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Por um mundo brasilificado’

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Em tom profético, o cantor, compositor e escritor Jorge Mautner anunciava, em 1962, em seu primeiro livro, que a nova era será o Brasil. Quase 50 anos depois, o tropicalista, que esteve na cidade para uma apresentação no Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm) na última sexta, conta à Tribuna que a afirmação está mais viva que nunca. Em uma conversa marcada pelo bom humor e o olhar criterioso e apaixonado sobre a história do país, o artista destrincha a verdadeira essência do brasileiro e mostra como sua produção segue em ritmo intenso, aos 70 anos.

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Tribuna – Desde Deus da chuva e da morte, seu primeiro livro, em 1962, o senhor afirma que a nova era será o Brasil. Caetano certa vez disse que o senhor já fez várias profecias que deram certo. Essa sua visão está se concretizando?

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Jorge Mautner – Mais do que nunca. Desde 1956, quando comecei a escrever Deus da chuva e da morte, ela não só se confirma como o mundo agora reconhece oficialmente. As Olimpíadas vão ser aqui por causa disso. Pego, ao pé da letra, José Bonifácio de Andrade e Silva, que diz que somos esta amálgama tão difícil de ser feita. Essa amálgama é a mistura, mas é além. É um fluido quântico que vai mudando a cada segundo e possibilita ao brasileiro e à brasileira reinterpretar tudo de novo, absorvendo caminhos contrários, atingindo o caminho do meio. Ora, isso é a paz mundial. Isso possibilita a árabes e judeus serem sócios aqui e não terem ódios ancestrais. É disso que o mundo precisa. Essa é a grande mensagem do Brasil. Fora as outras coisas. Somos um continente que tem de todas as florestas, todos os minerais atômicos, água doce… Mas, principalmente, os gestos do Brasil acolhedor, dadivoso e generoso. Isso é que é preciso, se não, a espécie humana acaba. Vem muito a propósito o caso recente, em que o assassino nazista da Noruega colocou o Brasil como tudo aquilo que odeia, com o multiculturalismo e a miscigenação. Ou vai ser o nazismo ou é a amálgama.

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– Na sua opinião, a cultura brasileira tem sua origem na periferia. Que cultura é essa?

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– Descobertas recentes provam que a Amazônia, além de ter sido um fruto do Cerrado, é um jardim plantado pelos nossos ancestrais indígenas. Descobriu-se, no Alto Xingu, trilhas de canais secos que eram canais de irrigação e navegação. A cultura africana reinterpretou o candomblé, inventando os arquétipos. De Portugal, entram os templários, que chegaram lá perseguidos e humilhados, quase à beira da extinção, sendo acolhidos para cavaleiros de cristo. O Brasil é resultado disso tudo. Até os índios tupiguaranis vieram para cá à procura de uma terra sem males e de uma misteriosa palmeira azul. E isso tudo agora reverbera. Toda a arte moderna sabia disso. Mas, em 1945, com o Estado Novo, começaram a surgir os cronistas que diziam: não, o Brasil não é isso tudo. Precisamos imitar a Inglaterra. Mas não adiantou. Veio o Tropicalismo, que é a plenitude dessa amálgama, e a antropofagia de Oswald de Andrade, que é essa amálgama em tom de fúria. E Brasília foi fundada. A mensagem de Darcy Ribeiro permaneceu. A partir daí, então, com a democratização, o mundo olha para o Brasil. E isso tudo agora resplandece. Ou o mundo se brasilifica ou virará nazista.

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– Onde está o tropicalismo hoje?

– Em todos os lugares. Ele é Guimarães Rosa. Ele é tudo e estende suas influências desde o chamado brega. Uma parte da bossa nova – não é Jobim nem João Gilberto – tinha horror até de Luiz Gonzaga. Música caipira então… Isso é um preconceito. O tropicalismo abrange desde essa consideração de plenitude dessas músicas até a música dodecafônica, de Arrigo Barnabé. O Brasil é um gingante que se fingiu de invisível até agora. Esse tropicalismo continua. Depois que Gilberto Gil foi ministro da Cultura, isso se instalou mesmo, em radiação plena. É a verdadeira cultura do Brasil.

– O senhor já afirmou que a música pode ajudar o povo na compreensão quanto ao contexto político e social em que vive. Isso ainda é forte na produção musical contemporânea?

– Acho que sim. Dos enredos das escolas de samba aos maracatus. Os terreiros, o funk e o rap… Estão todos contando essas histórias, graças a Deus. Recomendo aos intelectuais que mergulhem nos batuques (risos).

– Os brasileiros têm consciência de toda essa riqueza apontada pelo senhor?

– Quanto mais humilde e menos colonizado mentalmente, mais eles têm consciência disso. E também há os intelectuais que começam a ter essa consciência. Tem esses cronistas que falam o contrário, na revista x e y, mas eles são fadados a uma imitação pálida de uma Inglaterra que nem a Inglaterra mais quer ser.

– Quais são os próximos projetos a serem lançados?

– Dois trabalhos serão lançados nesse segundo semestre. Primeiro o documentário Filho do Holocausto (dirigido por Pedro Bial), que é também um musical. Tem muita música, e Caetano e Gil participam intensamente. Ele vai para vários festivais agora e se transformará em CD e DVD. O outro trabalho nasceu das minhas visitas aos pontos de cultura, com Nelson (Jacobina). É de Nazaré da Mata (PE), onde gravei com o Maracatu Estrela de Ouro Aliança, do mestre Duda. Gravamos ao ar livre, com toda a banda do Maractu. Vai se chamar Maracatu Atômico _ Kaosnavial (DVD). Fora a continuidade do programa Oncotô?, na TV Brasil.

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