
O nome da banda já mostra a que ela veio: Biltre significa algo ou alguém que age de forma vil, canalha ou infame. Não que o quarteto carioca aja dessa forma: pelo contrário, o escracho reside em um lugar indolor, que não fere a ninguém. A piada ácida das letras da Biltre não passam de fazer humor com a desgraça própria – desgraça essa muitas vezes sentida por mais pessoas que se compadecem do mesmo mal. Rir do horror é um caminho. Mas outros caminhos também são possíveis e encorpados nas músicas da banda que, independente de qualquer coisa, trilha pela divertida-modernidade-tecnológica, nos beats e nas invenções. Neste sábado (17), a partir das 20h, o Sensorial recebe a Biltre, junto com alguns dos DJs do bloco Minha Luz é de Led (ramificação carnavalesca da banda) e a DJ juiz-forana Amanda Fie. “Vai ser uma salada maluca de carnaval”, garante Vinícius Coelho, um dos integrantes da Biltre e que, por acaso, viveu 6 dos seus 37 anos em Juiz de Fora.
Vicente, Artur Ferreira, Dioclau Serrano e Diogo Furieri se encontram, oficialmente, como Biltre, em 2012, mas o caso já era antigo, remonta ao começo dos anos 2000 quando uma parte deles idealizou a banda Caramiolas. Inspirada naquele contexto carioca Los Hermanos, a primeira banda dos jovens era mais densa e sentimental, “para curtir parado”. Ela, no entanto, acabou. Eles ficaram um tempo sem se juntar musicalmente até que surgiu a ideia de criar um outro tipo de grupo: “A gente queria fazer uma coisa mais dançante, mais leve”, conta Vicente.
O primeiro passo da criação da Biltre, por incrível que pareça, foi tirar a bateria que a Caramiolas tinha. “É um instrumento difícil de viajar”, resume o integrante. Mas eles já tinham um caminho para fazer essa substituição e carregar os timbres do instrumento. Muitos músicos, ainda novos, entram na área motivados pelo “faça você mesmo”. É daí que surgem os beats feitos eletronicamente, como possibilidade de deixar as músicas mais dançantes, mesmo sem a bateria. “Era aquela coisa de comprar um tecladinho e um computador e fazer sua própria música. É um tecnológico tipo Radiohead, mas, claro, a gente sempre foi mais tosco”, brinca Vicente.
A Biltre é o encontro desses beats com o humor que Vicente relaciona ao ser carioca. “A gente realmente não sabe ser fofo.” O primeiro disco da banda, “Bananobikenologia”, de 2015, faz essa apresentação: até falando de amor, é rindo das decepções amorosas. São, basicamente, pequenas histórias do dia a dia, como quando se conta a um amigo como foi que aconteceu, essencialmente de maneira narrativa. O segundo, “Nosso amor vai dançar”, de 2017, segue nessa mesma linha. A primeira desse disco já resume tudo isso, como cartão de visitas. Em “Superficial”, ao falar sobre uma relação, eles refletem: “Você conversa, eu quero diversão/ Porque eu não tenho paciência para tanta letra/ Chega de estrofe, eu quero mais refrão”. É uma brincadeira, mas quase séria, por ser cheia de questionamentos sobre ser superficial, seja em um relacionamento ou em uma banda independente.
Rodar de bicicleta
Ser uma banda independente, inclusive, tem lá seus altos e baixos. Diante da impossibilidade de encontrar um lugar para tocar: “faça você mesmo”, mais uma vez. Vicente comenta que, no Rio de Janeiro, foi-se a época das casas que recebiam grupos menores. “A gente não tinha onde tocar. As casas, no final das contas, são pensadas para receber os grandes shows. Isso lembra aquela época de declínio das gravadoras. Como está a cena do Rio agora?” Eles, então, inventaram a bananobike (referência presente já no disco de 2015): simplesmente uma bicicleta com energia móvel para durar cerca de 5 horas, com possibilidade de carregar, pensada para esses lugares externos como as praças. A Biltre poderia se apresentar em qualquer lugar.
Alguns blocos da cidade viram no aparato uma possibilidade de somar à organização, colocando os DJs para tocar na bananobike, que poderia, além de andar, se posicionar facilmente no espaço. Era uma forma, também, de conseguir um dinheiro para a banda. “A gente viu que estava dando certo com outros blocos e teve a ideia, então, de fazer um nosso.” Surgiu o “Minha luz é de Led”, um bloco colorido que já chegou a somar cerca 30 mil pessoas em uma das edições. “Esse bloco mudou minha vida. A gente percebe que ele, agora, é muito maior que a banda. É puramente artístico, um carnaval sintético.”
Biltre deprê?
Essa ideia foi um fôlego encontrado em um dos momentos de incerteza. A pandemia foi um outro desses momentos. “A gente quase acabou diversas vezes. É muito difícil viver de música. Todo mundo passou por um perrengue e a gente viu a estabilidade indo para as cucuias.” O disco novo, com previsão de ser lançado em novembro, nasce ainda com reflexos dessa vivência. A começar que, diferente dos outros, o processo de composição das músicas foi solidário, cada um em sua casa. “E como fazer piada em um momento difícil?”, questiona. “O disco novo é quase uma revolução. A gente foi afetado. Nas músicas, a gente traz algumas reflexões pandêmicas. Ainda tem as piadas essencialmente Biltre. Mesmo mais deprê, a gente é engraçado. Continuamos rindo de nós mesmos.” Uma das músicas, inclusive, que tem o nome de “Trap triste”, Vicente disse que quase faz chorar. Mesmo ele tentando dar uma suavizada e incluindo uma piada mais ácida, não conseguiu sair muito desse caminho. Uma das músicas que faz parte desse disco, “Lá fora”, já está disponível nas plataformas digitais.
Para eles, isso é uma forma de renovar um público e mostrar também que ficar estagnado em um tipo de música nunca foi o interesse da banda. “A gente não ficou engessado na piada. A gente ainda vai trazer músicas mais ‘para cima’ no disco, mas experimentar é importante, inventar as ‘piras’ e apresentar um novo. É uma forma de a gente se desafiar.”
O show no Sensorial vai trazer uma partezinha do “Minha luz é de Led”, a partir de alguns DJs que compõem o bloco. Já sobre o da Biltre, ele afirma: “O show em Juiz de Fora vai ser a grande prova de que a gente não morreu.” No repertório, as principais músicas dos discos, além de “Lá fora”, que faz parte do que virá.

