A inspiração é basicamente a vida e o estado das coisas, além do silêncio. Precisa-se desenvolver o exercício do olhar, que consiste em observar, absorver, considerar. Depois, deixar o conhecimento sedimentar-se no armazém da consciência. Com o tempo, a memória fica ao dispor da intuição, reflete o compositor e escritor Kadu Mauad, que escolheu Juiz de Fora para dar vida a suas criações. É uma terra de oportunidades, afirma o músico. Um celeiro, uma estufa, uma seara de artistas que precisam e devem ser valorizados, sobretudo, remunerados. A maior questão que temos é a falta de uma política de formação de plateia séria. Precisamos ter um olhar para a periferia e toda a sua potencialidade. O centro tem sua indústria que já se basta, avalia.
Desde o ano passado, Kadu trabalha em cima de Avatar – disco lançado com incentivo da Lei Murilo Mendes. Além de compor para alguns parceiros, também leva o repertório de histórias para livrarias e espaços culturais com o grupo Contaê, ao lado de Carolina Tagliati e Cintia Brugiolo. A autonomia de um auxilia no crescimento de todos. Necessariamente o lema dos Três Mosqueteiros: ‘Um por todos e todos por um’. Natural de São João Nepomuceno e formado em letras pelo CES, Kadu não vive de sua arte. Mas sem ela eu não viveria, constata. Intitulando-se uma pessoa de carne e osso, igual a todas, prefere dar um passo de cada vez e respirar zilhões de vezes a fazer planos para o futuro. Contudo, entrega que há projetos em análise. Igual a chover no molhado, quando seus escritos não ocupam todo o seu tempo, adivinha o que faz para se divertir? Ler, ler e reler. Caminhar pelas ruas, viajar para outras cidades, ficar perto de quem eu amo. Visitar livrarias, dar abraços… me alimentar bem, dormir o suficiente…
Livro – Invenção de Orfeu, de Jorge de Lima
Tem coisas de virar os olhinhos esse texto dele. Tipo assim: ‘há sempre um copo de mar/ para um homem navegar”
Filme – Persépolis, de Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud
Um longa francês, adaptado da história em quadrinhos de Marjane Satrapi. Uma autobiografia que narra as desventuras de Marjane sobrevindas ao regime xiita do Irã que se instalou após a revolução. É lindo
Escritor – H.P. Lovecraft
Ele foi um dos muitos escritores reconhecidos após a morte. A tensão que ele consegue é de arrepiar qualquer curiosidade. Um artífice do horror e do terror. De perto, ninguém é normal
Compositor – Tom Zé
O artista plástico da música. Irreverência, coragem, sabedoria, ridículo, tudo poder-se-ia resumir-se em uma única pessoa?
Música – Todas que me tocam! Mas vamos a uma: ‘Sonata para piano nº21 opus 53’, de Ludwig Van Beethoven. Todos os quatro movimentos. Outro subversivo da forma. Tirou a sonata do seu lugar comum, questionou e reinventou a música
CD – Rage Against The Machine, de 1992
Só recentemente descobri essa joia da contestação. Muita raiva e swing indo de encontro a tudo aquilo que parece normal mas prejudica bilhões. Se fôssemos articulados, eu queria ver essa politicagem dar uma de besta para cima da gente. ‘O povo sabe o que quer, mas o povo também quer o que não sabe!’, Gilberto Gil.
DVD – Tropicália
Para mim, foi uma repaginada em tudo que já sabia mas ainda não compreendia. Vale a pena. Imagens inéditas do exílio de Gil e Caetano em Londres, com baldeação em Portugal, ora pois!
Peça de teatro
Till, a saga de um herói torto
Vi a montagem do Grupo Galpão em plena praça pública. Essa epopeia do anti-herói serviu de espelho. Consegui me ver e ver a face do povo que dá o seu jeitinho para sobreviver em meio a tanta miséria subvencionada pela ganância e o desprezo aos direitos mais básicos do cidadão que ‘vota’
Blog – www.tiagorattes.blogspot.com, de Thiago Rattes
Por que é ele e por que é eu. Tem coisa que não se explica, né?! Mentira: o Tiago é dos meus. O cara do exercício que experimenta e vai fundo, sem freio na língua, muito menos papas. Aliás, as papilas gustativas são as pupilas da língua?
