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Nota por nota

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Entre uma e outra ação banal, surge o ritmo do cotidiano. Os pés inquietos debaixo da mesa, o lápis que se agita na superfície do caderno, a caixinha de fósforo entre dedos animados. Acostumado com o som da vida, o homem se rende à música. Por quatro décadas, ela fez parte de toda infância sendo ensinada nas escolas. Foi extinta em 1972, por Jarbas Passarinho, então ministro da Educação e Cultura. Desde agosto de 2008, a ideia voltou a se aproximar da realidade com a aprovação da lei nº 11.769, que retomou a obrigatoriedade da música na educação básica. As instituições têm até agosto de 2011 para se adaptar às regras: ajustar a grade curricular, comprar materiais, contratar professores especializados. Segundo a educadora musical da Secretaria de Educação Helen Barra, tal arte oferece aos alunos elementos essenciais para a formação como indivíduos. "Além disso, desenvolve habilidades específicas. Um exemplo é a percepção auditiva."

Os colégios municipais locais, de acordo com Helen, devem estender o processo de adequação até o fim do ano. "As prefeituras do país estão fazendo o possível, mas os detalhes são muitos." Em 2007, a educadora desenvolveu o projeto "Juiz de Fora em canto" – tirado do papel somente agora – com o intuito de formar professores de qualquer disciplina. "Não queremos substituir o especialista, apenas oferecer informações básicas." Mesmo sem ligação com a lei, a proposta chegará à sala de aula. Com auxílio de apostila e CD, os mestres poderão incluir o repertório de compositores locais no cotidiano da escola. Conforme afirma Helen, a intenção é despertar o senso crítico e apresentar a cultura da cidade. "Ainda que os estudantes não a assumam, passam a ter respeito por ela." No final do ano, cerca de 300 jovens farão uma apresentação com canções de Francisco Itaboray, Geraldo Pereira e Mamão.

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Exemplo positivo

Nos bairros Cidade Jardim e Jardim de Alá, a música já aparece entre as disciplinas da grade curricular do primeiro e segundo períodos e do primeiro ano. De acordo com a professora Sandra Braga, que possui graduação em piano e licenciatura em música, o trabalho estimula o aprendizado das crianças. "Por meio de bandinhas e partituras abstratas (feita de símbolos), desenvolvemos ritmo, atenção e concentração", conta Sandra, acrescentando que costuma aproveitar as facilidades dos pequenos. "Eles adoram cantar e têm facilidade para guardar letra."

Satisfeita com os resultados, a professora lamenta a falta de continuidade da proposta ao longo das séries. A partir do momento em que se adequarem à lei, entretanto, as instituições deverão disponibilizar o ensino até o nono ano. Conforme depoimento da conselheira da Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação (CNE ), Clélia Craveiro, para o portal "Educar para crescer", esse detalhe e o número de aulas, obrigatoriamente ministradas por profissionais especialistas em música, serão definidos ainda em 2011.

Habilidades adquiridas

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Na abertura do livro "Música na escola", do alemão Hans Günther Bastian, o professor da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) Sérgio Figueiredo assegura que estudantes submetidos a experiências musicais alcançam níveis mais elevados de sociabilização, tornam-se mais seguros e menos agressivos. O músico local Estevão Teixeira, criador do método Teclado Didático para o Ensino da Música (Tedem) concorda. Como explica ele, a arte do som desperta regiões esquecidas do cérebro. "Na Grécia antiga, ensinava-se matemática, filosofia e música. Ela aprimora o raciocínio e a coordenação motora." Na opinião de Teixeira, professor do Conservatório Estadual de Música Haidée França Americano, se a criança aprende primeiro a falar para depois escrever, também é mais fácil descobrir os sons e só em seguida partir para o papel. "O Tedem propõe o lúdico e a prática." Para o músico, essa deve ser uma preocupação das instituições adaptadas à lei nº 11.769. "Defendo o jogo musical para qualquer idade."

Segundo Helen Barra, o esquema de ensino por partituras e notas tornou-se ultrapassado. "Acredito que a música precisa ser sentida." A professora opta pela percussão, por estar atrelada à cultura brasileira, utilizando também sons do corpo e instrumentos fabricados pelos alunos. "Além disso, prefiro trabalhar com a turma junta, aproveitando as diferenças do grupo." Helen atesta ainda que a ideia de dom caiu por terra. Teixeira completa: "a música é feita de habilidades adquiridas". De acordo com ele, o método Tedem – garantido por lei municipal sancionada e regulamentada em 2006 – está parado após projeto piloto na Escola Municipal Áurea Bicalho, do Linhares. "Estou aguardando alguma definição."

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Para se comunicar

A educadora musical Carla Mazzei acredita que existam poucos produtos artísticos disponíveis aos professores. Por conta disso, ao lado do marido Alexandre Laguardia, ela desenvolveu o CD "Vamos ver que bicho dá!", um CD com poemas infantis de Knorr patrocinado pela Lei Murilo Mendes. "O som, o habitat e a dinâmica dos animais permitem várias possibilidades." Para Carla, tudo pode ser trabalhado por meio da música, inclusive a questão da identidade. "Importante é respeitar os valores musicais de cada indivíduo." Segundo a educadora, a arte musical não se restringe ao domínio de um instrumento. "É uma forma de comunicação", arremata. 

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