
Concerto terá apresentação solo da orquestra
Entre músicos e composições, um lapso de centenas de anos. Apesar da distância temporal, a fina sintonia entre o corpo da Camerata Antiqua de Curitiba e seu repertório dá nova vida a peças de Arcangelo Corelli e Georg Friedrich Händel, ambas escritas no século XVIII, e integrantes da apresentação na noite de deta terça-feira (16), como parte do 24º Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga.
Para Janete Andrade, coordenadora de Música Erudita da Fundação Cultural de Curitiba, muito da vivacidade de concertos baseados em trabalhos compostos há tanto tempo vem da elevada qualificação técnica dos músicos. "Naturalmente que o repertório do grupo sempre estará pautado nos grandes compositores e nas grandes obras do Barroco. A orquestra deve saber como tocar um Bach, o coro dever dominar o canto de um Palestrina ou Orlando di Lassus, mas todos precisam também saber executar obras de compositores atuais que temos comissionado, como Liduíno Pitombeira, André Mehmari, Ronaldo Miranda, Marcos Balter, entre tantos outros."
Na apresentação desta noite, vozes e acordes unem-se no Cine-Theatro Central em uma performance que é aberta pela orquestra, com o Concerto Grosso Op. 6 n° 6 em Fa maior, de Corelli, seguidas pelo encontro com o coro na execução do Dixit Dominus, de Händel. "Apesar de tanto o coro como a orquestra apresentarem-se muitas vezes com seus trabalhos solo, o momento musical que mais me emociona é a performance dos dois grupos juntos. Quando as vozes entram no Dixit Dominus é de arrepiar!", adianta Janete Andrade.
Regente convidado da Camerata, o argentino Juan Manuel Quintana destaca a abertura do grupo a novas experiências musicais como outro elemento renovador. "Os músicos possuem formações e históricos bem diferentes, e isso só enriquece o grupo em sua totalidade. As pessoas são sempre dispostas a experimentar formatos e interpretações e possuem muita competência para trabalhá-los", analisa Quintana, egresso da Schola Cantorum Basilensis, na Suíça, e do Conservatório de Paris, além de professor de viola de gamba no Conservatório Manuel de Falla de Buenos Aires.
Sintonia social
Além da relação harmoniosa entre os elementos musicais, a Camerata Antiqua de Curitiba integra diferentes setores da comunidade com igual precisão e conformidade, nos programas "Música pela vida" e "Alimentando com vida". "São grandes momentos da Camerata, que permitem a aproximação com públicos diferentes. O "Música pela vida" é destinado a audiências que estão em situações vulneráveis, levando concertos a hospitais, creches, orfanatos, asilos e presídios. É um trabalho duro, mas muito recompensador. Já o "Alimentando com música" é voltado para alunos de escolas públicas de Curitiba, levando-os a conhecer de perto o trabalho da Camerata e a música erudita em suas múltiplas formas de linguagem, nos famosos concertos didáticos."
Para Juan, o panorama da música antiga no Brasil – e na América Latina como um todo – está em constante evolução. "Vejo que há cada vez mais pessoas sensíveis a este gênero. O campo está se abrindo, e iniciativas como o festival de Juiz de Fora, a Oficina de Música de Curitiba, e o Festival de Belo Horizonte têm um papel muito importante neste processo, já que trazem grandes referências internacionais e investem na formação não apenas dos músicos, mas também do público", observa o regente.
Janete acrescenta que, frente às potencialidades tecnológicas da atualidade, conseguir manter o encanto de jovens músicos por instrumentos antigos é uma vitória. "A música antiga parece finalmente ter encontrado uma estabilidade, em núcleos implementados em escolas de música, na vida acadêmica e na consolidação de festivais. Acho incrível a quantidade de jovens que ainda se interessam, em meio a tanta tecnologia, por instrumentos de corda de tripa, sem a ajuda de chaves. Tem sido muito especial acompanhar o interesse por essa práxis e poder contribuir para manter viva essa chama."
Como Juan, Janete também defende que eventos como o Festival de Música Antiga são cruciais para que o gênero se mantenha em contínua renovação. "Há sempre o descobrimento de novos repertórios e novas interpretações, e acho essencial manter o estudo da ‘arqueologia’ do estilo, como se faz nestes festivais, tanto no âmbito nacional quanto internacional. Em tempos de globalização, é preciso entender e apreciar o idioma musical de cada nação e talvez até repensar o conceito de nação no âmbito da música antiga."
Camerata Antiqua de Curitiba/festival de música antiga
Hoje, às 20h30
Cine-Theatro Central
(Praça João Pessoa s/n)

