Há cinco anos, eles começaram a se reunir por aqui para festejar o Dia Internacional do Palhaço, comemorado em 10 de dezembro. De lá para cá, haja nariz vermelho. O encontro virou tradição e hoje traz representantes de várias cidades. A edição 2011 da Caravana Mezcla de Palhaços continua com o mesmo formato, mas inclui na programação maior número de shows. Neste sábado, além da Palhaceata, acontece o Cabaré, com sete performances adultas. No domingo, o Cabarezinho, também com sete números, aguarda espectadores de todas as idades. Dessa vez, temos mais artistas convocados e muita gente que vem por conta própria, porque gosta de participar dos três momentos, comenta o organizador Marcos Marinho, citando, no segundo caso, o grupo Caravana de Artesania, de Belo Horizonte, além de artistas de Santos Dumont (MG). Entre os convidados, estão a Companhia Frita e o Circo Dux, do Rio, e o palhaço Viralata (Rodrigo Robleño), da capital mineira, que passou quatro anos no Cirque du Soleil.
De acordo com Marinho, o evento não coincide exatamente com a data comemorativa por conta do excesso de compromissos dos palhaços na última semana. Eu mesmo tive que ir para BH e Rio, conta o ator e diretor, que vem conferindo anualmente o tradicional Anjos do picadeiro, encontro internacional produzido desde 1996 pelo carioca Teatro de Anônimo. Conforme assegura o organizador, o público interessado na arte do clown cresceu na cidade desde a criação da caravana. O projeto – idealizado ao lado do carioca Ricardo Gadelha (palhaço Protocolo) – também instigou o desejo de artistas juiz-foranos de se dedicarem a esse tipo de pesquisa. O grupo PauLatino, por exemplo, conta com 12 integrantes fixos. Eles serão os anfitriões da festa e farão número em conjunto, sendo que dois atuarão em solos: Revelino Mattos, com seu Afrânio, e Júlio Phênix, com seu Faísca. Nossa trupe vem se apresentando bastante ao longo do ano, avalia Marinho, que, no palco, atende por Zé Boléo.
Muito envolvido no circuito de palhaços, Marcos Marinho afirma que a caravana pretende promover a troca de experiências nas diversas artes. Na Palhaceata de sábado, também estarão presentes atores, músicos e interessados. A banda infantil Trupicada e os Médicos do Barulho, por exemplo, estão confirmados. O cortejo passa pelas avenidas Getúlio Vargas e Rio Branco, pela Rua Halfeld e se encerra em frente ao Cine-Theatro Central. Segundo o organizador, quando chegarem ao prédio do Cine Excelsior, os participantes protagonizarão uma grande choradeira pela possível perda do espaço. Esta é a primeira vez que faremos uma manifestação política, menciona Marinho. Para ele, ainda que a questão do cinema não seja revertida, o palhaço cumpre seu papel ao assumir a voz do coletivo.
‘Ser palhaço é ter uma profissão de denúncia’
Apesar de ser paulista, foi por Minas que Rodrigo Robleño voltou ao Brasil. Desde os 10 anos, o artista – que passou quatro anos no canadense Cirque du Soleil – convive com a terra das montanhas, lugar onde guardou suas lembranças pessoais e profissionais. Em julho de 2010, Robleño resolveu deixar a megaestrutura de uma das trupes circenses mais conhecidas do mundo e voltar para os espetáculos de rua em Belo Horizonte. Também sentia saudades de seu palhaço Viralata, que se apresenta neste domingo no Cabarezinho da V Caravana Mezcla de Palhaços. Robleño, que já esteve outras vezes em Juiz de Fora, participa do evento pela primeira vez. Por e-mail, ele conversou com a Tribuna.
Tribuna – Como surgiu a oportunidade para o Cirque du Soleil?
Rodrigo Robleño – Um amigo meu, que foi meu aluno e logo parceiro, me inscreveu em uma das audições. Eu, por acaso, tinha as características físicas e os recursos técnicos adequados para substituir o personagem Vigia, do show Varekai.
– Por que saiu do projeto e como se sentiu ao retornar ao Brasil?
– Trabalhei no Cirque durante exatos quatro anos. Foram quase 1,5 mil apresentações. Fazia um dos personagens centrais do Varekai, que, aliás, está em turnê no Brasil. Foi uma grande experiência, mas chegou o momento em que senti a necessidade de voltar para Minas e fazer as coisas que tanto amo: trabalhar em espetáculos de rua, dar aulas de palhaço, estar com meus amigos. Enfim, ver e viver a cultura mineira.
– Quais os principais desafios enfrentados ao lado dos outros 129 integrantes?
– É uma grande estrutura. Você viaja o tempo todo com esse pessoal e sabe que é apenas uma pequena peça daquela engrenagem. Cheguei lá sem falar nada de inglês, então minha adaptação foi muito difícil, mesmo com a ajuda de duas artistas brasileiras que ainda fazem o show: Michele Ramos e Natalia Presser. Também dificultou o fato de eu sair de um esquema em que trabalhava sozinho e na rua para um espetáculo enorme, com mais de 50 pessoas em cena.
– Como a arte brasileira é vista pelos estrangeiros que compartilharam a cena com você? E pelo público de fora?
– Todo mundo adora o Brasil, principalmente os músicos. Mas eles também comentam muito sobre corrupção, favelas e perigos diversos. Eles, ao que parece, possuem as mesmas opiniões que nós: o Brasil é um país maravilhoso, de gente criativa e que busca ser feliz, mas ainda tem muito para aprimorar na área social e na escolha de seus representantes.
– O palhaço brasileiro tem um perfil? Qual?
– Penso que, cada vez mais, esses perfis estão desaparecendo. Uma característica do brasileiro é a antropofagia, ou seja, conhecer um pouco de tudo e misturar. Mas, se fôssemos falar de algumas marcas bem brasileiras, apontaria nosso palhaço como falador, cheio de picardia e com roupas bem coloridas. Também é um palhaço muito musical.
– De uns tempos para cá, os estudos de clown parecem estar mais divulgados. O que é preciso ter ou fazer para ser um autêntico palhaço?
– Para mim, o grande mestre do palhaço é o público. É com ele que aprendemos e descobrimos se estamos no caminho certo. Existem várias maneiras de seguir nessa profissão, desde nascer em um circo e, naturalmente, aprender o ofício, até participar de diversos cursos que são oferecidos sobre esta técnica. Ser palhaço para mim é ter uma profissão de denúncia. Fazemos rir, e é isso que queremos. Mas sabemos da responsabilidade e da seriedade desse ofício existente há mais de seis mil anos, bem antes de o circo surgir.
