
Grupo produziu animação em 3D para ilustrar o tema da letra de ‘Reptilianos’, em que alienígenas usam a TV para alienar e subjugar a população
Televisão é aquele eletrodoméstico para o qual muito (pseudo) intelectual gosta de torcer o nariz, chamando a tal “caixinha mágica” de alienante, ópio do povo e coisas do gênero. E se ela fosse realmente assim? É o que mostra a banda Subefeito no videoclipe “Reptilianos”, lançado no último dia 10 e que já pode ser conferido no YouTube. A produção é a última etapa do projeto Coletânea Audiovisual CCBM, que conta com o apoio da Lei Murilo Mendes e já havia lançado os vídeos de Cris Carcará (“O blues do cangaço”), MC Oldi (“Baile mórbido”) e Holokausto Social (“Holokausto social”), e tem como diferencial o fato de ter sido criado por meio de animação computadorizada.
A iniciativa, porém, não se resumiu a produzir os vídeos com o orçamento obtido por meio da lei. Segundo um dos idealizadores do projeto, Davi Ferreira (vocalista e guitarrista do Subefeito), metade do valor obtido foi utilizado para a aquisição do sistema de iluminação doado para o teatro do CCBM, que foi utilizado como estúdio de cinema para a gravação dos produtos audiovisuais.
Voltando ao videoclipe, de acordo com Davi, serve como metáfora para a influência da TV no comportamento das pessoas. “É uma invasão alienígena surreal. Os reptilianos vêm de uma galáxia distante até a Terra, e depois que conseguem controlar as emissoras de televisão, usam os sinais de transmissão para enviar seus tentáculos e sugar a mente das pessoas. É uma crítica à cultura de massa, mas não acreditamos num controle onipotente da TV. É uma influência que afeta a subjetividade das pessoas sem que elas percebam”, acredita.
Conta de luz nas alturas
Transformar a ideia em realidade, porém, não foi fácil. Foi, na verdade, difícil, muito difícil mesmo, pelo que contou o integrante do Subefeito. “A animação foi uma produção bem diferente em relação às outras, principalmente no aspecto técnico. Resolvemos fazer uma animação em 3D mesmo sem conhecermos totalmente a técnica, e não encontramos ninguém na cidade que a dominasse. O Alexi Corvin, que me ajudou no vídeo, tem como especialidade apenas o que diz respeito à modelagem em 3D, o que já é muito”, explica. “Foi preciso fazer uma pesquisa bem longa, de aproximadamente seis meses, pois eu tinha alguma noção do 3D mas tive que reaprender tudo.”
A pesquisa teve início em março de 2015, com a modelagem em 3D sendo entregue no meio do ano. Nesse período, Davi costumava chegar em casa às 22h e ficar entre duas e três horas apenas na pesquisa e desenvolvimento do videoclipe. A gravação com a banda foi realizada em novembro, no CCBM, mas já em setembro foi iniciada a etapa mais complicada de todo o processo: a renderização. “Foi um processo demorado e complicado. Tanto a parte de hardware e software foram complicados. Eu tinha apenas dois computadores para fazer a renderização, que é um processo que precisa de várias máquinas potentes, e o software demandava muito conhecimento.”
Os dois computadores também sofreram, segundo Davi, ficando ligados de forma ininterrupta por quatro meses, entre setembro do ano passado e janeiro de 2016, tudo para fazer a renderização do vídeo. Apenas um frame (lembrando que um segundo de vídeo tem 24 frames) poderia levar até quatro horas no processo. “Os takes mais pesados ficaram para o último mês, e fiquei quatro semanas sem sequer tocar nos computadores para que tudo ficasse pronto”, relembra Davi, que viu a conta de luz dar um salto no período – justamente dentro da época em que as contas já haviam passado por aumentos expressivos.
A conta não saiu cara apenas na luz. “No final, metade do valor da realização do videoclipe saiu dos bolsos da banda. Mas tudo tem seu lado bom, pois vejo o trabalho como um investimento para divulgar o Subefeito, e também aprendi a utilizar uma tecnologia complicada e que pode render outros projetos. Foi uma das aventuras mais legais que já passei, senti uma satisfação muito grande quando assisti ao vídeo pronto. E o pessoal da banda gostou muito, ficou até surpreso com o resultado. O mesmo se deu com as primeiras pessoas que assistiram”, comemora Davi, que acrescenta que tanto o vídeo de “Reptilianos” quanto os álbuns do grupo podem ser baixados gratuitamente no site da banda.
Além de seguir divulgando “Reptilianos” – que integra o mais recente álbum do grupo, “Dizer o que tem que ser dito” – o Subefeito já tem no cronograma a produção de mais dois videoclipes, um para cada semestre. “Queremos lançar ‘A hora da merenda’ no segundo semestre, e ‘Dizer o que tem que ser dito’ no início de 2017′, encerra Davi.

