
O filme “Duas iguais”, com direção de Simone Caetano, é o primeiro a ser produzido como parte do Polo Audiovisual de Juiz de Fora – Polo JF Cine. As filmagens começaram no final de novembro, e passaram por locais como o Morro do Cristo, Biblioteca Murilo Mendes, Jardim Botânico, Hotel São Luiz, ruas do Centro e casa no Bom Pastor, trazendo no elenco nomes como Bellatrix Serra, Simone Spoladore, Cláudia Ohana e Pri Helena. A história é uma adaptação do livro homônimo de Cíntia Moscovich, que coloca em foco duas mulheres que se apaixonam, nos anos 70, e precisam seguir caminhos diferentes até se reencontrarem, anos mais tarde. O projeto foi selecionado e financiado por meio da Chamada Pública BRDE/FSA Cinema – Novos Realizadores de 2022 e tem expectativa de chegar ao público na segunda metade de 2026, com distribuição da O2 Play.
O produtor PH Souza, da Cafeína Produções, já adianta: essa é uma história de amor, e que precisou de mulheres por trás e na frente das câmeras para ser feita. A equipe conta com uma maioria feminina, principalmente nos cargos de decisão, mas foi ele quem teve a ideia de trazer o filme para Juiz de Fora — depois de um contato que teve, ainda na adolescência, quando veio prestar o PISM. “Fiquei com a cidade na cabeça e, logo que li o roteiro, imaginei que o filme podia se passar em Juiz de Fora. A cidade, desde aquela época, mudou bastante, mas os espaços que eu imaginava encontrar continuavam intactos”, explica ele, que já conhecia o trabalho de César Piva e ficou sabendo que a cidade estava se adequando para receber o Polo JF Cine. Foi assim, então, que decidiram reunir esforços para trazer a produção para a cidade.
O filme começou a ser idealizado pela atriz Bellatrix, quando ela leu a obra de Moscovich pela primeira vez, em 2017. Ela estava interpretando uma personagem para a websérie “Red”, que tinha temática lésbica, quando conheceu o livro por indicação de um amigo que havia acabado de entrevistar a autora. Foi uma paixão imediata: “Sabia que queria fazer essa história virar um filme”, conta. O caminho para isso, no entanto, precisou de maturação e da colaboração de outras pessoas. A interpretação de Simone Spoladore, por exemplo, teve muito a ver com a identificação que sentiu com o próprio processo do filme. “O projeto começa com uma atriz tendo uma ideia e querendo produzir esse filme. Para mim, isso justifica toda a minha vinda para cá”, conta a atriz, que já tinha participado da produção “Lavoura arcaica”, filmada na região em 2001.
Abertura para o novo
Apesar de a história do livro se passar em Porto Alegre, a vinda do filme para Juiz de Fora acrescentou novas camadas à história — isso porque passou a incorporar profissionais da cidade na produção. Entre eles, estavam nomes como Pri Helena (que participou de “Ainda estou aqui” e da novela “Volta por cima”) e Vinícius Cristóvão. “Apesar de a nossa cidade ser grande e bem localizada, ainda recebemos poucas produções audiovisuais de grande porte. Mas quando recebemos ‘Duas iguais’ valorizando os nossos serviços, nossos espaços e nossos artistas (…) É uma oportunidade para os nossos artistas se desenvolverem mais e trocarem com pessoas de fora”, comenta a atriz.
A possibilidade de troca era uma prioridade para PH Souza, que entende que produzir um filme no interior deve agregar experiências e visões distintas, em um processo no qual quem vem de fora também aprende. “É fácil produzir no Rio de Janeiro e em São Paulo, mas o meu prazer é fazer o que fizemos em ‘Duas Iguais’”, comenta ele. O próximo passo para o desenvolvimento do polo, como percebeu em sua experiência, é que o empresariado da cidade perceba também o retorno econômico que a chegada de profissionais de fora e de uma produção com esse peso traz para a cidade, gerando mais investimentos.
Diálogo com a contemporaneidade
Apesar de o livro ter sido publicado em 98 e ter a narrativa entre os anos 70 e 90, Bellatrix garante que a contemporaneidade da história é um dos aspectos que mais chamou a sua atenção. Há muito nessa narrativa, para ela, que “ainda precisa ser dito e explorado”. No entanto, há modificações em relação ao livro que foram feitas, inclusive em relação à morte de uma das protagonistas – algo que costuma ser recorrente em narrativas de amor entre personagens LGBTQIAPN+, e que a produção sentia que seria uma forma de “atualizar” ainda mais a história. Para ela, o caminho que fez também é de abrir portas. “Que tenhamos outras atrizes fazendo seus filmes e confiando em suas ideias, para a gente poder contar nossas histórias e ter o feminino com protagonismo no set”, afirma a atriz. O polo audiovisual de Juiz de Fora, com essa primeira experiência, já abre terreno para mais produções: a próxima será uma novela vertical, marcada para ser gravada em janeiro.
