A tela se desdobra em diferentes dimensões na pintura de Pedro Guedes. Em cartaz no auditório do Hospital de Olhos Dr. Ricardo Guimarães, em Belo Horizonte, uma exposição com 60 telas do artista destaca obras que desafiam o espaço bidimensional da tela e revelam articulações entre o clássico e a modernidade. O artista se apropria de imagens consagradas para reinventá-las em uma linguagem consonante com o mundo contemporâneo, em referências a Franz Post, Albert Eckhout, Raphael, Édouard Manet, Diego Velásquez, entre outros cânones. Dá para viajar pela história inteira, sem perder a identidade, resume Guedes.
Ao reproduzir elementos dos clássicos, o pintor dá vazão a seu apuro técnico, que permite uma identificação ágil de personagens e cenários de telas famosas. É o caso de A grande odalisca, de Dominique Ingres, que protagoniza a tela O prato principal, ou do trio de Almoço na relva, de Manet, na tela A banhista. As composições originais, entretanto, são apenas o ponto inicial para diálogos com a própria natureza física da obra de arte. O Baco de Velásques, por exemplo, flerta com uma garrafa de vinho disposta do lado de fora da tela em Bacco. Tento selecionar nas imagens clássicas o que o artista pensou no momento da criação. Depois, busco elementos da modernidade que possam estar associados a essa ideia, sem fugir do original, relata Guedes em relação a seu processo de criação.
Sobreposição de planos
O jogo de referências vai além em Diálogo na biblioteca – Escola de Atenas, em que as figuras de Raphael extrapolam o espaço convencional e se distribuem sobre livros de uma escrivaninha. Além de ter inserido um homem de terno e gravata na composição, o autor acrescentou uma folha de papel impresso em computador, uma nota explícita sobre a releitura que está em curso. Processo semelhante acontece em Recital de Vermeer, em que A tocadora de viola, do pintor holandês, surge como uma tela (ou uma imagem refletida no espelho) ao fundo da sala música pintada pelo mesmo artista em Mulher tocando a espineta. Crio uma nova dimensão a partir de uma sobreposição de planos. Assim, fujo do óbvio, explicita o artista.
As peças em exibição integram o acervo da Errol Flynn Galeria de Arte, de Belo Horizonte, que responde pela curadoria da mostra. Algumas das pinturas selecionadas pela equipe da galeria costumam figurar entre as cerca de cem obras que integram a exposição permanente da instituição. A reação de alguns visitantes da mostra chamou a atenção de Pedro Guedes. As pessoas ficam atentas aos detalhes e passam muito tempo diante das telas. Gosto de segurar um espectador na frente da tela, ressalta.
PEDRO GUEDES
Segunda a sexta, do meio-dia às 19h, sábado, das 10h às 14h. Até 30 de junho
Hospital de Olhos Dr. Ricardo Guimarães
(Rua da Passagem 220 – Vila da Serra – Belo Horizonte)
