Silêncio. A mesma ausência de ruídos que marca o término de "Amor", filme do cineasta austríaco Michael Haneke, que preferiu rolar os créditos finais sem qualquer música, pode ser sentida ao término de uma sessão de cinema. O misto de choque e angústia, expressos na fisionomia da personagem que encerra o drama – a filha Eva -, é transposto para o público. Característica do cinema europeu, o silêncio é uma das soluções encontrada pelo longa para "falar", sem nenhum pudor, sobre a passagem do tempo na vida de uma pessoa. Indicado em quatro categorias ao Oscar desse ano, cuja cerimônia será realizada no próximo domingo, "Amor" leva às telonas os imperativos da natureza.
Na história, Georges e Anne formam um apaixonado casal de professores de música aposentados. Expoentes de uma classe média alta europeia, os dois octogenários vivem num amplo apartamento parisiense cercados por obras de arte. Ao sofrer uma isquemia, a mulher passa a ser cuidada pelo marido, que tem que lidar com suas próprias incapacidades físicas e com o esgotamento da companheira. Elogiado pela crítica especializada e um dos favoritos na categoria de melhor filme estrangeiro, "Amor" é protagonizado por Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva (concorrendo como melhor atriz), artistas respeitados na França, que se deixam expor ao revelar seus corpos e suas limitações.
Considerado um retrato fiel do envelhecimento, o filme lança mão de uma crueldade – em determinadas passagens, Georges sente raiva da esposa – pouco vista no cinema, que já frequentou a temática em obras como "Cocoon", de Ron Howard; "As confissões de Schmidt", de Alexander Payne; "Tomates verdes fritos", de Jon Avnet, entre outros. Diante das previsões do Fundo de População das Nações Unidas (Unfpa), que indicam uma população de idosos estimada em um bilhão até 2022, "Amor" se destaca num crescente conjunto de obras que se destinam a olhar com realismo o grupo de pessoas que mais cresce no mundo.
Lançado em 2007, o livro "O lugar escuro", da escritora carioca Heloisa Seixas, também joga luzes nas dores resultantes da passagem do tempo. Levada ao teatro esse ano, com adaptação da própria autora, a obra relata o processo de desenvolvimento do Mal de Alzheimer, diagnosticado em 2002 na mãe da autora. Caracterizando o percurso após a descoberta da doença como um "caminho de sombras", a escritora narra em primeira pessoa todos os transtornos vividos dentro de casa. "Na época, eu não imaginava a exposição a qual eu me submetia. Tudo surgiu de uma forma muito espontânea, e me fez um bem enorme", conta Heloisa, que diz ter percorrido uma caminhada da raiva para a comiseração. "Eu, assumidamente, queria fazer não-ficção. Fui seguindo o fio da memória, fui contando o que lembrava. Queria falar de mim", explica.
"A insanidade, assim como a morte, deveria ser sempre um segredo bem guardado de nós, suas vítimas", aponta a escritora já no fim de seu livro. Confessando não ter assistido "Amor" pelo medo de se ver, novamente, diante do trauma – "não tive coragem de ir ao cinema" -, Heloisa descreve com crueza o horror da troca de papéis, quando se tornou mais que necessário, obrigatório, cuidar de quem já havia lhe dado todas as atenções. "O fato de eu ter exposto esse meu lado ruim só foi fácil à medida que eu sentia já ter passado por uma pacificação", explica bastante emocionada, contando que em 2012, passados dez anos desde o diagnóstico, sua mãe teve a "viagem terminada".
Transposto para a linguagem teatral, o depoimento da escritora ganhou novas nuances, inclusive para o público. "O diretor e as atrizes moldam tanto com suas experiências de vida, que os personagens ganharam novos contornos", conta, exaltando o trabalho de atuação de Camilla Amado, Clarice Niskier e Laila Zaid, respectivamente avó, filha e neta. Aos 73 anos, a veterana Camilla, que interpreta a matriarca Maria Angélica, diz ter se despido das emoções da autora e dos próprios sentimentos para enfrentar uma personagem que lhe trouxe muitas lembranças. "Lidei com a minha mãe com muito amor e humor. E assim lido com a morte", conta ela, que acaba de encerrar a primeira temporada do espetáculo que, agora, deve excursionar pelo país.
Descontraída, ressaltando os pontos engraçados da narrativa de Heloisa, a peça conquistou a crítica e o público. Segundo a escritora, em diversas apresentações, pessoas da plateia fizeram questão de revelar que haviam se identificado com a história. "Tenho a impressão de que, aos poucos, a humanidade vai amadurecendo. Estamos chegando num momento em que a velhice e a juventude são tratadas com igual paixão", comenta Camilla, que considera o filme "Amor" "uma obra prima". Para Heloisa – que chega a dizer no livro que "os filhos que ficam são os que odeiam. Abandonar é um gesto de amor" -, envelhecer ainda é algo assustador. "A velhice é o convívio com as perdas. E isso é muito difícil de lidar", diz, para logo concluir: "O que mais tenho medo é da insanidade, e não da velhice".
Despedindo-se dos palcos, a atriz Maria Alice Vergueiro escolheu encenar o texto "As três velhas", do chileno Alejandro Jodorowsky. A história, que mescla a decrepitude do corpo e da moral de três senhoras, serviu para a atriz como forma de discursar sobre o envelhecimento com a pitada de humor que lhe foi peculiar ao longo da carreira. As três idosas da peça, quando já estavam no auge da miséria, descobrem ter se tornado um hit na internet e começam a ganhar muito dinheiro. Semelhante à trajetória de Maria Alice, que se tornou amplamente conhecida por conta do vídeo "Tapa na pantera", o percurso das personagens do espetáculo vai ao encontro do que a atriz acredita: "Elas acabam tendo a coragem de renascer com 88 anos. Isso é não ter medo de morrer. Porque morrer, no fim, é saber mudar", relata em sua autobiografia.
O choque que histórias como "Amor" e "O lugar escuro" causa no público é justificado pela psicóloga Sheila Espíndola como a natural, mas não menos temerosa, percepção de finitude. "O estarrecimento se deve ao fato de as pessoas se depararem com o próprio fim. E o fim é sempre dolorido. É o lidar com o nada", explica a profissional. "Os idosos ainda são vistos como os que atrasam a fila do banco. Um filme como esse ajuda muito mais a lidar com eles, do que os próprios idosos", comenta, afirmando que o envelhecimento traz uma sabedoria e uma consciência de si mesmo que não conseguimos dimensionar à distância.
Sentada, lendo com atenção uma revista de celebridades, Marília Mauler é a prova de que o processo natural da vida não carrega apenas tons dramáticos, mas uma boa porção de alegria. Sorridente, ela carrega consigo um baú de memórias, como a época áurea em que embalou, por muitos anos, as noites no antigo Raffa’s, clube que reunia a boemia juiz-forana na década de 1980. Mãe de três filhos, dois deles morando em Madri, na Espanha, e um no Piauí, a senhora de cabelos louros e maquiagem suave recorda suas cantorias na Itália, em Foz do Iguaçu e em bailes pela cidade. Cantora lírica por formação, hoje, aos 69 anos, ela entoa sua bossa nova, MPB e fados na Fundação Espírita João de Freitas, onde mora há pouco mais de seis meses. "A Marília é uma pessoa completamente alto astral e mostra que existe muita vida lá na frente", comenta Sheila, que acompanha de perto o cotidiano da instituição localizada ao fim da Rua São Mateus.
Cheia de vitalidade, Marília se assemelha à Maria, personagem que a escritora Lívia Garcia-Roza criou para o livro "Milamor". Na narrativa, a mulher precisa equilibrar os dilemas do envelhecimento com o vigor das experiências. Prestes a completar 60 anos, Maria desmitifica a imagem da vovozinha construída em obras como a de Monteiro Lobato, nas quais Dona Benta aparece permanentemente à disposição da família. Tentando reconstruir sua vida amorosa, a idosa idealizada por Lívia é muito mais real do que se imagina. "Agora a vovó não fica mais jogada na cadeira de balanço. Hoje, a terceira idade quer falar, reivindicar por espaço, participar", aponta o diretor do Grupo Divulgação, José Luiz Ribeiro, que há 19 anos coordena um workshop de interpretação voltado para esse público.
Aos 69 anos, Ribeiro diz ter no envelhecimento uma de suas temáticas preferidas. Sensibilizado com o longa "Amor" – "é um filme muito simbólico, iluminado, que não acaba com o fim da sessão" – , ele ressalta a importância de a arte se voltar para os idosos e destaca a via contrária: a relevância da arte no processo de envelhecimento. Segundo ele, a experiência no núcleo serviu como uma injeção de ânimo em muitos dos integrantes. "A arte, quando vivida, traz uma nova perspectiva para esses idosos, tanto do ponto de vista da cognição, quanto da rede de contatos que proporciona", aponta Sheila. Para a profissional, a dificuldade em inserir os idosos no convívio social se deve, em grande parte, à aceleração do dia a dia, que acaba por excluir movimentos mais lentos: "é preciso saber conviver. O tempo deles é outro".
