A pílula do Doutor Caramujo fez a boneca de pano Emília falar pelos cotovelos. Espevitada, ela se define em uma das histórias de seu criador: "sou a ‘independência ou morte’". Monteiro Lobato, no livro "A barca de Gleyre", conta que a tagarela nasceu, em 1920, como um brinquedo mudo e feio, "desses que nas quitandas do interior custavam 200 réis". Mas Emília evoluiu, tanto que o escritor passou a dizer não mais dominá-la. Ao longo do tempo, a companheira de Narizinho já foi delineada de diversas formas. Chegou à contemporaneidade, assim como outras figuras e temas de Lobato. Não à toa, a data de aniversário do paulista, comemorada nesta segunda, foi escolhida como Dia Nacional do Livro Infantil. Uma versão em desenho animado do "Sítio do Picapau Amarelo", produzida pela Rede Globo em parceria com a produtora Mixer e prometida para 2012, traz à tona reflexões sobre como a obra lobatiana é vista nos dias de hoje.
Segundo Maria Teresa Gonçalves Pereira, professora de língua portuguesa da Uerj, as publicações infantis do autor revolucionaram o gênero. "Emília é uma personagem vanguardista. O alter ego de Lobato", afirma, referindo-se à irreverência e ao tom crítico da boneca. Controverso e radical em alguns aspectos, conforme completa a acadêmica, o escritor criou situações e tipos essencialmente brasileiros.
Cláudia Paixão Coutinho, professora de literatura do Centro de Ensino Superior (CES), destaca a riqueza cultural encontrada nas narrativas que rondam o famoso sítio. "Lobato não diminui os universos de conhecimento pelo fato de dialogar com crianças, não faz concessões a elas." Mesmo assim, como acrescenta o doutor em letras pela USP Eduardo de Assis Duarte, os textos do paulista sempre revelaram seu talento para compor espaços de fantasia tão ao gosto infantil.
Ainda que folclore e mitologia grega interessem a leitores de todos os tempos, um mundo em que meninos e meninas já nascem com as mãos sobre o teclado do computador exige mediação para criações do século passado. "Quem diz que Monteiro Lobato está ultrapassado, entretanto, não sabe abordá-lo", assegura Maria Teresa, que pesquisou o autor em seu mestrado e pós-doutorado. De acordo com ela, diante de descobertas e modificações vistas na atualidade, os pequenos necessitam da ajuda de mestres e pais para se aprofundar na imaginação lobatiana.
Na opinião de Cláudia, a escola, em geral, aproveita mal as possibilidades oferecidas por Emília e companhia. "Como a TV atua na divulgação da obra, poderia agir como estímulo à leitura se houvesse um trabalho específico." Por outro lado, Duarte aponta que cabe aos professores discutir certas questões polêmicas em sala de aula. "Determinados estereótipos racistas, se eram aceitos há 80 anos como não ofensivos, hoje não são mais", analisa, citando expressões encontradas na produção de Lobato, como "tição" e "beiçudo". Para Maria Teresa, porém, essencial é não retirar tais referências de seus contextos históricos. Duarte, professor da UFMG, analisa ainda que a recepção sempre depende da idade e da maturidade de cada público. "Uma criança de 7 anos pobre não tem o mesmo repertório de informações de uma criança de 12 anos rica."
Dom Quixote, Peter Pan e outros personagens clássicos aparecem entre as citações da simpática Dona Benta. Dessa maneira, segundo Maria Teresa Pereira, Lobato também abre as portas para outros caminhos literários. Aproveitando tal perfil, a Biblioteca Municipal Murilo Mendes programou a III Semana Monteiro Lobato, encerrada no sábado. De acordo com o coordenador da instituição, Vanderlei Tomaz, o evento esmiuçou o legado do ator de "Reinações de Narizinho" e contribuiu para a formação de novos leitores.
Mesmo que nunca tenha aberto um livro do paulista, é provável que toda criança conheça pelo menos uma figura moradora do sítio do Picapau Amarelo. Ou, até mesmo, saiba de cor a canção composta por Gilberto Gil para a abertura da série global de 1977. A passagem da literatura para outros meios, como a TV, o cinema e a música, justifica tal hipótese.
Cláudia Coutinho – que considera válida a transposição, ainda que ela não promova a leitura – comenta que a discussão sobre a adaptação de linguagens acontece desde a primeira versão televisiva, realizada pela TV Tupi em 1952. "São estradas diferentes", pondera ela, complementando que a geração para a qual dá aulas viu, mas não leu Lobato. "Uma coisa, porém, é certa. Quem só teve contato pela TV, na realidade, não conhece o escritor." Para Maria Teresa, imprescindível é que qualquer releitura não se restrinja aos personagens e não perca a essência da obra. "Nem toda passagem admite, por exemplo, que a Emília use um celular", finaliza.
