Ícone do site Tribuna de Minas

Esperas urbanas

PUBLICIDADE

Três artistas, três distintas gerações e nacionalidades. Gérard Monnier na França, Pedro Motta no Brasil e Ivan Argote na Colômbia. Distantes, porém, unidos pela arte que retrata uma visão de lugar como local humanizado: Cada um, a sua maneira, se interessa pelo mobiliário urbano, por pessoas que ocupam o espaço. A ausência completa de pessoas é um negativo da situação que aparece nos três trabalhos, sentencia Monnier, que esteve em São João del Rei no último sábado para abertura da exposição Todo lugar é aqui. A mostra internacional reúne fotografias de Monnier, clicadas em nove países, e de Motta, tiradas em uma estrada na região do Campo das Vertentes, além de uma vídeo-instalação de Argote, composta por três projeções simultâneas de imagens captadas em Nova York, Paris e Madri. A exposição integra a programação do 26º Inverno Cultural de São João del Rei e fica em cartaz até o dia 11 de agosto, no Centro Cultural da UFSJ, das 8h às 20h. Na próxima quinta-feira, o trio se encontra para um bate-papo com o público, às 18h, no Anfiteatro do Campus Santo Antônio.

PUBLICIDADE

Eles retratam a presença de lugares onde a ideia de trânsito rápido, contínuo e de fluxo ocorre. Claro que de maneira diferente nos três casos. As pessoas estão presentes ali pela ausência, já que esses espaços urbanos pressupõem a existência delas. Afastá-las de lá não deixa apenas um vazio, mas um vazio significante. As três produções têm uma afinidade muito grande, avalia Jorge Coli, membro da Associação Internacional dos Críticos de Arte e da Associação dos Historiadores de Arte Contemporânea. Em 2004, Coli foi agraciado com o Prêmio Gonzaga Duque (ABCA), como o melhor crítico de arte.

Em Espera, do artista francês, estão expostas 30 imagens. Seja em Saint-Etienne,na França, em Tóquio, no Japão, em Bergen, na Noruega, ou em Juiz de Fora, ali estão presentes indivíduos parados em repartições públicas ou em pontos de ônibus, como se, melancolicamente, aguardassem por algo. Segundo Ricardo Coelho, curador da exposição, os registros exemplificam um conceito de espaço onde não há uma identificação de uso, locais funcionais, mas sem qualquer significado simbólico.

Justificando que cada um faz a leitura que quiser de uma obra, Monnier chama atenção para uma foto tirada em Beijing, China, onde um grupo de ciclistas espera pela abertura do sinal de trânsito para passar. Enquanto do lado direito um carro aguarda para dar partida, no lado oposto, outro veículo é registrado em alta velocidade no instante em que ele quase saía de cena. Todos desconhecidos unidos pelo olhar do artista. Um outro fotógrafo francês, falecido recentemente, dizia que ‘diante das minhas fotos, descobria uma beleza, uma harmonia aparente’, e é justamente essa frase que me ajudou a formular meu ponto de vista sobre o meu trabalho, contou. O que me fascina é a tomada fotográfica que fixa um momento no qual aprecem o equilíbrio e a unidade de um grupo informal. Os indivíduos não se conhecem, mas a fotografia faz com que participem de uma harmonia evidente, justifica para logo completar. Essa foto seria improvável. O vazio é necessário para entender que as bicicletas estão esperando para preenchê-lo, acrescenta Monnier, que é professor emérito da Universidade de Paris I Panthéon-Sorbonne e historiador da arquitetura contemporânea.

Expostas sem título, as projeções de Argote, artista multimídia e um dos convidados da 30ª Bienal Internacional de São Paulo, retratam áreas de intensa circulação humana, classificadas, por Coelho, de não lugares por excelência. Paradas ou caminhando em faixas de pedestres, absortos enquanto falam em celulares, transeuntes parecem interagir com o público ao se voltarem para câmeras que os registram. Ao olharem na nossa direção, percebemos uma sensação esquisita de pertencimento. É como se expressassem uma possibilidade de contato, de afeto pelos sentidos, observa o curador.

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

PUBLICIDADE

Presença marcada pela ausência

Minha metodologia é assim, sempre vou e volto para os lugares, conheço ou tento conhecer o máximo que puder e tento registrar aquilo de uma forma mais rápida, mais ágil, explica o mineiro Pedro Motta, fazendo referência aos pontos de ônibus captados por suas lentes no ano de 2005, enquanto se deslocava diariamente, de Belo Horizonte para São João del Rei, cidade onde hoje reside. Foram todos clicados um mesmo dia. Senti a necessidade de trabalhar neste espaço. Eu ficava neste trânsito e, em algum momento, achei esquisito ver, num raio de cem quilômetros, um agrupamento de arquiteturas muito parecidas, comenta ele que, posteriormente, descobriu que se tratava de estratégia de uma campanha política. O candidato não podia trabalhar com o nome dele, então, resolveu fazer uma propaganda cromática. Não venho a refletir ou a comentar uma questão política, afirma.

Também intitulados Espera, não são poucas as reflexões que os trabalhos de Motta suscitaram no espectador, impactado pelo estranhamento de fotos que aparentemente registram simples paradas de coletivo. O autor quis retratar que os pontos estão aguardando alguém que, em algum momento, vai ocupá-los, dizia um visitante. Já acho que ele quis chamar atenção para o fato de que as pichações comprovam que ali alguém esteve, opina outro, apontando para alguns nomes escritos nas paredes. Trabalho o lado estético, mostrando a arquitetura e suas diferenças. Tem todo o estranhamento da paisagem da nossa região junto com uma construção moderna, que vem de outro tempo. É uma fotografia totalmente povoada, pois tem o elemento humano que está ali através de um vestígio. Se quiser fazer um link com a campanha política, pode-se dizer que é a espera de que alguma coisa pudesse acontecer naquele lugar durante a campanha, afirma ele, surpreso com tantas interpretações.

Uma pessoa comentou horrorizada que eu estava querendo mostrar as mazelas do Brasil, já que algumas das fotos apresentam pichações. Cada um faz sua leitura, mas eu simplesmente tento fazer uma conexão com as pessoas. Acho que aquilo era, na verdade, um registro de alguém que esteve ali. É uma ausência total, mas presença pelos vestígios, pelos rastros, conclui o artista, que é formado em Belas Artes pela UFMG. A programação completa do festival está disponível em www.invernocultural.com.br.

PUBLICIDADE

TODO LUGAR

É AQUI

Até o dia 11 de agosto, das 8h às 20h

Sair da versão mobile