A senhora de olhar melancólico e chapéu cuidadosamente preso aos cabelos poderia ter sido fotografada em preto-e-branco ou saído de uma filmagem dos anos 1920. Na realidade, ela estampa a pele da tatuadora Gisa Little Cherry e se enquadra no gênero "old school", que se apropria de linhas bem definidas e cores primárias. Essencialmente retrô, o gênero ancorou no Brasil na década de 1960, com a chegada do dinamarquês Lucky Tattoo ao porto de Santos. O lado underground e marginalizado – repleto de âncoras, andorinhas (temas navy), rostos de mulheres e nomes em corações – do estilo, ganhou status de arte e passou a integrar o outro lado da moeda, sendo, hoje, o clássico, o tradicional no universo dos amantes das tatuagens.
Contrária à ideia de perseguição às tendências, Gisa pesquisa e cultua o estilo retrô. Além da influência na carreira e das muitas imagens desenhadas pelo corpo, a tatuadora se inspira nas décadas de 1940, 50 e 60 para confeccionar suas próprias roupas. "A tatuagem ‘old school’ é algo que sempre foi e sempre será interessante e admirado", avalia. Ainda que meramente estética ou artística, a ideia de trazer velhos temas ao cotidiano parece ganhar cada vez mais adeptos.
Ao pé da letra, o termo "retrô" deriva de "retroceder" e pode ser explicado como uma inspiração do passado para o desenvolvimento de algum produto, peça, comportamento ou conceito. Tal inspiração em elementos "vintage" resultará em uma criação repaginada, uma releitura de uma época ou estilo. Na decoração, na moda, na publicidade, na gastronomia, na música ou no cinema, o novo tem, muitas vezes, cara de antigo.
Enquanto diversas bandas e gravadoras apostam no lançamento – ou relançamento – dos discos de vinil, a exemplo do vinil "In concert ’72", que registra o show do Deep Purple no BBC Paris Theatre, em Londres (remixagem feita das fitas originais gravadas no Abbey Road Studios), no cinema, produções como "O artista" e "No" ganham vulto no cenário mundial.
Em plena era 3D, "O artista", longa-metragem franco-belga em preto-e-branco, roubou os holofotes do Oscar 2012. Além de ser o primeiro longa francês a ganhar o prêmio de melhor filme, levou ainda as estatuetas de melhor diretor, com Michel Hazanavicius, e ator, com o também francês Jean Dujardin. Já o recente "No", representante do Chile no Oscar 2013, obra do diretor Pablo Larraín sobre a ditadura chilena, traz ao público uma reconstituição histórica exemplar. Os coloridos anos 1980 surgem cristalinos não só na direção de arte, mas na forma – Larraín filmou tudo com câmeras Umatic, trazendo a estética lavada e antiga do VHS.
O artigo de Paul Simpson, publicado pelo site britânico The Grocer, levanta possíveis pistas para explicar esse intenso gosto pelo retrô. Em um mundo repleto de insegurança e medo do futuro, agarrar-se a símbolos antigos seria uma atraente rota de fuga, sobretudo quando o passado é idealizado e, portanto, mais feliz. Já o mestre em estética, redes e tecnocultura Dimas Tadeu utiliza a semiótica para especular sobre outros aspectos ligados ao conceito, como a ironia. "Qualquer coisa que se torna cultuada, o faz por motivos icônicos, indiciais e simbólicos. As pessoas gostam de algo pela emoção, pela sensação real, causada por sua existência e, finalmente, por tudo que ele representa", propõe.
Entre os chamados "hipsters", iniciadores de tendências, conforme sugere Tadeu, o motivo mais imediato que leva alguém a usar, por exemplo, uma gravata borboleta ou chapéu-coco é a estética. "A pessoa acha a peça bonita e se sente bem usando-a. Porém, a escolha dela em detrimento a todas as outras que seriam ‘normais’ é também uma postura irônica frente à sociedade e ao passado", suscita.
Uma das características mais distintivas do "hipster", segundo ele, é a postura irônica, quase cínica, frente à realidade. "É um jovem que se veste como os avós, ouve a música que seus pais talvez tenham ouvido, mas que quer ser completamente diferente de qualquer geração anterior. O brega, de repente, é chique (Banda Uó, festas trash), a classe C é referência (‘Avenida Brasil’, Bonde do Rolê) e as noções tradicionais de ‘bom gosto’ e ‘correto’ são frequentemente questionadas."
Ressuscitando ídolos, a publicidade também aposta no poder da memória para mexer com o imaginário do consumidor. A marca internacional de chocolates Galaxy optou por escalar uma das mais belas mulheres do cinema mundial em uma de suas propagandas. Até aí tudo bem, se não fosse o fato de esta mulher ser Audrey Hepburn, morta em 1993. O polêmico comercial, com fotografia envelhecida, traz Audrey viajando de ônibus pela costa italiana sob a trilha de "Moon river", do filme "Bonequinha de luxo". De acordo com o tabloide "Daily Mail", a propaganda comprou os direitos de imagem dos filhos da musa e levou mais de um ano para ser concretizada.
Para o publicitário e proprietário da agência Buena Vista, Guilherme Leitão, é inegável que a publicidade beba da fonte das tendências, do que é mais comentado no momento. "Por mais que a moda seja cíclica, a tecnologia disponível na atualidade permite explorar de forma muito fiel a imagem desses ídolos", pontua. No Brasil, o comentário da vez é a propaganda do novo Fusca, que propõe uma viagem à década de 1970, quando o automóvel era o queridinho do país. Rivellino, Chacrinha e Mussum recriam o passado e satisfazem, sobretudo, os usuários de redes sociais. "O Mussum é um meme, postagem viral da rede. O humorista e seu modo de falar são relembrados o tempo todo", diz Leitão. "Tudo que é polêmico é visto. E essa polêmica desencadeia um efeito viral, que, por sua vez, contribui para a mídia espontânea."
A mobilização das redes sociais influenciou até mesmo a volta de determinados produtos ao mercado. O chocolate Lollo, sucesso de vendas da Nestlé nos anos 1980, voltou às prateleiras após inúmeros pedidos nostálgicos postados no Facebook. O biscoito recheado Mirabel, os games clássicos da Atari, as geladeiras e frigobares coloridos da Brastemp, o modelo de tênis Olympikus, inspirado no primeiro calçado da marca, são apenas alguns dos exemplos que seguem a onda dos "revivals".
Justamente para reviver a década de 1960 norte-americana, a Retro Foods, lanchonete temática da cidade, decidiu disponibilizar os pratos mais representativos da cultura tida como a mais moderna e glamorosa aos jovens da época – hambúrguer, batatas fritas, refrigerante, milk-shake e banana split. A ideia retrô vai além do cardápio, com ambiente caracterizado, garçonetes com vestidos de bolinha e jukebox. "Os mais velhos gostam de relembrar o período de juventude, com certa nostalgia, enquanto os jovens curtem muito essas antigas – e ao mesmo tempo novas – referências", diz a proprietária Marília Puccetti.
A releitura do passado, por mais fiel que possa parecer, agrega, contudo, novas ideias e proporciona até mesmo novos vínculos a seus adeptos. "Mesmo quando se usa uma peça vintage, ela aparece misturada com conceitos contemporâneos. O passado é uma referência para se criar algo ‘novo’, é um trampolim para a ruptura", acrescenta Dimas Tadeu. "Portanto, não se trata de saudosismo ou nostalgia, mas de algo que sempre fez parte da nossa cultura: a reinvenção".
