De repente os cenários sumiram, o tempo do filme foi reduzido, a exposição recebeu menos quadros, as luzes do show se apagaram. Cenas assim refletem algo muito comum na vida dos artistas e produtores culturais: a necessidade de apertar o orçamento. Não que isso seja encarado com naturalidade, pois quebrar as asas da imaginação não costuma ser apreciado por quem trabalha com arte. Mas nem sempre usar a tesoura significa ter que podar a criatividade.
Diretor do Grupo Divulgação, José Luiz Ribeiro acredita que trabalhar com pouco às vezes favorece o ato criativo. Não posso dizer que seja bom, porque é preciso mais trabalho e disposição, mas estimula a busca por alternativas. Infelizmente, a cultura não está entre as prioridades do nosso país, então a relação da arte com o dinheiro passa por essa eterna adaptação.
Experiente na submissão de projetos a editais de cultura, a cantora Isabella Ladeira, do Lúdica Música!, concorda com José Luiz e acredita que a criatividade muitas vezes é o que resta quando o dinheiro é escasso. Se um edital ou uma lei de incentivo não aprovam o valor total orçado pelo proponente, é preciso rebolar. Outro problema, segundo Isabella, costuma ocorrer quando o total é aprovado pelo setor público, mas o artista não consegue captar todo o montante junto a empresas. Quando isso ocorre, o cineasta Aleques Eiterer faz coro com a vocalista, defendendo que a chave é pensar em parcerias, permutas, orçar o que é imprescindível, cortando os detalhes, e ser muito criativo para não deixar transparecer por onde a tesoura passou.
Como solução para esse tipo de impasse, Isabella conta que a banda já reduziu o valor do cachê da equipe, o número de cidades em turnês, de componentes e de horas no estúdio. Tudo porque não era possível diminuir o número de discos. Acho que em qualquer setor a alternativa mais simples para não perder qualidade é cortar a quantidade de produtos, no caso de CDs ou livros, e de apresentações. Outra opção é fazer para menos gente. Mas quando há vínculo com algum edital nem sempre é permitido reduzir a tiragem de um disco, o público ou os shows. Para a cantora, deveria haver mais flexibilidade nesse sentido, para tornar os trabalhos mais viáveis.
Dilema entre imaginar e fazer
Na edição do Primeiro Plano Festival de Cinema de Juiz de Fora e Mercocidades realizada no ano passado, o coordenador-geral do evento, Aleques Eiterer, precisou reunir a equipe para, literalmente, cortar. Em 2009 e 2010, tivemos o orçamento reduzido em 50% em relação a 2008 e passamos por muita dificuldade para manter o festival. De acordo com ele, a opção para redimensionar o acontecimento sem interferir diretamente na qualidade foi oferecer menos atividades e reduzir o público. Realizamos menos oficinas, usamos menos locais, e as pessoas que trabalharam receberam menos.
Apesar de o Grupo Divulgação não fazer uso de editais e leis de incentivo para as montagens teatrais, o diretor José Luiz Ribeiro acredita que a dificuldade costuma ser ainda maior nesses casos. É o caminho que escolhemos, mas é árduo. Acaba que a relação entre recurso e arte depende sempre da astúcia do artista e da generosidade do público. Tudo isso causa interferência no dilema entre o imaginar e o fazer.
José Luiz lembra que a maior dificuldade enfrentada foi em 1990, quando todo o dinheiro do grupo estava na poupança e houve o sequestro pelo Governo Collor. Estávamos trabalhando na peça ‘Dom Chicote Mula Manca’, e de repente não tínhamos mais nada. Foi preciso recorrer à reciclagem, aproveitar o que havia, simplificar cenário, cortar divulgação e produzir em cima da pobreza. Acabou sendo um grande aprendizado.
Responsável pelo marketing da Norcal Studios, de São Paulo, Ana Duffey explica que a necessidade de economizar varia de acordo com o tipo de projeto, mas ocorre tanto em trabalhos pequenos quanto em grandes produções. Já optamos por reduzir número de faixas e lançar um EP em vez de produzir 12 músicas. Agora estou na produção executiva de um documentário longa-metragem e tive que cortar duas das quatro viagens internacionais previstas, além de diminuir diárias de entrevistas. Só assim conseguimos encaixar o orçamento num patamar viável e, ao mesmo tempo, preservar a estrutura do filme.
No entanto, Aleques Eiterer pondera que, enquanto em alguns setores é possível fazer reduções financeiras e ter um resultado muito semelhante do pensado inicialmente, no cinema é mais complicado. O fator criativo do filme está muito relacionado ao recurso. Diminuir o orçamento afeta diretamente a qualidade, porque há dependência da tecnologia, que é cara. Produtora executiva da Zencrane Filmes, do Paraná, Cláudia da Natividade ressalta que isso ocorre, principalmente, quando as reduções são feitas depois da produção iniciada. Exceto na indústria norte-americana, toda a produção de filmes trabalha quase sempre com recursos apertados. Então, quando cortes são necessários, o ideal é que sejam feitos na fase de planejamento, que seria antes do fechamento do roteiro de filmagem. Caso contrário, ela alerta que o risco é maior e a ideia da obra pode não funcionar mais.
