Ícone do site Tribuna de Minas

‘A criança tem que se preparar para um mundo preconceituoso’

estacao palco estreia amanha a peca sobre bingo um cachorrinho que admira a liberdade de um gato e resolve imita lo

estacao-palco-estreia-amanha-a-peca-sobre-bingo-um-cachorrinho-que-admira-a-liberdade-de-um-gato-e-resolve-imita-lo

PUBLICIDADE

Estação Palco estreia amanhã a peça sobre Bingo, um cachorrinho que admira a liberdade de um gato e resolve imitá-lo

Estação Palco estreia amanhã a peça sobre Bingo, um cachorrinho que admira a liberdade de um gato e resolve imitá-lo

PUBLICIDADE

Pedro Bandeira vem a Juiz de Fora no próximo dia 24 de outubro. O motivo? Conferir a Cia. de Atores Estação Palco na montagem de “É proibido miar”, uma adaptação de Nilza Bandeira James do livro homônimo escrito por Pedro Bandeira nos idos de 1983. A temática, a despeito dos mais de 30 anos de lançamento, mantém-se atual. “Escrevi uma fábula sobre o preconceito, bullying, sobre as pessoas que são diferentes, através de uma metáfora. Um cãozinho que mora num quintal e que admira muito a liberdade de um gato que anda pelos telhados. Ele resolve imitá-lo, aprende a miar, e isso faz criar uma série de repulsa, a começar pela própria família”, explica o autor, enfatizando a pertinência de sua obra. “Essa fábula é ótima para discutir com as crianças a ideia do respeito pelo diferente, seja atitude, orientação, ideia, cor da pele, religião…”

Convidado do programa “Sala de leitura”, da Rádio CBN Juiz de Fora, que vai ao ar neste sábado, às 10h30, com reprise na segunda-feira, às 14h30, Pedro é o autor de literatura juvenil mais vendido no país (24 milhões), sem contar com a ajuda do mundo digital. “A editora colocou todos os meus livros em e-book, mas o e-book não deu certo. As pessoas não gostam de ler livro nesse formato”, diz ele, justificando sua crença. “De cada 10 mil livros de papel vendidos, vendo um eletrônico, e isso não acontece só comigo. É claro que posso entrar na internet e dar uma olhada em um livro do Machado de Assis que não tenho, mas eu gosto é de folhear o papel. Agora mesmo está acontecendo a Feira do Livro de Frankfurt, é uma feira de papel. Pode ser que, no futuro, o e-book vença. Para curtir um romance, é melhor colocar os pés para cima e pegar uma boa almofada”, reflete Bandeira. O espetáculo “É proibido miar” cumpre temporada nos dias 17, 18, 24 e 25 de outubro, às 18h, no Teatro Pró-Música.

Tribuna – Apesar dos mais de 30 anos de lançamento, “É proibido miar” ainda traz uma temática que precisa ser discutida.

Pedro Bandeira – Embora a gente diga que, no Brasil, o preconceito seja menor, não é verdade. A grande dificuldade é aceitar que o outro seja diferente de você. Veja as guerras religiosas que ainda acontecem. Ainda existem pessoas que, no Oriente, jogam bombas em outras de outra religião. Aqui no Brasil nós continuamos tendo descendentes de africanos com grandes dificuldades sociais. Você vai a um restaurante e não vê uma família de negros com você ali. As pessoas olham para o outro como se este fosse um perigo para elas. O sonho de cada um é que todos fossem iguais, e nós só teremos um mundo de paz quando a gente assumir que, felizmente, somos diferentes.

PUBLICIDADE

– Na sua história, o pai do Bingo, o senhor Bingão, resiste em aceitar a opção do filho. Os pais hoje não teriam uma outra atitude?

– Você imagina um menino ou menina que demonstre uma tendência homossexual. Qual é a atitude dos pais? É resistir e não permitir que ela se realize. Eu fiz teatro e me lembro de que havia um repúdio dos pais ao fato de o menino e a menina quererem fazer teatro. E não é porque é papai ou mamãe que o amor filial, paternal ou maternal faz de todas as pessoas anjos. Os racistas também são pais e mães. Eu sei que muita gente fica apavorado. “Ah, você faz com que o pai e a mãe do Bingo o abandonem.” Sim. Não quero negar a realidade ao meu leitor. “Ah, no final, você devia fazer com que o papai e a mamãe o acolhessem de volta.” Não é assim que acontece. Na realidade, o papai e a mamãe jamais aceitam um filho diferente.

PUBLICIDADE

– É preciso falar sobre essas questões delicadas com as crianças?

– A gente tem que falar a verdade para a criança. Ela tem que estar preparada para para um mundo extremamente preconceituoso, que espera que ela se enquadre. Mas é impossível você se enquadrar em todas as tendências. Se você for uma católica boazinha, vai ser repudiada por evangélicos ou judeus. Se for gorda, será repudiada pelos magros. É preciso discutir esses assuntos desde pequenininho. Você vê na escola um menino que torce para o Cruzeiro sofrer bullying do que torce pelo Atlético. Eles brigam de soco. Não é possível que a humanidade inteira torça para um só time de futebol. Minha obra quase toda discute os grandes problemas sociais, claro que com historinha e com fábula. Talvez, “Proibido miar” seja um símbolo de quase todos os meus outros livros.

PUBLICIDADE

– E você tem medo de se repetir?

– Muito, isso chega a me travar. É difícil você achar um novo aspecto da psicologia humana para abordar. Aliás, estou vivendo uma fase desse tipo atualmente. “Ah, faz uma história de mistério.” Já fiz tanto. Embora haja autores, como a Agatha Christie, que costuma fazer cem livros iguais de mistério com os mesmos personagens, e todo mundo gosta de todos, eu tento algo novo. A vida do artista é sempre de buscar o novo. Ela é dolorosa. Não é toda hora que o compositor pega o violão e sai uma música interessante. Agora estou trabalhando, também, em adaptações de teatro. Esse é o desafio do artista. É gostoso, mas, às vezes, também é apavorante.

– Por que você deixou o teatro?

PUBLICIDADE

– Em primeiro lugar, porque eu gostava de comer todos os dias, e o teatro não me permitia isso. Eu gostaria de ter uma profissão que me desse dinheiro para almoçar e jantar, e nem sempre eu conseguia assim. Então, fui trabalhando como jornalista. No jornalismo, o salário podia não ser alto, mas vinha todo mês. Foi bom, aprendi a escrever e consegui me tornar um escritor.

– Você disse em uma entrevista que queria ser outro Monteiro Lobato, outra Ruth Rocha…

– Nós precisamos ter mais Pedros Bandeiras, mais Ziraldos, mais Maurícios de Souza, mais gente trabalhando pela educação como nós trabalhamos. Nós somos ainda poucos. O Brasil é um país que precisa muito investir em educação. De acordo com pesquisas, de cada quatro adultos que se dizem alfabetizados, somente um é capaz de ler um textinho.

– O Pedro Bandeira é um escritor conectado?

– Eu uso a internet como eu usaria uma enciclopédia: para consultar, enviar meus textos para a editora, responder e-mail dos meus leitores e tudo o mais. Não tenho Facebook porque eu não conseguiria dar conta do assédio que haveria. Por isso, procuro um pouco me preservar.

‘É PROIBIDO MIAR’

17, 18, 24 e 25 de outubro, às 18h

Teatro Pró-Música

(Av. Rio Branco 2.329 – Centro)

Sair da versão mobile