhar para a dança como um elemento central partiu da pesquisa de um historiador baiano, que em seus textos etnográficos sobre a região hoje entendida como África Subsaariana percebeu que para várias comunidades o ato de dançar era tão importante quanto um cumprimento ou saber como a pessoa está. “As pessoas se reconheciam pelas danças que cada grupo realizava. (…) Venho construindo vários livros em que a ideia de movimento é central. Seja o movimento do corpo, da história ou do pensamento. A questão do mover-se e transformar-se é o eixo dessa série”, explica, sobre a percepção de que a importância desse elemento estava longe de ser algo isolado no mundo. No total, a série terá dez obras.
Já o título “Porte Étoile” recupera uma expressão já usada em obras anteriores e funciona como um desdobramento dos poemas que haviam aparecido antes em “Homeless” e “O som vertebrado”. No primeiro caso, “Porte Étoile” é um poema que aparece ligado diretamente ao grupo cultural Dogon, presente no Mali, na África Ocidental, que tem uma relação muito importante com a leitura dos céus — e que fazem uma interpretação profunda dos elementos estrelares mesmo sem aparelhos ou instrumentos tecnológicos. “Além do conhecimento profundo desse ambiente estrelar, os dogons têm uma prática cultural que consiste em esculpir nas portas narrativas, muitas delas ligadas a essa relação com o ambiente estrelar. Depois se descobriu que eles faziam isso não só nas portas das casas, mas em qualquer superfície de madeira. É como se estivessem escrevendo um livro desde sempre ou traçando a história da comunidade através dessas esculturas de madeira”, explica o escritor, sobre a forma por meio da qual, no livro de 2010, buscou discutir a relação entre o sagrado dos dogons com as dúvidas que o ser humano tem em relação à existência. Já em “O som vertebrado”, quando retoma o tema e coloca o poema “sob nova direção”, ele traz a perspectiva de indagação sobre a permanência do sagrado no mundo contemporâneo e quem é que tem acesso a ele.
O “Porte Étoile” em formato de livro, desta vez, é um desdobramento dessas duas seções anteriores, do sagrado inicial e da indagação filosófica, mas com um olhar especial sobre essa construção no contexto da cidade. “A cidade é um grande portal, e o livro é todo centrado na questão urbana. (…) A estrutura do livro segue a tradição dos dogons de esculpir sobre uma superfície, é como se fosse um portal com várias esculturas e questões culturais.” Como ele vai tratando desses diferentes temas e culturas, vai criando um mosaico em que aparecem atritos e formas de aproximação, como ocorre no caso do poema de epílogo do escritor japonês Takuboku Ishikawa, uma discreta presença de Juiz de Fora e até a capa, que traz uma imagem que parece sintetizar essa efervescência em movimento, a partir da foto tirada em Cuba pelo belorizontino Guilherme Bergamini. “É como se eu fosse criando um mosaico para mostrar que, às vezes, independentemente da herança cultural, os seres humanos têm preocupações comuns.” A mediadora de tudo isso é a palavra escrita — que aparece, nesse sentido, como construtora de um mapa dessas relações, mas também como elemento imperfeito e incompleto.
Constelação de escrita e um livro em movimento
Por todo esse trabalho dedicado com a linguagem, ele entende também que a obra é um “livro-móbile”, que remete a uma figura que pode ser montada e remontada, contendo em si também um movimento. Por isso, ela também parte de um hermetismo e de imagens desorientadoras para provocar esse efeito, como é o caso de “drones semiráridos”, “orca de ouro ensacada” ou a figura do escaravelho cruzando a porta. “Acho que tem várias formas de construir um poema, seja tentando fazer com que se aproxime da realidade e fazendo com que dialogue de forma objetiva, ou com uma linguagem um pouco mais enigmática e que sirva como espécie de pista para criar uma acessibilidade para que os leitores possam criar interpretações. O livro segue mais a segunda perspectiva, partindo de pistas para a gente entender que se trata de um mundo contemporâneo e fragmentado”, afirma.
Cabe, então, também aos leitores deixarem suas impressões, em uma obra que parte de perspectivas que se espelham e também se tensionam ou se contrastam (inclusive por meio da forma). É um livro que, como ele explica, também trabalha com a ideia de polos opostos: do claro e do escuro, do movimento e da inércia, da ausência e da presença. “Essas diferenças vão sendo tensionadas para dizer que o mundo não é nem uma coisa nem outra só. Nisso, há uma certa crítica ao tempo em que nós vivemos, que aparentemente temos uma rapidez enorme de transformações e uma dificuldade enorme de reter as coisas e os valores. Mas só quando olhamos mais de perto vemos que é um conjunto de repetições. Fazemos coisas iguais ou semelhantes o tempo inteiro”, reflete, e pensa como isso também pode estar relacionado a outras marcas do nosso tempo, como o burnout e até mesmo o tédio. “Busco confundir as margens e misturar os valores, gerar atritos onde aparentemente não tem e aposta numa linguagem intencionalmente nonsense, para dizer que nem tudo precisa ter um sentido aparente ou ser pragmático.”
A permanência de alguns temas em sua obra, como um todo, assim como esse exercício da linguagem, fazem parte de um projeto maior e bastante notável: Edimilson é um dos autores da poesia brasileira também mais produtivos, que teve dezenas de obras publicadas ao longo da carreira. Para ele, isso faz parte de um projeto maior, quase uma “constelação da escrita”, que atua em várias frentes: a literatura infantil, o ensaio sobre culturas populares da perspectiva antropológica, os textos de ficção (que são os romances) e a escrita de poesia para o chamado leitor adulto. E que funcionam por alguns eixos: “Como usar a linguagem para ter uma indagação contínua dos seres humanos diante das perplexidades que temos na vida, que vêm da guerra, da violência e da desigualdade social; mas também, em uma perspectiva estética, da liberdade de experimentação, de sonhar, e da construção de utopias. Da mesma forma, como usar a linguagem como um elemento experimental, como aquilo que é óbvio através de uma perspectiva diferente”.
Por essa vontade, ele entende que seus 40 anos de trabalho sempre contêm elementos para os quais pode voltar ou olhar em ângulos diferentes. A edição de “Poesia e agora (1985-2017)”, que reúne a poética de 28 livros do autor e já está em prelo pela Mazza Edições de Belo Horizonte, cumpre justamente o papel de reunir essa trajetória para os leitores. “Para que as pessoas possam render e reencontrar um sentido diferente. Mas tenho alguns pressupostos que norteiam a minha escrita: um deles, por exemplo, é achar que nenhum tema abordado se esgota em um livro, poema ou texto em prosa.”
Ampliação de um horizonte imaginário
A relação com o trabalho também é um dos temas de “Porte Étoile”, e não à toa — essa é uma das reflexões que ele entende como mais importantes do nosso século. Aparece, por exemplo, a partir da repetição de uma fotocópia, mas também no poema “Moto-contínuo”: “Queria desmontar esse trabalho mecanizado e repetitivo. Há várias referências de destruição da ideia do homem máquina e da máquina autoprodutiva. É onde a linguagem da poesia entra não como resposta ou solução de realidade alguma, mas como ampliação de um horizonte imaginário.” Também é esse imaginário foco de suas preocupações, pois o entende ameaçado. “Nossa última fronteira de liberdade ainda é o nosso imaginário. Percebemos que as big techs estão entrando nesse cenário, nos oferecendo sonhos, projetos, imagens, imaginando por nós.”
Isso faz o autor refletir, também, sobre o próprio papel de um poema e de um escritor, no mundo em que vemos hoje. Para ele, escrever não é uma solução; mas um caminho. “Um poema não vai parar a guerra ou um livro vai deter o desmatamento, um romance não vai deter a questão agrária. Objetivamente, a poesia e arte não têm esse potencial de força para agir como instrumento de alteração dos rumos da história, mas diante dessa própria fragilidade da obra de arte, da literatura e da poesia, está a nossa condição de ir deixando ao longo da história testemunhos, rastros e pistas daquilo que temos realizado.”
Mesmo nas piores condições sociais e existenciais, Edimilson entende que o ser humano sempre tem lutado para manter uma consciência diante do que é o horror, assim como também fizeram aqueles que vieram antes dele e de todos nós. “No dia que perdemos até isso, qualquer chance de uma sociedade humana razoavelmente equilibrada vai desaparecer. É um esforço que não é pessoal, mas de uma coletividade que ao longo da história tenta nos dizer isso. Nós criamos a destruição, mas também podemos criar a reflexão sobre aquilo que podemos ser. É como apostar em um jogo perdido, mas pior é não apostar, que aí a derrota já seria absoluta. Eu me recuso a isso, e acho que quem trabalha com arte, de alguma maneira, também”, conclui.

